30 março 2011

A Seta e o Alvo


"- Eu faço versos como quem morre." - Manuel Bandeira

Se sonhar, se dançar, se mover
Pega na minha mão.
Se cair, debruçar, absorver
Leva meu coração.
Intensamente ousado,
Profundamente dado a devaneios
Em versos de sangue
Semeia o que é verdadeiro
De gota em gota,
Transborda um mundo inteiro. MASNAVI

28 março 2011

Noites com Sol


Sem cálice, sem música
Envoltos na embriaguez
Desejo voraz de te ter
De fato, de quatro, num quarto,
Num mato, num chão.
Numa dança, sem ritmo,
Numa briga, num porão
Abro pernas, delicadas
Cheiro doce, de verão
Sua vulva, bem molhada
É a minha inspiração
Minha cabeça, entre as pernas
Encontra luz, na escuridão
Teu gemido, teu silêncio
Ofegante, meu coração
É a língua que dança solta
Em cada lábio com precisão
Procurando, teu gemido
Teu prazer e redenção.
Te lambendo, penetrando
Calmamente, com a mão
Te sentindo, te amando
Teu prazer, minha religião.

Beijo a nuca,
Teus sentidos
Teu seio rígido, a tua mão
Me abandono, me excito
É suave devoção

Minhas caricias, meus gemidos,
Teus silêncios e respiração
Derramando nosso liquido
Fundindo as almas na estação
Essa dança tão sublime
De suave percussão 

MASNAVI

Palavras e Silêncio



Poesia, poesia
Derramada no braço, como tinta
Alquimia de sangue em sentimento
Acalento calmo, como luz do dia
Abraço terno, por um momento.  

Assimétrica poesia
Cega os olhos com tantos enfeites
Confetes pardos, de fantasia
O cinza escuro de seus deleites.

Amanhece poesia,
Abrindo as cortinas empoeiradas de silêncio
Saindo do raso da retina
Mergulhando em profundo mar sedento

Abraça o medo, poesia
Acaricia-lhe os cabelos em afagos
Oferece toda cura para toda dor
O amor não é grande segredo
E tudo poderá se revelar
No fundo do mar. 

MASNAVI

Palavras e Silêncio


Tatuado no braço
Palavras que dizem
O que o silêncio omite
A não simetria da forma
Expressa o paradoxo
Então sai de si
Mergulha no raso
Tropeça no claro
E enxerga no escuro
O que está guardado
No fundo do mar. 

Ana Paula Matos 

26 março 2011

Outono

Amar-nos-emos como o silêncio marítimo dos dias de sol e dos faróis silenciosos, com todos os limites imperfeitos dos contornos da vida. Haverá sempre um riso contrariado, uma camisola esquecida, uma palmeira chicoteada pelo vento salgado da beira-mar, um gesto doloroso que nos fere sem pensar. Juntos somos um feixe apertado, perto demais para o conforto, às vezes, juntos somos os faróis em silêncio porque não avisamos o resto da humanidade para nos passar ao lado. Causaremos naufrágios um no outro, desgraças épicas de chuva como chicotes, causaremos tempestades selvagens e fúrias. Noutros tempos seremos outras coisas: as manhãs de silêncio e sal com o zumbir de insectos secretos, os dias agridoces de mãos dadas e camisolas esquecidas e pequenas contrariedades. Juntos somos um feixe, deus, um feixe tão apertado. Amar-nos-emos até aos limites mais remotos do silêncio.

Infinito Particular


No dia que o cinza invade as nuvens
O vento  transborda derramado em chuva
Quando há relâmpagos e trovões
A alma pede ir pra lua
Lá encontra seus balões coloridos
Com sorrisos divertidos e cabelos engraçados
Dizendo frases de doçura
Dizendo amor, como aventura
Há diamante que reluz
Dando movimento a dança
Que se leva a lua

MASNAVI

24 março 2011

A música em mim - Canção III

Quero.
Em toneladas exageradas de vida
A intensidade de entrega desmedida
Ultrapassado jeito de querer.
De querer junto. Sempre dentro.
Para todo e qualquer momento 
Todos os tons de sentimento
Derramado em pincéis multicor 

E a vida se abrindo
O céu se construindo
E a base do chão
Sem se perder.

Porque eu não to na moda
Eu não to na roda
Sigo pra dançar
Sempre, pra ser.

E se vier me dando o braço
Te mostro meu compasso
E você me dá o tom pra enternecer
E a música tem seu ritmo
Intervalos desconhecidos
E silêncios que nos faz estremecer

Por que sou o instrumento
De intenso sentimento
Que faz todo som aparecer. 

MASNAVI

15 março 2011

Tratado sobre o espírito livre


 
Espero que minha alma torne-se livre, assim como meu coração. Não me canso de arrastar este corpo pesado sob a montanha que não vejo o fim, mas os sonhos já me mostraram a vista de seu cume e só assim terei meu lugar no mundo. O não-lugar. (Masnavi)

Tratado sobre o Espírito Livre

Somos seres infinitos presos em corpos fardados a finitude. Temos em nossas mãos a vida ilimitada em suas possibilidades e nosso papel já escrito por nossa natureza individual. Pensamos-nos livres porque desconhecemos as causas inconscientes que motivam nossas escolhas. Somos livres para optar por coisas superficiais, acessórias, mas o nosso destino é determinado pela nossa natureza individual. A vida não é um tornar-se com base em exemplos e ideais coletivos. Ela não tem objetivos ou metas a serem cumpridas. Viver é desenvolver potencialidades inatas. Viver é experimentar, aprender e compreender. Só a ampliação da consciência pode nos devolver a liberdade original, nossa identidade dispersa, refletida nos espelhos – amigos e conhecidos – que formam nosso mundo. Estamos presos, incapazes de identificarmos nossa identidade individual projetada em nossos semelhantes. Mas quando nos desfazemos de algumas vestes, deixamos cair o véu sob os olhos, as vistas menos embaçadas, aos poucos, vêem o surgimento de nossa identidade iluminada. E assim, o homem não constrói teorias, estuda ou pesquisa os outros, mas descobre a si mesmo.
A libertação de sua circunstância envolve sensibilidade, intuição, abertura dos sentidos e muita coragem. Coragem para livrar-se da própria pele humana, da estrutura de rebanho que se diz sociedade, da fragilidade dos sentimentos demasiadamente humanos. E é necessário abandonar todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela fé cega, pelo egoísmo e pela esperança. É preciso ir além do pensamento ordenado. Não há limitação para o vir-a-ser. Quando despidos, quando legítimos, quando conscientes da maneira como afetamos uns aos outros e completamente conscientes de que tudo se transforma ao nosso toque, seremos capazes de ver o infinito das possibilidades do sentir, da transformação, do autoconhecimento e expansão do nosso próprio existir nesta realidade difusa, seremos assim espíritos livres do próprio corpo, atravessando qualquer dimensão, qualquer realidade. Libertar-nos-emos da divisão do nosso mundo interior e mundo exterior. Sairemos deste limbo que nos submerge para o nosso mundo interior e não nos permite a entrega consciente a vida, aos outros, a aceitação de nossas fragilidades humanas. Quebraremos nosso falso moralismo, nossas idealizações, nossa fuga da vida que nos protege para dentro do mundo interior, este universo pobre e limitado. E seremos a leveza da consciência, seremos o amor universal e o amor ao outro. E tudo só será possível através do Outro.
Eu sou, porque você me vê.   

MASNAVI

Psicomorfose - Processo de composição poética


As palavras me perseguem como vozes no ouvido do esquizofrênico, como perseguição para os psicóticos, como oscilação para a Mania e melancolia para a depressão e é preciso agarrá-las uma a uma, como euforia e destrinchá-las num processo investigatório para entender o papel de cada uma neste exercício de afeto e dor. A bipolaridade etimológica nasce do sentido que procuro dar a sua aparição. E sem entrega, eu nada seria.
MASNAVI

11 março 2011

Doce escorpião


Your energy is healing to my soul
You are a beautiful surprise.

Tocou a campainha timidamente. Não estava acostumada aquela nova casa, com tantos elementos, tantos símbolos. Ela abriu a porta sorrindo, cachorros latindo e seu jeito despojado de agir por de trás dos dentes travados e também tímidos. Sempre que a via, havia certa impressão de um reencontro de velhos amigos, cúmplices de um amor escondido, ingênuo e bastava se aproximar para que tudo se transformasse na entrega de desejo, de fome de alma, na vontade de fazer o corpo falar de amor como devoção do outro, como loucura insaciável de querer. E aquele querer era perdição e encontro, uma corda que puxava as sensações mais profundas para a superfície e assustava e se reconhecia. Partes ainda obscuras se iluminavam, prazeres desaguavam dos encaixes, das manobras, da umidade que transpirava da pele. E a pele se fazia suporte tênue do infinito de possibilidades, era a porta destrancada para deixar o vento entrar e tocar seus cabelos que se embaraçavam na boca, nos olhos, no ouvido, nos penduricalhos que enfeitam e se perdem.
O corpo empilhado, embaixo, em cima, ia se perdendo, se perdendo, as paredes iam sumindo, as luzes, a cama, os sons e de repente, naquele outro lugar, havia outro abraço acolhedor. E se escutava poesia:

Deságüe seu rio tranqüilo
No meu leito de início de mar
Atravesse um braço de terra
E pule as ondas do mar

Soltemos as amarras dos barcos
E deixemos à deriva levar
Certos que o vento aponta
O mesmo destino de cais

Molhemos os braços, as pernas
Tranqüilos, quase a boiar
Sintamos cada milímetro de água
Submersos, a nos encarar

Nossos olhos são guias
Que não nos deixa afundar.

Nossa fragilidade tão aguda
Deixa nossa alma falar.
Deixa nosso espírito comungar.
Deixa nos revelar.
Haverá coragem para se abandonar?

E em cada beijo na sua boca, em cada olhar encarado havia uma prece. Suas preces revelavam seus desejos mais profundos. “Apaixone-se por mim”, “Queira só a mim”, “Ame-me como uma prece que resgate tua infância”, “Ame-me como uma puta que faz o que você pede”, “Doe-se como um artista se doa a sua loucura”, “Leve a cigana pra perto das estrelas. Só posso através de você me permitir”. “Faça meu carroção parar. Quero ter raízes”. Tantos devaneios. Sua energia era a cura para sua alma. Ela era uma linda surpresa.

MASNAVI

03 março 2011

Carta de um marinheiro XII

"Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo."

Tudo que trazia no bolso era a Carta aos Marinheiros. Era a recordação de sua fé, de sua coragem e principalmente de seu sonho romântico desta vida. Diz que amou apenas uma mulher, mas que não teve tempo. Injustificavel vento que muda de rumos. Vivendo anos na nau, era de fácil entendimento. O vento leva e o capitão guia. 
Sua última memória foi o poodle preto correndo rua abaixo e como fechar os olhos o fazia sentir-se entregue. Ele também corria. (e gostava de sorvete de flocos). 

02 março 2011

Masnavi e o Mar


Vejo o mar
Com olhos profundos
Da líquida sensação
Do ar

Caminho ao vento
Junto à beira do mar
Revolto tormento
Que balança ao luar

Veleiros tranqüilos navegam
de par em par
Fitam comigo
E com meu desejo
De me banhar

Te vejo tão doce
Tranqüilo azul estrelar
Toca meus pés
Que tremem de medo
Ao te deixar me beijar

A espuma acaricia
Suavemente
Tudo que eu quero lhe dar

Estou aqui
E estou presente
Em quase todo o lugar

MASNAVI

Prosa Cigana #2


Vai cigana, ser livre na vida!
Tua saia rodada é a tua saída
Vai cigana, se livra dos medos
Isso não é pra você
Você conhece o Segredo

Filha das estrelas
Sabe do teu símbolo
Presa a tua tenda
Conhece o teu abrigo

Amar, amar livremente
Andar, andar eternamente
O carroção que roda e leva tua alma
Leva e traz parte de ti

Vai cigana, sabes o caminho
Tua luz protege o perigo
O Sinto segue o próprio destino
E renasce no olho do bicho

E se o coração quiser entregar
Teu mar infinito
Dê também tua poesia
E teu olhar mais tranqüilo

MASNAVI

01 março 2011

Ana e o Mar - Canção #2


Vem meu mar
Deixa entrar
Eu vou estar,
Com você

Vem me dar
Todo ar
Que entra e sai
De você

As ondas que abraçam as pedras
O sol que ilumina o rio
A chuva que alimenta a terra
O fogo que aquece o frio

O amor que sustenta a alma
O medo que já existiu
A vida que quer ser serena
E a paz como um desafio

Não se prenda a outros amores
Vamos juntos mergulhar no rio

Vem que eu te dou a mão
Vem que eu te dou abrigo
Vamos encher o céu de estrelas
Iluminando todo nosso caminho

Vem que eu te enxergo longe
Teu desejo é o meu desatino

Ah, vem meu mar
Eu vou entrar
De corpo inteiro no Rio
Lá vou estar
Entregue ao meu destino

Que é você...

Masnavi