22 outubro 2010

Movimentações - Sedimentando


Lua cheia,
Pé na areia
Tom e voz
No violão

Devaneio
Um sonho
e meio
Som, sem voz
Linda canção

Brisa calma
Sol incendeia
Beijo de mar
Afago de areia

Quero dançar com você, Lua
Me permite esta canção?

Masnavi




21 outubro 2010

Felicidade - vô Tito


07 de setembro de 1919
19 de outubro de 2010

Em homenagem a José Mendes “vô Tito”

Felicidade

Quero ver minhas rosas florescerem
Dançando ao vento como o sertanejo
que conduz sua boiada pelo campo

Quero voltar para minha roça
dando vida as alfaces, as couves e ao agrião.
Ver crianças correndo com os cachorros,
E a vida, sendo

O sol nascendo tão perto
O rio correndo tão certo
E tudo passando por mim

Como um passarinho,
A vida abriu meu caminho
Neste cantinho que eu chamo de céu

Estou de volta minha roça,
Isso sim é felicidade.

Uma historinha de amor

Dona baratinha
Saiu da sua casinha
Batendo as asinhas
Para voar

Caro gafanhoto
Achava ela um broto
Sentou-se na graminha
E pois-se a rezar

- Volte baratinha,
a senhora ainda é mocinha
fique aqui pra eu te cuidar!

Dona baratinha, batendo as asinhas
pois-se a chorar.

Não chore baratinha,
Nossa vida é tão curtinha
Voe sem parar

Baratinha então voou.

Masnavi

17 setembro 2010

Tratado das Paixões Invisíveis




- Felicidade, comandante. Só consigo pensar em felicidade.
- Cada vez que me sento na areia branca desta terra e vejo o mar, sinto felicidade. Ainda que encontre refúgio em tantas memórias, sinto este vento, delicado, tocando-me as faces e acariciando meus cabelos claros. Vencido enfim, pelo sentir. Vencido enfim por delicadas vestes rendadas, de moça de praia, de moça de vento, de moça sem tempo, de moça que foi e de moça que passa, de moça que mata e me anseia vida. Essa força mágica que me dispara em corrida larga, com pés descalços e cabeça erguida.
- Já foi tempo, comandante. É aqui, aqui e aqui. Hoje estamos. Eu estou, as ondas estão, você está. E o dia amanhecendo, a noite caindo, a lua chegando, seu véu nos cobrindo, a gente ficando.
- Sei que você se vai, comandante. E eu ficarei aqui, neste tempo presente, agarrado ao tempo como se ajoelhasse em prece pedindo suas bênçãos, abundância de luz, crédulo e devoto de algumas bobagens engraçadas.
- Desdenharei dos deuses, comandante. Perderei o medo nadando solto em mar revolto, sentindo a água abraçando-me e recolhendo-me para outros lugares lindos, para estarmos novamente aqui, aqui e aqui.
- Não se preocupe, comandante. Nossos corpos ausentes estarão aqui, aqui e aqui. Onde quer que admiremos o nosso estar. Derrubaremos castelos de areia e abriremos buracos imensos de luz, fazendo chover o sal das nossas ondas, transformando as águas e o oceano nesta imensidão azul que se confunde com o céu e nos torna humanos, pequenos humanos. Humanos mergulhados em oceanos encantados de moças de vento, que com suas asas imensas, tocam nossas sombras e nos abrem a imensidão. 

MASNAVI

10 agosto 2010

Movimentações - Em construção

Procuro a solidão
Como o ar procura o chão
Como a chuva só desmancha
Pensamento sem razão
Procuro esconderijo
Encontro um novo abrigo
Como a arte do seu jeito
E tudo faz sentido
Calma pra contar nos dedos
Beijo pra ficar aqui
Teto para desabar
Você para construir
 "Esconderijo - Ana cañas"

Ela sabia.
Ela via.
Ela corria.
Quando parou,
tudo ficou para trás. - Masnavi  
 

30 junho 2010

Sombras de nós mesmos

Esta paciência para com o obscuro sentido de nossas vidas é atípica em uma época como a nossa, marcada pela impaciência com o vazio da vida. Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o "avanço" ou o "progresso" técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos e não as ideias nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil.
A medicina de Tchekhov - Luiz Felipe Pondé - Folha de S.P. 28 de Jun/2010


E procuramos nossas sombras
em calabouços de ouro e diamante
Desesperados para abrir as janelas
Enganados pela beleza
que só existe lá fora

Somos reluzentes de prata
Torres de bronze
com imensas colunas
trêmulas
Que se sustentam
No ar

Do alto de nossas almas
Nos jogamos sem coragem
Com os olhos fechados
O vento nos toca a face
O toque nos dá o sentido.

MASNAVI

28 junho 2010

Moreninha

Menina de olhos de fel
Sorri como favos de mel
Há! Que frescor de vida!
Essa moreninha...

Menina de boca vermelha
Dança a vida, como sereia
Alegra meu coração
Há! Que vida mais rica!

Moreninha,
Olhos tristes de felicidade
Esconde?
Esconde a maldade?
Apenas palavra
É salvação.

Há!
Realidade de vida. 

MASNAVI

Salve Saint Germain

A coragem é a vontade de conservar-se livre
Ensinou-me o mestre 

Salve, Saint Germain!
Na altura de meu coração

 
Onde o fogo da vida,
Queima a chama da essência.

 
Quando a supraconsciência
Elevar-se ao plano Eterno
O pai sincero, proclama
Salve, Saint Germain!

 
Alquimista, violinista, Renascentista
O mestre da transmutação

 
Proclamei seu nome três vezes
Lançaste sua luz
Na altura do meu coração!
O amor é a própria natureza do Segredo
E a chave é lançada em decretos.



MASNAVI

Poesia em três tempos

"Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões...
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa prá lembrar..." (Marina Lima)


1o.

Olhos abissais, persas
Pescoço sutil, energia feminina
Sutil.
Identidade misteriosamente traçada, sutil.
Olhar.
Troncos e membros complexos.
Harmoniosamente, sutis.

Sacia a própria sede
Bebe o próprio sangue
Entorpece os próprios sentidos.
As noites são como dias escuros

Desperta-te, luz, em vigília
Amplia-te a luz, alquimia.
Abraça-te, volúpia
Tira-te, o sexo

Distancia-se por segundos
Abandona-se por momentos leves
Senta-se ao seu próprio lado e olha-te
Do avesso

O que há dentro senão
O que de fora, se leva
O que, de dentro
Se empresta
O que, do avesso
Se rouba
O que, de dentro, engana

Haverá ali fragilidade maior que a beleza?

2o.


Ávida
Não toqueis o meu corpo impulso
Se o queres perdido em teu fogo
Sabes tenho-te já pronta
No escuro de um dia chuvoso

Simula o ar

Só sei você
Seu nome
Em lava
Derramando-me
Em delicados gestos

Silencia o ar

Coloca-me frente ao espelho
Quero ver meu corpo
Espelho – tocá-lo com os olhos
O nu do espelho das almas
O nu de silenciar, no olhar.

Sublima o ar

3o. 
...


 

24 junho 2010

Dia de Infinito

O dia de hoje é um milagre que se abre entre as brumas e nasce sem pedir. Desaguando nos morros, aquece os movimentos e continua o percurso nas rochas, nos matos, no homem. A luz atravessa o peito e move os membros no caminho das águas. O rio vai levando os pecados, os erros, as vaidades, transformando-os em pedregulhos perdidos no musgo, no alimento dos peixes, na vida submersa e escura da própria vida. E se fosse uma escolha? Seriamos capazes de nos reconhcer neste milagre? Seriamos capazes de não nos ferirmos nas pequenas rochas do caminho que não é firme, mas é o único que nos leva a algum lugar. 
Masnavi

21 junho 2010

Sonata de Inverno

Prólogo

Uma lua tímida que quer paz
Um lugar iluminado que me absorve e aquece
Uma lua que some quando amanhece
e os sonhos se vão.

10 junho 2010

Sonata de Inverno


Caminha o corpo sob os pés, bem calçados, ornamentados de panos de rigidez absoluta. O branco dos sobre tons espalha sobriedade ao acinzentado de calçadas largas e vazias, deste ir e vir noturno. Sua alma, catedrais imensas, de silêncio gelado, amplos cômodos cheios das coisas sem nome, das coisas sem forma, das coisas que são e não se apropriam, apenas coexistem com as paredes. E tudo que poderia existir, co-existe com a possibilidade de vir-a-ser quando somos inocentes, ingênuos e experientes. Por hora, construiu seu imenso templo de mármore, reluzente ouro das horas que foi preciso ser outro, o outro que nega, o outro que vive e morre em si construindo colunas épicas de controle e ânsia, almejando tornar-se luz, mas que acabaram derramadas pelos porões subterrâneos da cidade, nestas geladas noites de inverno, longuíssimas, de solidões e culpas, impedindo-lhe o sono de acompanhar-te. Caminha construindo-se em oposição a noite, numa beleza não do que é, mas do que poderia ser, em poucas possibilidades. 

"Entre o véu dos vivos e dos mortos, de todas as legiões de fantasmas e monstros, a fina, ténue linha do nosso silêncio. Comungamo-nos as longas noites e a escuridão primitiva de todas as coisas secretas que ninguém sabe, todos os gestos inúteis, todas as esperas, comungamo-nos inteiros, entre vivos e mortos e terrores de noites escuras. Devoramo-nos entre a celebração das coisas, vivas, que começam em novos círculos eternos e tudo o que foi antes de nós e é morto e está escondido, mas presente, apesar de tudo, entre as nossas linhas de silêncio". (Passionária)

Masnavi

Microconto forense

“Vocês não passam de uns burocratas de merda”. Escreveu no papel timbrado, autenticou em cartório, enviou três vias para cada um dos colegas e pediu demissão.

Thaysa Helena

26 maio 2010

Carta a Lou Salomé

Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro.
E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera......

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Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiara. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.


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Tapa-me os olhos: ainda posso ver-te
Tapa-me os ouvidos: ainda posso ouvir-te
E mesmo sem pés posso ir para tí
E mesmo sem boca posso invoca-te.
Arranca-me os braços: ainda posso apertar-te
Com meu coração como com a minha mão
Arranca-me o coração: e meu cérebro palpitará
e mesmo se me puseres fogo ao cérebro
Ainda ei de levar-te em meu sangue.

Rilke

25 maio 2010

Em Nome da Rosa


Minha pequena rosa
Abre-se em pétalas de cor avermelhada
Esparrama-se com sua forma aveludada
Contorcendo-se docemente
Frente ao sol

Com gotas em punho
Derrama-se em fertilidade
Faz brotar variedades
Um jardim inteiro,
livremente
Para unir-se, finalmente
Ao seu mar 

MASNAVI

11 maio 2010

Verdade de si


E há no fundo uma verdade infinita, tão rica quanto profunda. Nela não encontraremos um barbudo sentado dizendo para onde ir. Saberemos para onde ir, voltando; apenas.

06 maio 2010

Mãe

Quando nasce
Não se quer voar. Aprendemos a ser como.
Observamos atentos seus tons, suas cores vibrantes, seus afagos.
Quando nos deparamos com nossas...
Imensas asas,
Nos espelhos de sua face,
Não queremos mais voar.

Procuramos imensamente a maternidade
Entre nós.
Em mães que fomos, mães que somos, mães que perdemos, mães que nascem das mãos de quem não é mãe.
Procuramos imensamente o amor,
A felicidade, a proteção

Nestes caminhos giratórios,
Cheios de percalços, deixamos de sonhar com vôos.
Não queremos mais voar.
A vida nos permite abrir os olhos e ver;
Ver com olhos que enxergam de verdade

A felicidade encontra-se aqui,
Neste lugar
Em vôos mais altos e mais distantes;
Vá, minha borboleta, voe. 

MASNAVI

13 abril 2010

Relembrando Camus

Essa nostalgia da unidade; esse apetite de absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano.

09 abril 2010

Prosopoesia

O que é.
É o que foi construído.
Não vamos construir.
Construimos, construimos
Mudamos e permanecemos imóveis

O que se quer vazio.
Demora a desfazer-se.
O que se quer cheio
Demora a confiar-se.

Quando se preenche
Teme
Treme tanto
Quebra-se

Tornam-se
pequenas fagulhas de luz divina
Voando no ar. MASNAVI

10 fevereiro 2010

Passarinho - Reescrevendo

Vivia.
Pulando de um lado a outro.
Acordando com o sol, dormindo com a noite.
Comendo migalhas à mão.
Satisfeita, contente
Procurando em vão
A vida que se passava no chão

Acordando com a noite, dormindo com o sol
Procurando a mim na multidão
Girando para cima e para baixo
Revirando por todos os lados

Chegaste.
Ao entrar, quebraste a portinha da gaiola
E as chaves que estavam no chão
Agora eu posso caçar meu alimento
Posso sentir a força do vento
Me fizeste livre, mas não inteira
Só eu poderei voar - MASNAVI

Reescrevo

"A dor cessará por completo. E o amor, enfim, tomará seu lugar. As estrelas contentes incitarão a lua, rechonchuda, a brilhar. Estás aqui, meu amor. Entre céu e terra o nosso encontro se dá. Rosas e jasmins abrirão espaço para o deleite, para os abraços. O sexo e a alma, em devassa comunhão, poderão se perpetuar. A natureza nos reserva um templo e um tempo. Meu segredo, meu orgasmo, meu cordeiro. Te tomo e só assim me salvarás."

Desejo. Mãos, alma e céu da boca.
Te entrego,
Na verdade, tudo.

Conheço. Coração, verso e pensamento.
Compreendo,
De verdade, muito.

Levo. Olhar, palpitação, encantamento.
É verdade: pouco.

E a vida tão singela
Anuncia o há de vir
Na poesia,
Tão concreta
Os sonhos vão ruir

Indo ao chão
Sem pensamento
Escravo próprio,
O desejo

Te entrego na verdade,
Tudo
É verdade,
É pouco. MASNAVI

09 fevereiro 2010

Dicionário de si

Recebo as palavras e quase posso ouvi-las no canto do ouvido, quando fechos os olhos. Algumas palavras soariam diferentes, com algumas pausas que você faz quando as diz. Nunca sei se as interpreta ou se dá pausas para conseguir pensar antes de dizê-las. Às vezes me imagino em uma grande história, pois estas pausas só surgem quando o assunto é doloroso ou quando você fala de si mesmo. E quando fala de si mesmo é como se também escutasse suas próprias palavras tão desconhecidas também para si, então repensamos juntos e vamos tateando outros inúmeros caminhos que acabam sendo a nossa história e esta história não teve tempo de ter fôlego para abrir, construir, reconstruir e vir-a-ser os grandes sonhos. Talvez porque os sonhos sejam sempre sonhos e a vida é mais concreta. E para SER é preciso ser. E para ser real é preciso honestidade e para construir é preciso naturalidade, impulso, vida e paixão. E sento-me na cama todos os dias antes de dormir para saber qual palavra no meio destas não existiu no meio do caminho. Enquanto no meu coração o vocabulário se estendia e surgiam palavras como compreensão, compaixão, intimidade, alegria...
Talvez escrever poesia seja sempre uma vertigem. O poeta acaba acreditando que a vida pode ser assim, em duas ou três palavras ‘encontraram-se e apaixonaram-se’; ‘encontraram-se, apaixonaram-se e foram felizes’.
- Porque você me ama?
E haveria uma lista infindável de dizeres.
Você preenche a existência, além de ser meu primeiro pensamento quando acordo.
Talvez os grandes amores se conheçam no metro, sem palavras, sem histórias.

MASNAVI

Retratos

A tarde de chuva molhava as janelas e os jasmins afogados, dependurados no canteiro. Para lá e para cá, ia-se o corpo nu, amarrado em seda pura. Os pés tocavam o chão, tateando suavemente o pedaço de madeira bruto, quente. Olhava a janela, esperava. Naquela mesma hora, todos os dias milhares de pessoas passavam de guarda chuvas, de ternos, de sapatos. Ela deseja qualquer vida, qualquer dedo que apontasse para baixo e dissesse “Ali. Agora essa é sua vida”. E ela sabia-se impossibilitada de renunciar a sua própria história para ver-se nascer em branco. Não havia branco ali, em ninguém.
Foi até a cozinha, alcançou um copo de água e voltou para a janela. Olhou para o lado, viu fotos antigas, acendeu um cigarro e apagou.
Voltou a janela, viu os pássaros pousando no telhado e voando para longe. Era como se também voasse e voltasse sempre ali, a espera.
Batem na porta, ela corre até o quarto, coloca um vestido, deixa o copo de água na cozinha. Ajeita o cabelo, se olha rapidamente no espelho.
Ele entra na casa em passos firmes, conhecedor de cada canto. Olha para ela, tira-lhe os cabelos dos olhos, beija-lhe a testa, pega-a pelo braço e a leva para a cama. Tira delicadamente seu vestido, cheira-lhe a pele, afaga seus cabelos, fecha os olhos e reconhece o seu sabor.
Levanta-se, coloca a roupa e beija-lhe a testa.
Fecha a porta.
A chuva ainda caia nas ruas, nas pessoas, nos carros. Ela se levanta, pega um copo de água, olha pela janela suas costas ficando cada vez mais longe.
Senta em uma cadeira, acende outro cigarro, respira fundo. Naquele instante não havia chuva, não havia copo, nem cigarros. Seu mundo era estático e tranqüilo. Seus sonhos atravessaram pela porta e pediram para entrar. MASNAVI

08 fevereiro 2010

Parafraseando a vida

My funny valentine,
Sweet comic valentine,
you make me smile with my heart

But dont change your hair for me
not if you care for me
stay little valentine stay
each day is valentine day

E a porta se abre. Sou eu que entro em casa, rosto cansado, guarda chuvas ainda pingando. Tiro meus sapatos, dou-lhe um beijo no rosto. Cheiro de casa, cheiro de conforto, cheiro de amor. Diferente dos outros dias a casa estava escura, uma música invadia a sala e eu sou levada pelas mãos ainda molhadas. Você me abraça forte, diz que me ama e que já se fazem muitos meses. Havia pequenos detalhes pela casa. Havia uma flor branca no balcão da cozinha, havia um incenso no chão, havia uma cama bem forrada, minha música preferida e nos olhamos tão honestas, tão esperançosas, tão cheias de vida.
- Quero que você seja para sempre.
Batem na porta.
Toc toc.
- Você esqueceu a porta aberta...
- Sim, me chamaram.
Então vá.
Amo você. Talvez isso seja a única coisa que dure para sempre. MASNAVI

04 fevereiro 2010

Dança Macabra

Toda noite despertavam-se as almas
nos homens
Vagando perdidas no vento
E desde que se foram,
despedindo-se
Restou o homem.

- No dia que você foi embora
não senti abraço, nem flores
Restou o homem.

MASNAVI

03 fevereiro 2010

Borboletas

Caminhou.
Parou.
Trouxe nas costas um saco,
Uma estopa
Milhares de borboletas coloridas
desprenderam-se e voaram

Giravam em piruetas circulares
jogavam-se do céu
e entrelaçavam-se em tranças,
traços.

Sentou
Deitou na grama
Viu um céu azul
A vida valia então a pena.

(Aline Castro)

14 janeiro 2010

Homenagem a Zilda Arns

Homenagem a Zilda Arns

Convoco-lhes, majestosos reis e rainhas, a sair de seus impérios de cal e pedra para caminhar nas ruas onde habita seu povo. Convoco-lhes a olhares nos olhos desta gente para estender-lhes o braço e a manga em punho, com o braço que tanto lhe faltara nesta vida pequena e suja. Trazes as cores nos dedos para pintar-lhes o rosto em rubro tom. Trazes a palavra corrente, de mesmo calibre, para ajustar-lhes as medidas e a estima. Venham senhores, nobres senhoras, com a delicadeza de pássaros, dançando aos ares com a doçura do mel. Transbordem! Deságüem! Façam-se infinitos e gigantes nas ruas de caminhos reais e concretos, tão duros e retos que seremos capazes de pegar pelas mãos. Convido-lhes a mudar o universo, os pequenos mundinhos, ainda que por segundos de fé e de felicidade. E assim seremos salvos, pelas mãos imundas de mendigos esfarrapados, pelas mãos pretas de indigentes, nas ruas sujas de escarro e gritos. Convoco-lhes, majestosos reis e rainhas, a abrirem os olhos, a transformarem seu tempo, a tornarem-se humanos. MASNAVI

13 janeiro 2010

Tratado do Amor

E você se foi levemente, como se arrastasse flores num imenso jardim, assim, se despedindo entre sorrisos e abraços. Era como nuvens azuladas e branquinhas, pairando em um céu imenso. Não, não. Eu não pude ser assim. Na poesia que escrevemos havia muito mais cores e muito mais sabores que um simples azul e branco. E soava esta oração de lembranças com tantos dias, tantos sorrisos, tantas portas se abrindo, tantas mãos dadas em ruas sem cor, pois dávamos o tom do universo e o drama da poesia agora resumido a páginas e páginas de chuvas de palavras.
Dentro de nós um espaço imenso, capaz de acumular bocados de nós mesmos, tão perfeitamente acomodados que não havia espaço para ontem, nem para escuridão, nem para a dor, muitos menos para a descrença; porque sim, acreditávamos na palavra, no poema e na promessa. Mais que isso, na banalidade cotidiana de abrir e fechar portas, enxurgar-se nas toalhas, passar roupas, entrar no carro, pegar no trabalho, rir-se da vida sozinhos, lembrando-se de nós, sempre, carregando-nos onde quer que estejamos impossibilitados de não-sentir. MASNAVI

Tratado do Amor I

Primeiro me veio o golpe, em seguida a palpitação.
Nas manhãs de domingo surgiram novos dias, coloridos, ensolarados como o verão. Passaram por mim crianças, velhinhos, carrinhos de bebê, bicicletas; e eu contemplava no ar, as sensações que habitavam em mim. Nada me faltava, havia vida, sol e grama verde. Lembro-me bem da manhã seca que o sol não quis nascer e que te vi ausente.
O chão frio foi sentido pelas pernas e punhos que se apoiavam na escadaria. Eram longos degraus de vermelho intenso e havia também uma árvore fazendo sombra em minhas costas. Já fazia muitos anos que ali estava e permanecerei intacto, como parte da natureza. Esperarei às 17h, ao entardecer e será eterno.

A presença da tua ausência me faz companhia ao levantar, caminhar, viver e são as coisas do sentir que aniquilam e fazem nascer toda dor de amor que habita em mim. E fui amada como poesia e sonho, assim metafísico, sem ares de realidade. Quando todos pediam por menos, nós pedíamos por mais e mais. Pedíamos por amores ainda maiores e mais sedentos de doçuras, de promessas, de palavras. E nos amamos para sempre nesta poesia de vida, nos juramos eternos, nos bastamos nos tempos e a verdade é que nas vinte e quatro horas do dia eu só queria o sorriso da tua presença. Não era necessária a plenitude dos juramentos. O tempo também me apertava o passo e me fazia temer. E eu temia que você também não me bastasse, que nosso projeto fosse por demais grandioso e que a obstinação do além-limite nos fizesse viver eternamente em loucura e a nossa loucura era pouca para tudo que queríamos. MASNAVI

11 janeiro 2010

Memórias da Escuridão

Éramos assim, lânguidos, sem cor. Não sabíamos muito bem como seria essa história de nascer. Apenas choramos, puxados para fora de uma barriguinha quente e úmida. Do lado de fora seguimos as vozes que sempre estiveram próximas e seguimos também os grandes silêncios. E por sermos assim, tão minúsculos, não sabíamos muito bem o que dizer sobre a temperatura deste lado de fora. Seguimos caminhando, arrastando brinquedinhos e insuficiências.
Quando nos tornamos jovens, éramos robustos, fortes e arrumamos brinquedinhos para testar a vida, nossos sentimentos. Não havia espaço para silêncios, não havia tempo para pausas, a nossa força nos impulsionava em grandes paixões e bruscas quedas. Facilmente levantávamos e corríamos em busca de algo. Algo. Qualquer algo.

Foi então que olhamos para nossos corpos robustos e nos vimos imperfeitos. Notamos que não éramos assim tão fortes, havia ali alguns músculos mais atrofiados do que outros. E nossas imensas catedrais se encheram de silêncios. Primeiro levaram nossos corpos, agora seria nossos corações. Até que aprendêssemos uma oração, nada mais nos salvaria. Havíamos caído no poço.

Na escuridão precisávamos reaprender a viver. Então começamos tateando as paredes, nos sentindo completamente sozinhos naquele infinito. E éramos muitos no mesmo lugar. Começamos uma luta silenciosa. Cada qual no seu canto, sem dividir suas sensações, imaginando que por estarmos juntos, seriamos obrigados a saber o que se passava dentro dos outros. E o não dizer, foi criando abismos ainda mais escuros dentro do poço e as paredes pareciam cada vez menores. Nós nos apertávamos em um espaço minúsculo, nos esbarrando e nos empurrando para outros lados.

Debatíamos-nos, cansávamos, desistíamos. Olhávamos fixamente para o alto, buscando uma maneira de sair dali. Olhávamos para as paredes e para si mesmos. Não conseguíamos nos enxergar, porque tudo era tão escuro. Havia muito medo de percebermos que estávamos morrendo e que não seriamos salvos por mais nada. Esperávamos um grande milagre. Então evocamos deuses e anjos. Tudo em vão.

Certo dia, um de nós levantou e gritou “Não quero morrer”. Então outra voz ao fundo disse “Também não” e percebemos que havia outras percepções na escuridão, havia vida, havia possibilidade. Passamos tanto tempo esperando que alguém se levantasse e viesse nos estender a mão, enquanto mal escutávamos suas vozes no silêncio.
E quem é você que diz que tem medo. – disse um de nós. Sou eu, de pele macia, cabelos longos, venha, dê sua mão.
Então passamos a nos tocar, todos, reconhecendo-nos. Dentro de nós havia um universo imenso e sabiamos que as sensações eram somente nossas, mas falar que elas existiam, falar como isso funcionava e confessar o medo, meu deus, como isso nos trazia alivio.

Desculpe-me – disse um de nós.

Éramos todos responsáveis por toda aquela miséria. Foram os não-dizeres que nos fizeram cair neste poço imenso e a incapacidade de nos olharmos nos olhos, nos desviou da saída.
E de repente saímos do poço, apenas caminhando, sem perceber que de tanto olhar para cima e contemplar o infinito de paredes, não notamos que havia um jeito de sair se conversássemos uns com outros formando uma imensa escada humana. A luz não tocava nossos olhos pela primeira vez, já havíamos sentido luz, mistério e felicidade; mas a luz tocava nossa alma de consciência e ensinamentos, porque agora saberíamos como fugir de cada poço, sem que nos desesperasse o medo.

No chão, olhando para toda aquela planice, enormes clareiras haviam se formado no caminho. Era a vida informando-se cheia de desvios e sinais; tão minúsculos quanto nossas quedas. Éramos cegos, mas isso não nos impedia de sermos felizes. Sim, fomos felizes. Mas hoje somos divinos. E os deuses? Os únicos deuses capazes de nós salvar são os que se manifestam em nós, não sobre nós. Não havia um grande milagre. Nunca seríamos salvos por grandes milagres. Tínhamos a vida em nossas mãos e a nossa responsabilidade pelo nosso destino, todos os dias, nos pequenos passos, esse era o grande milagre transformador, capaz de nos salvar de todas as dores.

MASNAVI

A saborosa história de nós dois

Queijo com goiabada

Nasci queijo de coalho. De renda. Branquinho como neve secando ao sol do sertão. Ao som da fazenda. Salgadinho desmanchando na boca. Com quantos mimos me fizeram. Meus pais agricultores, agridoces, de vida, analfabetos. Temperaram-me no alho. Um olho no aboio, outro no coalho. Nada de passar do ponto. E assim cresci, achando-me pronto. Rei do sertão, força do cangaço. Me dei com pão, cuscuz, feijão, carne de sol e até melaço. Insumo de cana, álcool e açúcar. E com sal, então. Que ácida mistura. E a vida assim corria. Entre sabores fortes e fracos. Até que um dia... ou seria noite, linda e coroada, apareceu uma moça de sotaque engraçado. Era de fora, ora de dentro. Bonita. Delicada. Da vida encantada. Doce feito mel. Motivo da boca ter céu. Era ela. Tão sonhada. Minha amada goiabada. (T.)

07 janeiro 2010

Menina-Sem-Cabeça

E quantos quartos parcos
Formaram frascos translúcidos, largos
Opacos de verdes camadas
Claras
Como clarabóias gigantescas
No vasto lado
Onde havia muito
De nada

E a pequena menina, esperava
Um show de luzes
Claras,
Como caracóis, enroladinhos
Do lado do lago
Na mata.

Segurando o vidrinho
Frascos translúcidos,
Claros,
Brincando com a luz
Na água.

MASNAVI

05 janeiro 2010

Observando-te...

O sol refletia claro nas madeixas de luz e tocava lentamente seus olhos fechados, seus lábios rosados, a palidez dos teus traços finos. Descia lentamente teu corpo macio, teus seios rígidos, acalentados pelo peso de teus braços e por tua expressão tão silenciosa. Como queria tua pureza do sono, impregnada em tuas pernas e braços vivos. Então puxo lentamente o lençol de teu corpo, vendo-lhe respirar, queria sentir mais livre teus ares me tocando a pele e o ouvido.
E quando me toca, assim, em transe, meu coração preenche toda a luz que vem da janela e aquele meu corpo de tanta vida. E gosto-te assim, pura, princesa, acalantando-me a alma, dando-me paz.
E o sol encosta em teus olhos de mar, abrindo-os lentamente, esquentando-lhe a pele em movimentos lentos. Teu cheiro vai preenchendo o ar de um perfume suave, da pele, da tua pele branda que me lembra minha infância, me lembra minha outra vida que também tinha você. Então você acorda e é dia e teu desenho perfeito desdenha dos meus olhos infinitos. MASNAVI

04 janeiro 2010

Continuando o passar dos anos...

Vou copiar de um blog que adoro...

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.- As Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino

Chegou 2010... e tudo igual.