14 janeiro 2010

Homenagem a Zilda Arns

Homenagem a Zilda Arns

Convoco-lhes, majestosos reis e rainhas, a sair de seus impérios de cal e pedra para caminhar nas ruas onde habita seu povo. Convoco-lhes a olhares nos olhos desta gente para estender-lhes o braço e a manga em punho, com o braço que tanto lhe faltara nesta vida pequena e suja. Trazes as cores nos dedos para pintar-lhes o rosto em rubro tom. Trazes a palavra corrente, de mesmo calibre, para ajustar-lhes as medidas e a estima. Venham senhores, nobres senhoras, com a delicadeza de pássaros, dançando aos ares com a doçura do mel. Transbordem! Deságüem! Façam-se infinitos e gigantes nas ruas de caminhos reais e concretos, tão duros e retos que seremos capazes de pegar pelas mãos. Convido-lhes a mudar o universo, os pequenos mundinhos, ainda que por segundos de fé e de felicidade. E assim seremos salvos, pelas mãos imundas de mendigos esfarrapados, pelas mãos pretas de indigentes, nas ruas sujas de escarro e gritos. Convoco-lhes, majestosos reis e rainhas, a abrirem os olhos, a transformarem seu tempo, a tornarem-se humanos. MASNAVI

13 janeiro 2010

Tratado do Amor

E você se foi levemente, como se arrastasse flores num imenso jardim, assim, se despedindo entre sorrisos e abraços. Era como nuvens azuladas e branquinhas, pairando em um céu imenso. Não, não. Eu não pude ser assim. Na poesia que escrevemos havia muito mais cores e muito mais sabores que um simples azul e branco. E soava esta oração de lembranças com tantos dias, tantos sorrisos, tantas portas se abrindo, tantas mãos dadas em ruas sem cor, pois dávamos o tom do universo e o drama da poesia agora resumido a páginas e páginas de chuvas de palavras.
Dentro de nós um espaço imenso, capaz de acumular bocados de nós mesmos, tão perfeitamente acomodados que não havia espaço para ontem, nem para escuridão, nem para a dor, muitos menos para a descrença; porque sim, acreditávamos na palavra, no poema e na promessa. Mais que isso, na banalidade cotidiana de abrir e fechar portas, enxurgar-se nas toalhas, passar roupas, entrar no carro, pegar no trabalho, rir-se da vida sozinhos, lembrando-se de nós, sempre, carregando-nos onde quer que estejamos impossibilitados de não-sentir. MASNAVI

Tratado do Amor I

Primeiro me veio o golpe, em seguida a palpitação.
Nas manhãs de domingo surgiram novos dias, coloridos, ensolarados como o verão. Passaram por mim crianças, velhinhos, carrinhos de bebê, bicicletas; e eu contemplava no ar, as sensações que habitavam em mim. Nada me faltava, havia vida, sol e grama verde. Lembro-me bem da manhã seca que o sol não quis nascer e que te vi ausente.
O chão frio foi sentido pelas pernas e punhos que se apoiavam na escadaria. Eram longos degraus de vermelho intenso e havia também uma árvore fazendo sombra em minhas costas. Já fazia muitos anos que ali estava e permanecerei intacto, como parte da natureza. Esperarei às 17h, ao entardecer e será eterno.

A presença da tua ausência me faz companhia ao levantar, caminhar, viver e são as coisas do sentir que aniquilam e fazem nascer toda dor de amor que habita em mim. E fui amada como poesia e sonho, assim metafísico, sem ares de realidade. Quando todos pediam por menos, nós pedíamos por mais e mais. Pedíamos por amores ainda maiores e mais sedentos de doçuras, de promessas, de palavras. E nos amamos para sempre nesta poesia de vida, nos juramos eternos, nos bastamos nos tempos e a verdade é que nas vinte e quatro horas do dia eu só queria o sorriso da tua presença. Não era necessária a plenitude dos juramentos. O tempo também me apertava o passo e me fazia temer. E eu temia que você também não me bastasse, que nosso projeto fosse por demais grandioso e que a obstinação do além-limite nos fizesse viver eternamente em loucura e a nossa loucura era pouca para tudo que queríamos. MASNAVI

11 janeiro 2010

Memórias da Escuridão

Éramos assim, lânguidos, sem cor. Não sabíamos muito bem como seria essa história de nascer. Apenas choramos, puxados para fora de uma barriguinha quente e úmida. Do lado de fora seguimos as vozes que sempre estiveram próximas e seguimos também os grandes silêncios. E por sermos assim, tão minúsculos, não sabíamos muito bem o que dizer sobre a temperatura deste lado de fora. Seguimos caminhando, arrastando brinquedinhos e insuficiências.
Quando nos tornamos jovens, éramos robustos, fortes e arrumamos brinquedinhos para testar a vida, nossos sentimentos. Não havia espaço para silêncios, não havia tempo para pausas, a nossa força nos impulsionava em grandes paixões e bruscas quedas. Facilmente levantávamos e corríamos em busca de algo. Algo. Qualquer algo.

Foi então que olhamos para nossos corpos robustos e nos vimos imperfeitos. Notamos que não éramos assim tão fortes, havia ali alguns músculos mais atrofiados do que outros. E nossas imensas catedrais se encheram de silêncios. Primeiro levaram nossos corpos, agora seria nossos corações. Até que aprendêssemos uma oração, nada mais nos salvaria. Havíamos caído no poço.

Na escuridão precisávamos reaprender a viver. Então começamos tateando as paredes, nos sentindo completamente sozinhos naquele infinito. E éramos muitos no mesmo lugar. Começamos uma luta silenciosa. Cada qual no seu canto, sem dividir suas sensações, imaginando que por estarmos juntos, seriamos obrigados a saber o que se passava dentro dos outros. E o não dizer, foi criando abismos ainda mais escuros dentro do poço e as paredes pareciam cada vez menores. Nós nos apertávamos em um espaço minúsculo, nos esbarrando e nos empurrando para outros lados.

Debatíamos-nos, cansávamos, desistíamos. Olhávamos fixamente para o alto, buscando uma maneira de sair dali. Olhávamos para as paredes e para si mesmos. Não conseguíamos nos enxergar, porque tudo era tão escuro. Havia muito medo de percebermos que estávamos morrendo e que não seriamos salvos por mais nada. Esperávamos um grande milagre. Então evocamos deuses e anjos. Tudo em vão.

Certo dia, um de nós levantou e gritou “Não quero morrer”. Então outra voz ao fundo disse “Também não” e percebemos que havia outras percepções na escuridão, havia vida, havia possibilidade. Passamos tanto tempo esperando que alguém se levantasse e viesse nos estender a mão, enquanto mal escutávamos suas vozes no silêncio.
E quem é você que diz que tem medo. – disse um de nós. Sou eu, de pele macia, cabelos longos, venha, dê sua mão.
Então passamos a nos tocar, todos, reconhecendo-nos. Dentro de nós havia um universo imenso e sabiamos que as sensações eram somente nossas, mas falar que elas existiam, falar como isso funcionava e confessar o medo, meu deus, como isso nos trazia alivio.

Desculpe-me – disse um de nós.

Éramos todos responsáveis por toda aquela miséria. Foram os não-dizeres que nos fizeram cair neste poço imenso e a incapacidade de nos olharmos nos olhos, nos desviou da saída.
E de repente saímos do poço, apenas caminhando, sem perceber que de tanto olhar para cima e contemplar o infinito de paredes, não notamos que havia um jeito de sair se conversássemos uns com outros formando uma imensa escada humana. A luz não tocava nossos olhos pela primeira vez, já havíamos sentido luz, mistério e felicidade; mas a luz tocava nossa alma de consciência e ensinamentos, porque agora saberíamos como fugir de cada poço, sem que nos desesperasse o medo.

No chão, olhando para toda aquela planice, enormes clareiras haviam se formado no caminho. Era a vida informando-se cheia de desvios e sinais; tão minúsculos quanto nossas quedas. Éramos cegos, mas isso não nos impedia de sermos felizes. Sim, fomos felizes. Mas hoje somos divinos. E os deuses? Os únicos deuses capazes de nós salvar são os que se manifestam em nós, não sobre nós. Não havia um grande milagre. Nunca seríamos salvos por grandes milagres. Tínhamos a vida em nossas mãos e a nossa responsabilidade pelo nosso destino, todos os dias, nos pequenos passos, esse era o grande milagre transformador, capaz de nos salvar de todas as dores.

MASNAVI

A saborosa história de nós dois

Queijo com goiabada

Nasci queijo de coalho. De renda. Branquinho como neve secando ao sol do sertão. Ao som da fazenda. Salgadinho desmanchando na boca. Com quantos mimos me fizeram. Meus pais agricultores, agridoces, de vida, analfabetos. Temperaram-me no alho. Um olho no aboio, outro no coalho. Nada de passar do ponto. E assim cresci, achando-me pronto. Rei do sertão, força do cangaço. Me dei com pão, cuscuz, feijão, carne de sol e até melaço. Insumo de cana, álcool e açúcar. E com sal, então. Que ácida mistura. E a vida assim corria. Entre sabores fortes e fracos. Até que um dia... ou seria noite, linda e coroada, apareceu uma moça de sotaque engraçado. Era de fora, ora de dentro. Bonita. Delicada. Da vida encantada. Doce feito mel. Motivo da boca ter céu. Era ela. Tão sonhada. Minha amada goiabada. (T.)

07 janeiro 2010

Menina-Sem-Cabeça

E quantos quartos parcos
Formaram frascos translúcidos, largos
Opacos de verdes camadas
Claras
Como clarabóias gigantescas
No vasto lado
Onde havia muito
De nada

E a pequena menina, esperava
Um show de luzes
Claras,
Como caracóis, enroladinhos
Do lado do lago
Na mata.

Segurando o vidrinho
Frascos translúcidos,
Claros,
Brincando com a luz
Na água.

MASNAVI

05 janeiro 2010

Observando-te...

O sol refletia claro nas madeixas de luz e tocava lentamente seus olhos fechados, seus lábios rosados, a palidez dos teus traços finos. Descia lentamente teu corpo macio, teus seios rígidos, acalentados pelo peso de teus braços e por tua expressão tão silenciosa. Como queria tua pureza do sono, impregnada em tuas pernas e braços vivos. Então puxo lentamente o lençol de teu corpo, vendo-lhe respirar, queria sentir mais livre teus ares me tocando a pele e o ouvido.
E quando me toca, assim, em transe, meu coração preenche toda a luz que vem da janela e aquele meu corpo de tanta vida. E gosto-te assim, pura, princesa, acalantando-me a alma, dando-me paz.
E o sol encosta em teus olhos de mar, abrindo-os lentamente, esquentando-lhe a pele em movimentos lentos. Teu cheiro vai preenchendo o ar de um perfume suave, da pele, da tua pele branda que me lembra minha infância, me lembra minha outra vida que também tinha você. Então você acorda e é dia e teu desenho perfeito desdenha dos meus olhos infinitos. MASNAVI

04 janeiro 2010

Continuando o passar dos anos...

Vou copiar de um blog que adoro...

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.- As Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino

Chegou 2010... e tudo igual.