10 junho 2010

Sonata de Inverno


Caminha o corpo sob os pés, bem calçados, ornamentados de panos de rigidez absoluta. O branco dos sobre tons espalha sobriedade ao acinzentado de calçadas largas e vazias, deste ir e vir noturno. Sua alma, catedrais imensas, de silêncio gelado, amplos cômodos cheios das coisas sem nome, das coisas sem forma, das coisas que são e não se apropriam, apenas coexistem com as paredes. E tudo que poderia existir, co-existe com a possibilidade de vir-a-ser quando somos inocentes, ingênuos e experientes. Por hora, construiu seu imenso templo de mármore, reluzente ouro das horas que foi preciso ser outro, o outro que nega, o outro que vive e morre em si construindo colunas épicas de controle e ânsia, almejando tornar-se luz, mas que acabaram derramadas pelos porões subterrâneos da cidade, nestas geladas noites de inverno, longuíssimas, de solidões e culpas, impedindo-lhe o sono de acompanhar-te. Caminha construindo-se em oposição a noite, numa beleza não do que é, mas do que poderia ser, em poucas possibilidades. 

"Entre o véu dos vivos e dos mortos, de todas as legiões de fantasmas e monstros, a fina, ténue linha do nosso silêncio. Comungamo-nos as longas noites e a escuridão primitiva de todas as coisas secretas que ninguém sabe, todos os gestos inúteis, todas as esperas, comungamo-nos inteiros, entre vivos e mortos e terrores de noites escuras. Devoramo-nos entre a celebração das coisas, vivas, que começam em novos círculos eternos e tudo o que foi antes de nós e é morto e está escondido, mas presente, apesar de tudo, entre as nossas linhas de silêncio". (Passionária)

Masnavi