30 junho 2010

Sombras de nós mesmos

Esta paciência para com o obscuro sentido de nossas vidas é atípica em uma época como a nossa, marcada pela impaciência com o vazio da vida. Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o "avanço" ou o "progresso" técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos e não as ideias nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil.
A medicina de Tchekhov - Luiz Felipe Pondé - Folha de S.P. 28 de Jun/2010


E procuramos nossas sombras
em calabouços de ouro e diamante
Desesperados para abrir as janelas
Enganados pela beleza
que só existe lá fora

Somos reluzentes de prata
Torres de bronze
com imensas colunas
trêmulas
Que se sustentam
No ar

Do alto de nossas almas
Nos jogamos sem coragem
Com os olhos fechados
O vento nos toca a face
O toque nos dá o sentido.

MASNAVI

28 junho 2010

Moreninha

Menina de olhos de fel
Sorri como favos de mel
Há! Que frescor de vida!
Essa moreninha...

Menina de boca vermelha
Dança a vida, como sereia
Alegra meu coração
Há! Que vida mais rica!

Moreninha,
Olhos tristes de felicidade
Esconde?
Esconde a maldade?
Apenas palavra
É salvação.

Há!
Realidade de vida. 

MASNAVI

Salve Saint Germain

A coragem é a vontade de conservar-se livre
Ensinou-me o mestre 

Salve, Saint Germain!
Na altura de meu coração

 
Onde o fogo da vida,
Queima a chama da essência.

 
Quando a supraconsciência
Elevar-se ao plano Eterno
O pai sincero, proclama
Salve, Saint Germain!

 
Alquimista, violinista, Renascentista
O mestre da transmutação

 
Proclamei seu nome três vezes
Lançaste sua luz
Na altura do meu coração!
O amor é a própria natureza do Segredo
E a chave é lançada em decretos.



MASNAVI

Poesia em três tempos

"Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões...
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa prá lembrar..." (Marina Lima)


1o.

Olhos abissais, persas
Pescoço sutil, energia feminina
Sutil.
Identidade misteriosamente traçada, sutil.
Olhar.
Troncos e membros complexos.
Harmoniosamente, sutis.

Sacia a própria sede
Bebe o próprio sangue
Entorpece os próprios sentidos.
As noites são como dias escuros

Desperta-te, luz, em vigília
Amplia-te a luz, alquimia.
Abraça-te, volúpia
Tira-te, o sexo

Distancia-se por segundos
Abandona-se por momentos leves
Senta-se ao seu próprio lado e olha-te
Do avesso

O que há dentro senão
O que de fora, se leva
O que, de dentro
Se empresta
O que, do avesso
Se rouba
O que, de dentro, engana

Haverá ali fragilidade maior que a beleza?

2o.


Ávida
Não toqueis o meu corpo impulso
Se o queres perdido em teu fogo
Sabes tenho-te já pronta
No escuro de um dia chuvoso

Simula o ar

Só sei você
Seu nome
Em lava
Derramando-me
Em delicados gestos

Silencia o ar

Coloca-me frente ao espelho
Quero ver meu corpo
Espelho – tocá-lo com os olhos
O nu do espelho das almas
O nu de silenciar, no olhar.

Sublima o ar

3o. 
...


 

24 junho 2010

Dia de Infinito

O dia de hoje é um milagre que se abre entre as brumas e nasce sem pedir. Desaguando nos morros, aquece os movimentos e continua o percurso nas rochas, nos matos, no homem. A luz atravessa o peito e move os membros no caminho das águas. O rio vai levando os pecados, os erros, as vaidades, transformando-os em pedregulhos perdidos no musgo, no alimento dos peixes, na vida submersa e escura da própria vida. E se fosse uma escolha? Seriamos capazes de nos reconhcer neste milagre? Seriamos capazes de não nos ferirmos nas pequenas rochas do caminho que não é firme, mas é o único que nos leva a algum lugar. 
Masnavi

21 junho 2010

Sonata de Inverno

Prólogo

Uma lua tímida que quer paz
Um lugar iluminado que me absorve e aquece
Uma lua que some quando amanhece
e os sonhos se vão.

10 junho 2010

Sonata de Inverno


Caminha o corpo sob os pés, bem calçados, ornamentados de panos de rigidez absoluta. O branco dos sobre tons espalha sobriedade ao acinzentado de calçadas largas e vazias, deste ir e vir noturno. Sua alma, catedrais imensas, de silêncio gelado, amplos cômodos cheios das coisas sem nome, das coisas sem forma, das coisas que são e não se apropriam, apenas coexistem com as paredes. E tudo que poderia existir, co-existe com a possibilidade de vir-a-ser quando somos inocentes, ingênuos e experientes. Por hora, construiu seu imenso templo de mármore, reluzente ouro das horas que foi preciso ser outro, o outro que nega, o outro que vive e morre em si construindo colunas épicas de controle e ânsia, almejando tornar-se luz, mas que acabaram derramadas pelos porões subterrâneos da cidade, nestas geladas noites de inverno, longuíssimas, de solidões e culpas, impedindo-lhe o sono de acompanhar-te. Caminha construindo-se em oposição a noite, numa beleza não do que é, mas do que poderia ser, em poucas possibilidades. 

"Entre o véu dos vivos e dos mortos, de todas as legiões de fantasmas e monstros, a fina, ténue linha do nosso silêncio. Comungamo-nos as longas noites e a escuridão primitiva de todas as coisas secretas que ninguém sabe, todos os gestos inúteis, todas as esperas, comungamo-nos inteiros, entre vivos e mortos e terrores de noites escuras. Devoramo-nos entre a celebração das coisas, vivas, que começam em novos círculos eternos e tudo o que foi antes de nós e é morto e está escondido, mas presente, apesar de tudo, entre as nossas linhas de silêncio". (Passionária)

Masnavi

Microconto forense

“Vocês não passam de uns burocratas de merda”. Escreveu no papel timbrado, autenticou em cartório, enviou três vias para cada um dos colegas e pediu demissão.

Thaysa Helena