10 fevereiro 2010

Passarinho - Reescrevendo

Vivia.
Pulando de um lado a outro.
Acordando com o sol, dormindo com a noite.
Comendo migalhas à mão.
Satisfeita, contente
Procurando em vão
A vida que se passava no chão

Acordando com a noite, dormindo com o sol
Procurando a mim na multidão
Girando para cima e para baixo
Revirando por todos os lados

Chegaste.
Ao entrar, quebraste a portinha da gaiola
E as chaves que estavam no chão
Agora eu posso caçar meu alimento
Posso sentir a força do vento
Me fizeste livre, mas não inteira
Só eu poderei voar - MASNAVI

Reescrevo

"A dor cessará por completo. E o amor, enfim, tomará seu lugar. As estrelas contentes incitarão a lua, rechonchuda, a brilhar. Estás aqui, meu amor. Entre céu e terra o nosso encontro se dá. Rosas e jasmins abrirão espaço para o deleite, para os abraços. O sexo e a alma, em devassa comunhão, poderão se perpetuar. A natureza nos reserva um templo e um tempo. Meu segredo, meu orgasmo, meu cordeiro. Te tomo e só assim me salvarás."

Desejo. Mãos, alma e céu da boca.
Te entrego,
Na verdade, tudo.

Conheço. Coração, verso e pensamento.
Compreendo,
De verdade, muito.

Levo. Olhar, palpitação, encantamento.
É verdade: pouco.

E a vida tão singela
Anuncia o há de vir
Na poesia,
Tão concreta
Os sonhos vão ruir

Indo ao chão
Sem pensamento
Escravo próprio,
O desejo

Te entrego na verdade,
Tudo
É verdade,
É pouco. MASNAVI

09 fevereiro 2010

Dicionário de si

Recebo as palavras e quase posso ouvi-las no canto do ouvido, quando fechos os olhos. Algumas palavras soariam diferentes, com algumas pausas que você faz quando as diz. Nunca sei se as interpreta ou se dá pausas para conseguir pensar antes de dizê-las. Às vezes me imagino em uma grande história, pois estas pausas só surgem quando o assunto é doloroso ou quando você fala de si mesmo. E quando fala de si mesmo é como se também escutasse suas próprias palavras tão desconhecidas também para si, então repensamos juntos e vamos tateando outros inúmeros caminhos que acabam sendo a nossa história e esta história não teve tempo de ter fôlego para abrir, construir, reconstruir e vir-a-ser os grandes sonhos. Talvez porque os sonhos sejam sempre sonhos e a vida é mais concreta. E para SER é preciso ser. E para ser real é preciso honestidade e para construir é preciso naturalidade, impulso, vida e paixão. E sento-me na cama todos os dias antes de dormir para saber qual palavra no meio destas não existiu no meio do caminho. Enquanto no meu coração o vocabulário se estendia e surgiam palavras como compreensão, compaixão, intimidade, alegria...
Talvez escrever poesia seja sempre uma vertigem. O poeta acaba acreditando que a vida pode ser assim, em duas ou três palavras ‘encontraram-se e apaixonaram-se’; ‘encontraram-se, apaixonaram-se e foram felizes’.
- Porque você me ama?
E haveria uma lista infindável de dizeres.
Você preenche a existência, além de ser meu primeiro pensamento quando acordo.
Talvez os grandes amores se conheçam no metro, sem palavras, sem histórias.

MASNAVI

Retratos

A tarde de chuva molhava as janelas e os jasmins afogados, dependurados no canteiro. Para lá e para cá, ia-se o corpo nu, amarrado em seda pura. Os pés tocavam o chão, tateando suavemente o pedaço de madeira bruto, quente. Olhava a janela, esperava. Naquela mesma hora, todos os dias milhares de pessoas passavam de guarda chuvas, de ternos, de sapatos. Ela deseja qualquer vida, qualquer dedo que apontasse para baixo e dissesse “Ali. Agora essa é sua vida”. E ela sabia-se impossibilitada de renunciar a sua própria história para ver-se nascer em branco. Não havia branco ali, em ninguém.
Foi até a cozinha, alcançou um copo de água e voltou para a janela. Olhou para o lado, viu fotos antigas, acendeu um cigarro e apagou.
Voltou a janela, viu os pássaros pousando no telhado e voando para longe. Era como se também voasse e voltasse sempre ali, a espera.
Batem na porta, ela corre até o quarto, coloca um vestido, deixa o copo de água na cozinha. Ajeita o cabelo, se olha rapidamente no espelho.
Ele entra na casa em passos firmes, conhecedor de cada canto. Olha para ela, tira-lhe os cabelos dos olhos, beija-lhe a testa, pega-a pelo braço e a leva para a cama. Tira delicadamente seu vestido, cheira-lhe a pele, afaga seus cabelos, fecha os olhos e reconhece o seu sabor.
Levanta-se, coloca a roupa e beija-lhe a testa.
Fecha a porta.
A chuva ainda caia nas ruas, nas pessoas, nos carros. Ela se levanta, pega um copo de água, olha pela janela suas costas ficando cada vez mais longe.
Senta em uma cadeira, acende outro cigarro, respira fundo. Naquele instante não havia chuva, não havia copo, nem cigarros. Seu mundo era estático e tranqüilo. Seus sonhos atravessaram pela porta e pediram para entrar. MASNAVI

08 fevereiro 2010

Parafraseando a vida

My funny valentine,
Sweet comic valentine,
you make me smile with my heart

But dont change your hair for me
not if you care for me
stay little valentine stay
each day is valentine day

E a porta se abre. Sou eu que entro em casa, rosto cansado, guarda chuvas ainda pingando. Tiro meus sapatos, dou-lhe um beijo no rosto. Cheiro de casa, cheiro de conforto, cheiro de amor. Diferente dos outros dias a casa estava escura, uma música invadia a sala e eu sou levada pelas mãos ainda molhadas. Você me abraça forte, diz que me ama e que já se fazem muitos meses. Havia pequenos detalhes pela casa. Havia uma flor branca no balcão da cozinha, havia um incenso no chão, havia uma cama bem forrada, minha música preferida e nos olhamos tão honestas, tão esperançosas, tão cheias de vida.
- Quero que você seja para sempre.
Batem na porta.
Toc toc.
- Você esqueceu a porta aberta...
- Sim, me chamaram.
Então vá.
Amo você. Talvez isso seja a única coisa que dure para sempre. MASNAVI

04 fevereiro 2010

Dança Macabra

Toda noite despertavam-se as almas
nos homens
Vagando perdidas no vento
E desde que se foram,
despedindo-se
Restou o homem.

- No dia que você foi embora
não senti abraço, nem flores
Restou o homem.

MASNAVI

03 fevereiro 2010

Borboletas

Caminhou.
Parou.
Trouxe nas costas um saco,
Uma estopa
Milhares de borboletas coloridas
desprenderam-se e voaram

Giravam em piruetas circulares
jogavam-se do céu
e entrelaçavam-se em tranças,
traços.

Sentou
Deitou na grama
Viu um céu azul
A vida valia então a pena.

(Aline Castro)