28 fevereiro 2011

Celebração - 26/02/2011


Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que vai florescer
As flores da próxima estação

Vamos celebrar
Nossa existência discreta
A experiência secreta
Mergulhar, sem saber

Vamos caminhar
Sem sentido
Encontrando abrigo
Sem querer, sem temer

Vamos celebrar a poesia
A canção com mais vida
Que nos abraça
Pra ser.

Masnavi

Arpoador - 20/02/2011


O arpoador guarda segredos
desejos sinceros
de dentro do mar

O céu, as estrelas
Meu Rio de Janeiro
Minha origem marítima
A luz do meu cais

A ti revelarei em segredo
O pequeno mistério
Do silêncio do mar

A natureza de ser por inteiro
e metade da alma
entregue no ar

Masnavi

24 fevereiro 2011

Amor Perfeito


Pequeno amor-perfeito,
Fechada, fechadinha
Desabrocha suas pétalas
Com graça, engraçadinha

Transborda sua dor
Na imaculada sementinha
E faz brotar frondoso pé
De ilusão.

Exala o perfume da infância,
Tão pura, tão Clarinha
Dança em campos floridos
E sonha
...tão sozinha

Pequeno Perfeito-amor
Sem palavras, tão quietinha
Silencioso mel,
adoça a boca
...e não sacia.

Quer sentir todo universo
Com a raiz que não se estica

Ah! Esta florzinha,
Agarrada a sementinha
Será capaz de dar os frutos
Infinitos como se queria?
Será capaz de sentir a terra
preparada para sua estadia?

Pequeno, perfeito-amor
Será que queres ser colhida?

O mundo é um campinho
de formosas margaridas
O mundo é um moinho
que roda a alma e gira
O mundo é aquela lua
Que contempla a nossa vida.

MASNAVI

23 fevereiro 2011

Cançãozinha


Lindo como o mar
Pronto pra estancar
Suas pedras no rochedo
Sua alma no luar

Eu vou te encontrar
Esteja, vou achar
Como a guia no ponteiro
Como barco a navegar

E você vai estar
Suave como vento
Delicada, vai ficar
Vai me deixar entrar. 

MASNAVI

21 fevereiro 2011

A Obra de Arte


Caminhava lentamente na calçada observando o movimento leve da folha nas árvores e dos pássaros no ceu. Subiu os degraus de seu prédio e abriu delicadamente a porta do apartamento que vivera alguns anos. Não reconhecia o vazio dos cantos e as novas cores das paredes, já descascadas. Em seu peito, a paz de quem nascia do ventre de uma mãe acolhedora, do concreto de suas conquistas e do espírito livre em sua plenitude.
Olhou para trás e a viu reluzente a meia luz, seus olhos formavam grandes luas prateadas, que refletiam um verde profundo. Estendeu-lhe a mão e colocou-a ao lado de um quadro, emoldurando na parede o encaixe perfeito das pinceladas de Tango que se via na madeira. Ali ela ficou intacta, abraçada a parede, sensualmente despida, com olhares que preenchiam qualquer vazio. Imóvel, ele se sentou no canto do quarto e preferiu acompanhá-la com seus olhares e pensamentos. Tratava-se de sua grande obra de arte.
Olhou a composição de seu corpo, encharcando-se com o estilo de seus traços, procurando suas sombras, nuances, a tensão dinâmica de pinceladas firmes diluídas nas gotas de claro rosa maternal, que davam vida ao seu coração e ao movimento avermelhado de sua alma. A parede alaranjada era suporte de sua gênese, desta magia que expandia sua existência em todo universo como arte. Então, ela arrancou a tinta da parede descascada para revelar o azulado legitimo que estivera lá. Arrepiou os braços, nuca e virilha, desejante, confiante que era dona de si e permitindo se deixar levar, suavemente a sua vontade de amar, sua vontade de pertencer, de ser. De ser finalmente livre, como a obra de arte que só ela reconheceria nos olhos dele. Aquele homem devoto, que entregou a própria alma ao sonho de ser artista, recusando-se a mediocridade cotidiana, que sempre procurou sua grande obra e ali, diante dela, sucumbiu em partículas de luz que radiavam do seu corpo por todos os lados, dando vida aos cantos escuros do seu espírito e transformando-lhe em mar.
Então sua obra tinha vida.
Era sua própria vida, no concreto de sua casa reconstruída e na dimensão que ora transbordava em lados diferentes de realidade e que se conectavam sagradamente no entrelaçar de seus olhares. Paradoxalmente, a experiência profunda revelava a simplicidade de poder tocar sua obra com os dedos, sem medo, sem história, no vácuo que representava estar no presente. Não antes, nem depois. Ali. Inteiro. 
E estar presente só era possivel

MASNAVI

18 fevereiro 2011

Silêncio primitivo



Anoitece nesta lua cheia
Calma e quente luz afora
Os sonhos livres se declaram
Cantando lágrimas de suor.

Tua flor, revelada
Frágil beleza, aprisionada
Tanto brilho, tanta força
Gira e roda, até que dança

Pego em suas mãos pequenas
Entrelançando-as em minhas mãos
Saudosas.
Livremente corremos para a infância. 

MASNAVI

Plexo Solar

Chama amarela queima vorazmente
O centro do meu universo

Expande meu movimento
Constantemente,
Pra dentro do universo conjunto
E para fora do meu infinito
Que junto,
Passo a passo
Absorve o mundo. 

MASNAVI

16 fevereiro 2011

Amor além dos poemas de amor

Amor além dos poemas de amor
(XXI - Rotina de árvore)

Desceu a rua do beco para ir ao botequim. Enquanto descia, a rua envelhecia os tons da tarde mas não prometia a entrada da noite nem o recomeço dos dias. Aquele instante não era de alívio, não era mais uma hora de comer grãos ou mais uma hora de não pensar em nada. Nada de pensar que pensar em nada era a forma mais espontânea de viver. Nada de pensar que o ser humano inventou filosofias e compromissos distintos dos animais. Era sentir-se sem se saber sentindo. Que mal haveria nessa rotina de árvore? Mas nem sempre ele foi assim. Tivera sim alguma noção de sua vida. E por mais que fosse essa noção verdadeira, foi uma mentira que lhe convinha pra se dar continuidade. Saber da própria vida não significa saber da vida. Restou que tudo que encontrou foi uma maneira de se esconder que lhe serviu de fantasia. Bastante já o tinha procurado de si em si mesmo e nos outros. Fez até o contrário. Olha que deu certo... Mas sem perceber, aposentou-se de ter maiores informações do que era ou deixava de ser, só pra se ocupar da forma mais simples de ser: ser. CS

Nasci assim, bêbada


Nasci assim, bêbada.
Misturando a liquidez da poesia
No concreto da forma humana
Assustando os desatentos
Desafiando os libertários.

Nasci assim, bêbada.
Embriagada na minha loucura real
Perdida nos moinhos de Dom Quixote
Acreditando ser espírito de alma livre
Correndo no caminho largo e florido.

Acenando a esta gente que ri-se de mim
Beijando a face das estrelas e pedindo pra ficar
Pedindo para tocar a lua
Para seus olhos me iluminar.
E as vezes pedindo para parar
Parar um instante para eu contemplar. 
(contemplar-te)
MASNAVI

15 fevereiro 2011

Amanhecer


Acordava pela manhã, esticava-se na cama e agradecia. Agradecia pela contemplação do amanhecer, por seus braços e pernas rígidas, por seu sorriso e seu descanso. Procurava sempre lembrar-se de uma oração em diversas línguas. Gostava assim, em seu próprio ritual.
Inventava, acreditava e consagrava, tornado-se parte de sua história. Tornando-se impulso de sua própria alma. Tornando-se pedaço de seu coração. E então, abrir os olhos era uma experiência sagrada, na qual caminhara lentamente rumo a sua liberdade. E fazia tudo por um único amor.  MASNAVI

03 fevereiro 2011

A Morte do Amor - FEV/2000

Quantas foram as manhãs claras que iluminaram as flores do meu jardim e sorriam como crianças à água e a mim. Desde muito pintei meu jardim com azul, me trazia calma e esperança. As coisas sagradas me ensinaram a amar as flores, todas elas, mesmo as que estavam murchando com o tempo. Eu as regava, as colhia, as amava. Poucas flores brotaram com tanto amor, muitas o vento me levou, outras não cresceram, mas havia uma especial, robusta, verde e vermelha como as flores deveriam ser.


Que mundo onírico foi este que versei? Pareciam trechos de uma alma vasta, de uma lágrima verdadeira.

Sinto.

O que mais sinto é não ver mais flores naquele campo, são poucas as sementes que nascem do absurdo e se vão para jamais serem vistas novamente. Quando desço as escadas sempre vejo uma cidade grande, aqui onde moro e não consigo me envolver com fumaça. Sobem, descem, desaparecem. Todos.

Será que posso ser sincera comigo mesma para sentir dentro de mim a beleza da verdade única e sonhar sempre? Queria o sonho, todos têm um sonho. Minha amiga queria a chave que a levasse dentro de sua própria alma e conseguiu após tantos livros lidos navegar no horizonte de si mesma e encontrar nas fábulas sua pedra preciosa, sua verdade. Na verdade, ela queria ser dona de uma livraria, um acervo, daqueles grandes, que pudessem fechá-la dentro do lirismo da humanidade. Sonho modesto. O meu sonho é parecido, quis sempre brincar com a vida e com a alma dos outros, no sentido alegre da palavra brincar. Eu queria uma casa grande e me responsabilizar por várias crianças, transmitindo a filosofia e humanizando-as conforme o sistema as corrompia. Poderia ensina-la a música ao som do coração. Corre Léo! Não mexa no cabelo da Maria! Vamos cantar e rir das bolinhas que caem no teto quando as lançamos! São verdes e fofinhas, elas voam, voemos crianças! Voemos para dentro de nós mesmos onde não há a mentira, que as bolinhas nos leve ao altar. Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! Marcos venha cirandar! Larga esta bola menino, depois vamos todos jogar.

Parece mesmo uma confusão mental que me disponho agora, mas é um sonho. Como eu disse no princípio tudo que gosto são inúmeras flores no meu jardim. A princípio não me baseio no toque sagrado de qualquer escritura, mas daquela que já me foi dada ao ganhar a vida e em meio a tantas florestas que viraram pó, tossi tanto que adoeci. Adoeci muito, mas felizmente não foi mortal. Aqui nesta cidade muitos ficaram doentes, morreram e não sabem. Passa um, dois. Nossa! Aquele está lotado! Eu quase morri, mas sempre que estou quase morrendo corro no campo e o vento trata de me devolver inocência.

Não sei mais o que fazer, pretendia jogar ostras ao mar o dia todo para salvá-las, mas ninguém quis me ajudar. A praia é longe daqui e as ostras são muitas para pequenas mãos. São pequenas e se pensarmos que as mãos são pequenas, assim será também o objetivo. Meu objetivo começou grande, mas foi diminuindo com o tempo e eu precisava resgatá-lo daqui de dentro. Ultimamente não tenho tido espaço para objetivos, minha cabeça está se enchendo de fórmulas secretas que não sei usar. É Einstein, Borh, Newton. Parecem semi deuses da ciência e eu sou apenas uma futura violinista. Que voz foi esta? Só podia ser. Aquele é meu irmão dizendo que eu desafino. Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor, só privilegiados tem ouvido igual ao seu. Não sou Bach, mas me esforço. Só queria poder tocar o instrumento e tocar as pessoas, mostrar que eu as amo em uma melodia suave de Beethoven. Não, não, Schubert! Puxa, até Elis Regina saberia transmitir. Pouco importa isso agora, preciso regá-las.

Gostaria tanto de um elogio agora, como aqueles que minha afilhada me faz. Você tá tão linda prima! Falta um dente nela, é de leite ainda. Ela é uma flor. Ainda temos algumas. Gosto muito de rosas, mas ultimamente as flores do campo me chamam mais atenção. Aprendi a ser selvagem com elas. Hum, são os pássaros! Adoro estes cantos!

Um, dois. Nossa! Como aquele está lotado!

Todos adoeceram esquálidos, mais um gênio explodiu no concreto dos aviões. Estava declarada a morte. Senti no coração mais que tudo, quando ouvi planando ao longe um avião que jogava... Acabou! Como? Não mais existe.

Não mais existe.

Não mais existe.

Engraçado, Maria estava apaixonada e as paixões alegres fazem nascer o amor e o contentamento. Como diria Descartes o amor é uma emoção da alma causada pelo movimento dos espíritos vitais que a leva a unir-se voluntariamente aos objetos que lhe parecem convenientes. Tudo era conveniente na cidade. Menos o amor. É piegas demais para os bolsos. Deixe isso para as crianças que ainda não tiraram seus pés do sonhar. Falta afetividade no olhar.

No olhar.

O olhar.

Fui arrastada para este caminho, pelas forças vitais. Elas me conduziam a lugares longínquos onde via uma beleza encantada e sagrada. Eu as consagrei sozinha, mistifiquei. Não quero desmistificar, quero ter fé nos meus sonhos.

Falta afetividade no olhar. 

*Aqui silencio meu violino. Qualquer dia destes uma pianista poderá me abraçar.

Aline Castro