09 fevereiro 2010

Retratos

A tarde de chuva molhava as janelas e os jasmins afogados, dependurados no canteiro. Para lá e para cá, ia-se o corpo nu, amarrado em seda pura. Os pés tocavam o chão, tateando suavemente o pedaço de madeira bruto, quente. Olhava a janela, esperava. Naquela mesma hora, todos os dias milhares de pessoas passavam de guarda chuvas, de ternos, de sapatos. Ela deseja qualquer vida, qualquer dedo que apontasse para baixo e dissesse “Ali. Agora essa é sua vida”. E ela sabia-se impossibilitada de renunciar a sua própria história para ver-se nascer em branco. Não havia branco ali, em ninguém.
Foi até a cozinha, alcançou um copo de água e voltou para a janela. Olhou para o lado, viu fotos antigas, acendeu um cigarro e apagou.
Voltou a janela, viu os pássaros pousando no telhado e voando para longe. Era como se também voasse e voltasse sempre ali, a espera.
Batem na porta, ela corre até o quarto, coloca um vestido, deixa o copo de água na cozinha. Ajeita o cabelo, se olha rapidamente no espelho.
Ele entra na casa em passos firmes, conhecedor de cada canto. Olha para ela, tira-lhe os cabelos dos olhos, beija-lhe a testa, pega-a pelo braço e a leva para a cama. Tira delicadamente seu vestido, cheira-lhe a pele, afaga seus cabelos, fecha os olhos e reconhece o seu sabor.
Levanta-se, coloca a roupa e beija-lhe a testa.
Fecha a porta.
A chuva ainda caia nas ruas, nas pessoas, nos carros. Ela se levanta, pega um copo de água, olha pela janela suas costas ficando cada vez mais longe.
Senta em uma cadeira, acende outro cigarro, respira fundo. Naquele instante não havia chuva, não havia copo, nem cigarros. Seu mundo era estático e tranqüilo. Seus sonhos atravessaram pela porta e pediram para entrar. MASNAVI