17 setembro 2010

Tratado das Paixões Invisíveis




- Felicidade, comandante. Só consigo pensar em felicidade.
- Cada vez que me sento na areia branca desta terra e vejo o mar, sinto felicidade. Ainda que encontre refúgio em tantas memórias, sinto este vento, delicado, tocando-me as faces e acariciando meus cabelos claros. Vencido enfim, pelo sentir. Vencido enfim por delicadas vestes rendadas, de moça de praia, de moça de vento, de moça sem tempo, de moça que foi e de moça que passa, de moça que mata e me anseia vida. Essa força mágica que me dispara em corrida larga, com pés descalços e cabeça erguida.
- Já foi tempo, comandante. É aqui, aqui e aqui. Hoje estamos. Eu estou, as ondas estão, você está. E o dia amanhecendo, a noite caindo, a lua chegando, seu véu nos cobrindo, a gente ficando.
- Sei que você se vai, comandante. E eu ficarei aqui, neste tempo presente, agarrado ao tempo como se ajoelhasse em prece pedindo suas bênçãos, abundância de luz, crédulo e devoto de algumas bobagens engraçadas.
- Desdenharei dos deuses, comandante. Perderei o medo nadando solto em mar revolto, sentindo a água abraçando-me e recolhendo-me para outros lugares lindos, para estarmos novamente aqui, aqui e aqui.
- Não se preocupe, comandante. Nossos corpos ausentes estarão aqui, aqui e aqui. Onde quer que admiremos o nosso estar. Derrubaremos castelos de areia e abriremos buracos imensos de luz, fazendo chover o sal das nossas ondas, transformando as águas e o oceano nesta imensidão azul que se confunde com o céu e nos torna humanos, pequenos humanos. Humanos mergulhados em oceanos encantados de moças de vento, que com suas asas imensas, tocam nossas sombras e nos abrem a imensidão. 

MASNAVI