29 março 2012

Cento e um poemas de amor #6


“Je veux”

Todo meu afeto, meu amor

Lave minhas mãos com a tua bonança
Sejamos a gota que semeia lírios
E chovamos esperança
Que a paixão súbita nos acolha
Em revolto mar
Que nos leve para longe
Em outra vida, outro lar

Renasceremos quantas vezes?

Todo meu afeto, meu amor
Para a cura
Todo meu afeto, meu amor
Para a dor
Todo meu afeto, meu amor
Para sermos

E renasceremos quantas vezes?

Mergulhados no vazio de desencontros
Achei no céu anil, nosso recanto
E de areia ventou nossos corpos
No fundo do mar.

E só morremos uma vez. 

MASNAVI

26 março 2012

A Réplica


Permaneço imóvel como tela. E ainda que quisesse colorir o branco, seria por traços inimagináveis e ainda obscuros. Enganei-me como artista. Não havia grande obra para ser detalhada a quatro mãos. Vieste portando o estandarte do verdadeiro amor tão cheio de detalhes que ofuscava-me e meus pequenos gestos. Seus quadros não estavam assinados. Não havia artista por de trás das telas afogadas em imensos círculos e traços amorfos, querendo-se perfeitos. Mostrando-se perfeitos. Suplicando “me ame”, “me ame”. Apresentando-se como a virilidade de afeto infinito. Desculpe artista. Não há grandes castelos que se construam em um dia e é assim que as paredes se descontroem tão facilmente em pequenas pedras, flutuantes, neste imenso mar. E era esperado que as portas estivessem sempre abertas. As frágeis promessas não se sustentam no ar. Procuram abrigo em qualquer outro lugar, assim, descartavelmente. Ocupando espaços ocos desta atmosfera ardilosa e sem piedade. Por fim, minha obra se manteve, outrossim, com a mesma ternura e afeto que tornou-se abismo e redenção. 

MASNAVI

Sorriso de Flor - In Natura

Me abriu um sorriso lindo
Um sorriso de flor
No sertão ou em San Diego
Vou buscar esse amor
Com a força de outrora
Da labuta no campo
Calumbi, juazeiro, ingá
Me protejam os santos
Um dia encontro a minha paz
Na praia ou na cachoeira
Agora eu tenho que plantar
Na roça pra vender na feira
E assim vou seguindo a vida
De encontros e despedidas
Na varanda da casa grande
Vejo a grande avenida
E assim vou seguindo a vida
De encontros e despedidas
Na varanda da casa grande
Vejo a serra perdida

Pipas


Lindas pipas sobrevoam meu jardim
Dançam com o vento,
Em passos largos, sem rumo assim
Tateiam a liquidez rarefeita de amor
Voam alto, libertas, multicor 



E em dias claros, se entregam a direção
A imprecisão do tempo
A velocidade, a indecisão
Fazem piruetas,
Pequenas quedas,
Riem-se de mim

E quando estou triste
Preenchem todo meu jardim
Delicadas infantes,
Tocam-me a face
e colocam-me pra dormir.

MASNAVI

22 março 2012

Fragmentos



Aqui – Tulipa Ruiz
“e no fundo, bem no fundo, você sabe como
isso é legal; ver alguém que entenda essa sua transição”

Fragmentos

Catarina,
Preciso voltar. E sem a tua mão, Catarina, nada seria possível. Porque sigo o amor que me ensinaste como farol e vejo que há estrelas caídas que tentam me confundir no negro céu.  Ainda preciso enfrentar este mar furioso para te agradecer pessoalmente pelo respeito, pelo cuidado e pela paz que me ajudaste a encontrar.
Preciso voltar. E não há uma só palavra que me convença do contrário. Foram tantas ondas que me arrastaram até aqui e nunca imaginei que me encontraria intacto. Estamos intactos, Catarina. E se não é o amor que nos deu a vida, não consigo enxergar mais nada que nos manteria vivos depois de tantas prisões. E eu Catarina, só consigo me assustar cada vez mais com os homens.
Tendo a sorte como amuleto, encontrei o poeta e ganhei uma poesia. Guardei no bolso para lembrar-me que há gentileza no caminho e há também amor. O amor do silêncio, o amor que não se anuncia, o amor do estar aqui. O moinho-mundo atravessa-nos como furacão.  E a força da natureza humana escolhida foi devastando com toda sua raiva, as flores, as matas, as árvores... Quando não sobrou nada, vi a vida nua como deve ser. E que sorte a minha contemplar o mar ingenuamente junto a ti poesia. Não há sujeira que se misture a essência de amor. Não há mentira que submerja a poesia. A nudez sempre existirá. E Catarina, sigo nu. Indignado. Preciso voltar. - Masnavi

21 março 2012

Se desfaz a fantasia


Seguia tua dança
Sem o corpo-alvo
Com a alma-medo
Peito entreaberto
Esperando
O esperar

Agora que a vida
Revelou os movimentos
Os vultos vieram com os ventos
O tormento
É atormentar

E neste palco
Trocou-se o figurino
Desmascarado, já sem brilho
Fez-se verme em seu lugar
Suas vestes,
Transformaram-se em serpentes
Que encantavam amargamente
O meu corpo;
Meu cegar.

Os atores
Eram bichos ardilosos
Fantasmas horrorosos
Que dançavam sem parar.

O seu canto
Que era doce e suave
Tão efêmero
Quanto às letras
Que surgiram,
A revelar.

E na sombra
revelava-se o monstro
empunhando as diademas
gargalhando sem parar

A besta cuspia escarros
E desejos
Cambaleando sem cessar

E o palco vai sumindo
A platéia vai partindo
E o cenário
A desmontar

Os atores tomam seus lugares
Desfazem-se das vestes
E espantam-se ao espelho
Ao ver-se idêntico ao atuar. 

A história
quem já sabe
O sentir é o que há. 

(e não há limite para o mal)

MASNAVI

19 março 2012

A queda d'agua

Inerte
A gota cai
O pingo
Pinga
A poça 
forma
o poço
Que escorre
no eco
de si
o silêncio
do vão. 

MASNAVI

Silhouette Illusion


Ref. Sinfonia n.º 5 (Mahler)

Soam trompetes e clarinetes

na fanfarra da estação

Troca as cores e as luzes,

Moderada sensação.

O cenário descortina, os vultos se lançam em direção

a bailarina, vai perfeita, estendendo-lhe a mão

qualquer par que lhe convenha,

Conduzirá seu corpo - vão

 

MASNAVI

15 março 2012

Valerie


Doces olhos de primavera
Tons pastel, quase incolor
Poesia que espera
Explodir-se multicor.

Inocência quase lírica
Transborda aos prantos,
a doçura;
e aqui eu seguro sua mão.  MASNAVI

Doce menina


Suaves margaridas e fitas de cetim
Vestido em cor suave,
Aroma puro de jasmim

Ah, bela vida
Trouxe rosas para mim
Esta luz em simpatias
Este amor que não tem fim

Doces cachos, coloridos
Amarelinhos de por do sol
Inocência, paz e brilho
Faça de mim, o seu farol.

MASNAVI

13 março 2012

Nenhum homem é uma ilha

No Man is an Island - John Donne

"No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as a manor of thy friends or of thine
own were; any man's death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee".


Somos feixes, apertados de silêncio
Quase bolhas que rompe, pelo chão
Estrelas caídas, que fogem de vazio
e se vêem vazias composição.
O coração
É um barco, que navega pelo rio
Sem pudor, arrebentando a escuridão
Abraçando as flores,
e as árvores em desatino
procurando escapar de solidão.
Somos frágeis, asas de passarinho
em gaiolas sem travas,
Espalhadas pelo vão
Não voamos muito além do ninho
Não há fôlego, nem imaginação. MASNAVI

06 março 2012

Cento e um poemas de amor #5

"Que minhas mãos sejam feito rios
entre teus cabelos.

Meus seios, feito laranjas maduras.

Meu ventre, uma gamela cálida para tua virilidade.

Minhas pernas e meus braços sejam como portas,
como portos para as tuas tempestades.

Meus cabelos, como galhos de algodão.

Que todo o meu corpo seja rede para o teu,
e minha mente a tua panela,
a tua planície"

("Bíblia", de Gioconda Belli)

05 março 2012

Cento e um poemas de amor #4



Ouço sons
que me chamam
Pelo nome
do engano

Não me vê,
Inominável.
Não sou eu,
neste retrato.

Cala.
Essa vida contada,
Parece inventada.

Cala.
O que senti, o que sinto
Não se mede em escala

Pára.
Se há outro caminho
Terei de segui-lo,
Por uma outra estrada.

Fala.
Se houver infinito
O amor não se cala. MASNAVI

04 março 2012

Cento e um poemas de amor #3

"Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa" A Banda mais bonita da cidade

Amor, meu amor
Faça uma prece a meu favor
que me proteja
de toda dor,
e me dê força,
para ser maior. MASNAVI

03 março 2012

Cento e um poemas de amor #2

"Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque".
Perto e Distante - Tiê