21 fevereiro 2011

A Obra de Arte


Caminhava lentamente na calçada observando o movimento leve da folha nas árvores e dos pássaros no ceu. Subiu os degraus de seu prédio e abriu delicadamente a porta do apartamento que vivera alguns anos. Não reconhecia o vazio dos cantos e as novas cores das paredes, já descascadas. Em seu peito, a paz de quem nascia do ventre de uma mãe acolhedora, do concreto de suas conquistas e do espírito livre em sua plenitude.
Olhou para trás e a viu reluzente a meia luz, seus olhos formavam grandes luas prateadas, que refletiam um verde profundo. Estendeu-lhe a mão e colocou-a ao lado de um quadro, emoldurando na parede o encaixe perfeito das pinceladas de Tango que se via na madeira. Ali ela ficou intacta, abraçada a parede, sensualmente despida, com olhares que preenchiam qualquer vazio. Imóvel, ele se sentou no canto do quarto e preferiu acompanhá-la com seus olhares e pensamentos. Tratava-se de sua grande obra de arte.
Olhou a composição de seu corpo, encharcando-se com o estilo de seus traços, procurando suas sombras, nuances, a tensão dinâmica de pinceladas firmes diluídas nas gotas de claro rosa maternal, que davam vida ao seu coração e ao movimento avermelhado de sua alma. A parede alaranjada era suporte de sua gênese, desta magia que expandia sua existência em todo universo como arte. Então, ela arrancou a tinta da parede descascada para revelar o azulado legitimo que estivera lá. Arrepiou os braços, nuca e virilha, desejante, confiante que era dona de si e permitindo se deixar levar, suavemente a sua vontade de amar, sua vontade de pertencer, de ser. De ser finalmente livre, como a obra de arte que só ela reconheceria nos olhos dele. Aquele homem devoto, que entregou a própria alma ao sonho de ser artista, recusando-se a mediocridade cotidiana, que sempre procurou sua grande obra e ali, diante dela, sucumbiu em partículas de luz que radiavam do seu corpo por todos os lados, dando vida aos cantos escuros do seu espírito e transformando-lhe em mar.
Então sua obra tinha vida.
Era sua própria vida, no concreto de sua casa reconstruída e na dimensão que ora transbordava em lados diferentes de realidade e que se conectavam sagradamente no entrelaçar de seus olhares. Paradoxalmente, a experiência profunda revelava a simplicidade de poder tocar sua obra com os dedos, sem medo, sem história, no vácuo que representava estar no presente. Não antes, nem depois. Ali. Inteiro. 
E estar presente só era possivel

MASNAVI