15 março 2011

Tratado sobre o espírito livre


 
Espero que minha alma torne-se livre, assim como meu coração. Não me canso de arrastar este corpo pesado sob a montanha que não vejo o fim, mas os sonhos já me mostraram a vista de seu cume e só assim terei meu lugar no mundo. O não-lugar. (Masnavi)

Tratado sobre o Espírito Livre

Somos seres infinitos presos em corpos fardados a finitude. Temos em nossas mãos a vida ilimitada em suas possibilidades e nosso papel já escrito por nossa natureza individual. Pensamos-nos livres porque desconhecemos as causas inconscientes que motivam nossas escolhas. Somos livres para optar por coisas superficiais, acessórias, mas o nosso destino é determinado pela nossa natureza individual. A vida não é um tornar-se com base em exemplos e ideais coletivos. Ela não tem objetivos ou metas a serem cumpridas. Viver é desenvolver potencialidades inatas. Viver é experimentar, aprender e compreender. Só a ampliação da consciência pode nos devolver a liberdade original, nossa identidade dispersa, refletida nos espelhos – amigos e conhecidos – que formam nosso mundo. Estamos presos, incapazes de identificarmos nossa identidade individual projetada em nossos semelhantes. Mas quando nos desfazemos de algumas vestes, deixamos cair o véu sob os olhos, as vistas menos embaçadas, aos poucos, vêem o surgimento de nossa identidade iluminada. E assim, o homem não constrói teorias, estuda ou pesquisa os outros, mas descobre a si mesmo.
A libertação de sua circunstância envolve sensibilidade, intuição, abertura dos sentidos e muita coragem. Coragem para livrar-se da própria pele humana, da estrutura de rebanho que se diz sociedade, da fragilidade dos sentimentos demasiadamente humanos. E é necessário abandonar todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela fé cega, pelo egoísmo e pela esperança. É preciso ir além do pensamento ordenado. Não há limitação para o vir-a-ser. Quando despidos, quando legítimos, quando conscientes da maneira como afetamos uns aos outros e completamente conscientes de que tudo se transforma ao nosso toque, seremos capazes de ver o infinito das possibilidades do sentir, da transformação, do autoconhecimento e expansão do nosso próprio existir nesta realidade difusa, seremos assim espíritos livres do próprio corpo, atravessando qualquer dimensão, qualquer realidade. Libertar-nos-emos da divisão do nosso mundo interior e mundo exterior. Sairemos deste limbo que nos submerge para o nosso mundo interior e não nos permite a entrega consciente a vida, aos outros, a aceitação de nossas fragilidades humanas. Quebraremos nosso falso moralismo, nossas idealizações, nossa fuga da vida que nos protege para dentro do mundo interior, este universo pobre e limitado. E seremos a leveza da consciência, seremos o amor universal e o amor ao outro. E tudo só será possível através do Outro.
Eu sou, porque você me vê.   

MASNAVI