22 dezembro 2012

Cento e um poemas de amor #9



Frágeis caramelos reluzentes
Doces, doces, doces,
Perdidamente.

Silencia o ar,
Arduamente

Acreditando,
Piamente

Na mentira que conduz
Latentemente;

Seu coração perdido
Docemente
Frágil, frágil, frágil,
Caramelo reluzente. 

MASNAVI

27 novembro 2012

Cinza


Minha alma encontrou-se
Empoeirada num cantinho;
Tinha brilho e outras coisas
Despedaçadas no caminho;

E na sombra do quadrado
Vi meu rosto refletido
Retrato mágico plastificado
Beleza trágica, reluzindo.  

Quem sabe a prece
Que me salva
Quem sabe a dor do meu espinho;
Sabe a fome, que não mata
Sabe o amor, que cala o frio. 

MASNAVI

15 outubro 2012

Aglutinando-se


Além-mar via-se os pássaros rodopiando sem parar. Planavam junto ao vento, feito coisa pra sonhar. Daqui da areia, imaginava-me bicho, procurando se esquivar do perigo que seria nos encontrar. Quando escrevo a poesia, cada linha tem o seu lugar. E se procurasse a palavra “pássaros”, “areia” e “mar” rimariam de forma torta com qualquer coisa que conseguisse musicar. Foi assim, sem querer, que o ouvido começou a viciar-se nos tons coloridos do piano, da flauta doce e dos latidos do seu lar. Amontoando as peças, as cantigas, os cantos de ninar. O mais profundo da alma infinita, a contradição do místico, a tristeza do seu olhar. Transformou-se em poesia, mais um quadro tão cinzento quanto o ar. Mas falava de amor, tão profundo, que faz o coração paralisar. Coisa triste essa, de cantar, outro banto pra cessar; o que há por dentro nada fora pode transformar. Quando a morte chega não há grito. É o silencio em seu lugar. MASNAVI

20 agosto 2012

A Cidade


Mais uma noite. Aflita, ela abre a janela da varanda para sentir o vento chacoalhando seus cabelos, arrepiando os pelos de seus braços. Ela olha para todos os lados, anda em círculos, senta, levanta e tenta ver o que há de novo na vida dos outros. Nada. Uma escuridão imensa de sua sacada. O que estaria pensando aquela gente toda? De onde viriam alguns gritos tão longe? Quando a cidade toda parece dormir, porque estaria ela sempre acordada. E são calafrios, tempestades, suores, tremores, redemoinhos secretos que retorcem o peito toda vez que cessa a luz. Ela queria descobrir todos os segredos, viver todas as vidas, resgatar todas suas histórias para viver mais vidas do que poderia aguentar. E seu corpo esgota. Inesgotável ansiedade de desejar. E cada vez que ouve fogos, entorpecentes penetram seus ouvidos, alucinando seu desespero e medo de alucinar, embriagando todos os sentidos, fazendo-a rezar. Apague minha luz esta noite. 

MASNAVI

28 junho 2012

Do Desejo

Febre, ânsia, desejo
Quero-te quente, molhada, fervendo
Quero lamber-te por inteiro,
Calmamente, penetrando;
Degustando seu cheiro doce,
Perdendo-me, sonhando;

Quero-te mulher, selvagem,
Quero invadi-la com meus dedos,
Sentir sua vulva úmida,
Acariciar seus pelos;

Quero dar-lhe toda liberdade
Quero ouvir seus secretos desejos
revelando-se suavemente em sussurros,
Meu suor pingando nos teus lábios,
Derramando meu liquido nas tuas coxas,
Consumindo-te por inteira;

Vou dizer-te do meu sexo no teu ouvido,
Penetrando-lhe lentamente,
Sentindo o calor do teu rio
Lambuzando-me de felicidade.

MASNAVI

26 junho 2012

Do amor silencioso


Vai cigana, rodar tua saia!
Não precisa temer
O silencio que cala;
O destino se faz
Com a mão na batalha
Tuas flores colhidas,
Vai e espalha!

Teu amor é bonança,
Tuas vontades, confiança;
Quem liberta o pássaro
Acredita no livre arbítrio.

Masnavi

25 junho 2012

Poesia de 48 horas – Poesia de libertação



Hora 01
Meu coração despertou.
E ouviu sua música antiga.

Hora 02
Como o falcão que arrebata o pássaro,
Essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei pra mim, já não me vi:
Naquela lua meu corpo se tornara,
Por graça, sutil como a alma.

Hora 03
Suave melodia dos teus olhos,
Revelando os pequenos silêncios dos teus lábios
E o teu sorriso que ilumina este espaço
Único de contemplação.

Hora 04
Viajei então em estado de alma
E nada mais vi senão a lua,

Hora 05
Derramou-se o vinho,
Inundando a vida com seu cheiro florido
Doce, doce, doce

Hora 06
Surge a música e a poesia
Concretizando-se nos intervalos
Do meu olhar.
Revelando-se em abismos da minha entrega
Libertos em suaves gotas da tua saliva
Do teu colo úmido,
Chamando-me suavemente;

Hora 07
Junto ao teu corpo perdi-me nas horas
E o vaso do meu ser
Dissolveu-se inteiro no mar;

Hora 08
Logo a graça e a beleza,
Tomaram seus desejos em rédeas;
Ardendo-se em brasa,
Revelando-te canção.

Hora 09
Como se fosse este o último poema
Deferindo cada palavra,
Sussurrada,
Encantada,
Degustada
Como mel.

Hora 10
Vem.
Conversemos através da alma.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Hora 11
Despir o seu corpo como dança
E ouvir tuas melodias sussurradas,
Em diversos tons, ritmos, cores;
Neste absurdo que chamamos de vida e
eu que vibro com a sorte
de ver meu ouro derramado 
Nos quatro cantos deste espaço, sem limite.

Hora 12
Ouço Bach.
Ouço a vida.
Seu chamado extasiado de possibilidades;

Hora 13
Revelo meu passado, meu presente,
Minhas letras
Alguns segredos que voaram de mim;

Hora 14
Na calmaria das horas
Distraio-me da vida uns instantes

Hora 15
Fixamente nos seus olhos.

Hora 16
Fixamente nos seus olhos.

Hora 17
Fixamente nos seus olhos.

Hora 18
Perdidamente nos seus olhos.

Hora 19
Embriagada,
Transbordando-se.

Hora 20
Dança comigo?
Hora 21
Se houver um dragão no caminho,
Usa o amor como esmeralda
Que o verde brilho nos salvará do monstro.

Hora 22
Vem, pega na minha mão.
Dança comigo
Feche teus olhos e ressurja dentro de si.
Neste baile de belezas infinitas,
Nada há de apagar as luzes
E cessar a canção.

Hora 23
Tu e eu podemos ser infinitos
Livres, enfim.

Hora 24
E se vier com teus sons multicor,
Invadirá minha alma profundamente
em amor sensível e poético
Que alimenta-se da música,
Da música, da música,
A música, a música...

Hora 25
...

Hora 26
...

Hora 27
...

Hora 28
Minha prece silencia o mundo.

Hora 29
Minha prece agradece a sorte.

Hora 30
Minha prece pede mais.

Hora 31
Não deve a alma ascender
Quando o sopro gentil da paixão
Inspira seu fogo
E seus delírios?
Quando quase morremos
Em meio ao silêncio;
Temerosos das regras ocultas
E do não-dito.
Hora 32
Quero dizer-te, pois,
Que não sou fazedor de regras
Que meu silêncio é respeito
Que meu silêncio é gratidão e espera
Que meu silêncio é timidez
Que meu silêncio é medo.
E que tudo que mais anseio é ouvir-te.

Hora 33
“O coração não se inquieta,
Não se alimenta de lágrimas.
Ele é um pássaro delicado,
A quem só apetece o açúcar”. (Rumi)

Hora 34
Qual é sua derradeira canção, pequena?
Meus ouvidos atentos querem voar.

Hora 35
Alegria e distribuição de afeto aos meus.

Hora 36
Saudade.

Hora 37
Toque minhas mãos geladas
Aqueça meus olhos
que te seguem,
Viajantes.

Hora 38
Afinando o violino.

Hora 39
Relembrando Vivaldi.
Sentindo o Inverno.
Sentando-se na Fontana Di Trevi

Hora 40
Vem,
Dança comigo
A música nos levará
Como pequenas partículas, livres no ar
Em belas piruetas e giros
Vem.

Hora 41
Veja minhas ridículas cartas de amor.

Hora 42
Sou filha das estrelas,
Do céu e do mar.
O não-lugar esta guardado
Para se amar.
Vens?

Hora 43
Dança comigo esta dança?

Hora 44
Ri-se de mim,
Meus medos.

Hora 45
Saudade.
Estou apaixonada.

Hora 46
Boa noite, Scott.


Hora 47
“Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro.
E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera...” (Rilke)

Hora 48
Um dia pude sentir a sagrada Primavera
No frio de um inverno. 

MASNAVI