11 janeiro 2010

Memórias da Escuridão

Éramos assim, lânguidos, sem cor. Não sabíamos muito bem como seria essa história de nascer. Apenas choramos, puxados para fora de uma barriguinha quente e úmida. Do lado de fora seguimos as vozes que sempre estiveram próximas e seguimos também os grandes silêncios. E por sermos assim, tão minúsculos, não sabíamos muito bem o que dizer sobre a temperatura deste lado de fora. Seguimos caminhando, arrastando brinquedinhos e insuficiências.
Quando nos tornamos jovens, éramos robustos, fortes e arrumamos brinquedinhos para testar a vida, nossos sentimentos. Não havia espaço para silêncios, não havia tempo para pausas, a nossa força nos impulsionava em grandes paixões e bruscas quedas. Facilmente levantávamos e corríamos em busca de algo. Algo. Qualquer algo.

Foi então que olhamos para nossos corpos robustos e nos vimos imperfeitos. Notamos que não éramos assim tão fortes, havia ali alguns músculos mais atrofiados do que outros. E nossas imensas catedrais se encheram de silêncios. Primeiro levaram nossos corpos, agora seria nossos corações. Até que aprendêssemos uma oração, nada mais nos salvaria. Havíamos caído no poço.

Na escuridão precisávamos reaprender a viver. Então começamos tateando as paredes, nos sentindo completamente sozinhos naquele infinito. E éramos muitos no mesmo lugar. Começamos uma luta silenciosa. Cada qual no seu canto, sem dividir suas sensações, imaginando que por estarmos juntos, seriamos obrigados a saber o que se passava dentro dos outros. E o não dizer, foi criando abismos ainda mais escuros dentro do poço e as paredes pareciam cada vez menores. Nós nos apertávamos em um espaço minúsculo, nos esbarrando e nos empurrando para outros lados.

Debatíamos-nos, cansávamos, desistíamos. Olhávamos fixamente para o alto, buscando uma maneira de sair dali. Olhávamos para as paredes e para si mesmos. Não conseguíamos nos enxergar, porque tudo era tão escuro. Havia muito medo de percebermos que estávamos morrendo e que não seriamos salvos por mais nada. Esperávamos um grande milagre. Então evocamos deuses e anjos. Tudo em vão.

Certo dia, um de nós levantou e gritou “Não quero morrer”. Então outra voz ao fundo disse “Também não” e percebemos que havia outras percepções na escuridão, havia vida, havia possibilidade. Passamos tanto tempo esperando que alguém se levantasse e viesse nos estender a mão, enquanto mal escutávamos suas vozes no silêncio.
E quem é você que diz que tem medo. – disse um de nós. Sou eu, de pele macia, cabelos longos, venha, dê sua mão.
Então passamos a nos tocar, todos, reconhecendo-nos. Dentro de nós havia um universo imenso e sabiamos que as sensações eram somente nossas, mas falar que elas existiam, falar como isso funcionava e confessar o medo, meu deus, como isso nos trazia alivio.

Desculpe-me – disse um de nós.

Éramos todos responsáveis por toda aquela miséria. Foram os não-dizeres que nos fizeram cair neste poço imenso e a incapacidade de nos olharmos nos olhos, nos desviou da saída.
E de repente saímos do poço, apenas caminhando, sem perceber que de tanto olhar para cima e contemplar o infinito de paredes, não notamos que havia um jeito de sair se conversássemos uns com outros formando uma imensa escada humana. A luz não tocava nossos olhos pela primeira vez, já havíamos sentido luz, mistério e felicidade; mas a luz tocava nossa alma de consciência e ensinamentos, porque agora saberíamos como fugir de cada poço, sem que nos desesperasse o medo.

No chão, olhando para toda aquela planice, enormes clareiras haviam se formado no caminho. Era a vida informando-se cheia de desvios e sinais; tão minúsculos quanto nossas quedas. Éramos cegos, mas isso não nos impedia de sermos felizes. Sim, fomos felizes. Mas hoje somos divinos. E os deuses? Os únicos deuses capazes de nós salvar são os que se manifestam em nós, não sobre nós. Não havia um grande milagre. Nunca seríamos salvos por grandes milagres. Tínhamos a vida em nossas mãos e a nossa responsabilidade pelo nosso destino, todos os dias, nos pequenos passos, esse era o grande milagre transformador, capaz de nos salvar de todas as dores.

MASNAVI