16 fevereiro 2011

Amor além dos poemas de amor

Amor além dos poemas de amor
(XXI - Rotina de árvore)

Desceu a rua do beco para ir ao botequim. Enquanto descia, a rua envelhecia os tons da tarde mas não prometia a entrada da noite nem o recomeço dos dias. Aquele instante não era de alívio, não era mais uma hora de comer grãos ou mais uma hora de não pensar em nada. Nada de pensar que pensar em nada era a forma mais espontânea de viver. Nada de pensar que o ser humano inventou filosofias e compromissos distintos dos animais. Era sentir-se sem se saber sentindo. Que mal haveria nessa rotina de árvore? Mas nem sempre ele foi assim. Tivera sim alguma noção de sua vida. E por mais que fosse essa noção verdadeira, foi uma mentira que lhe convinha pra se dar continuidade. Saber da própria vida não significa saber da vida. Restou que tudo que encontrou foi uma maneira de se esconder que lhe serviu de fantasia. Bastante já o tinha procurado de si em si mesmo e nos outros. Fez até o contrário. Olha que deu certo... Mas sem perceber, aposentou-se de ter maiores informações do que era ou deixava de ser, só pra se ocupar da forma mais simples de ser: ser. CS