04 outubro 2009

Suicídio - O veneno

Pisava descalço numa terra seca e sem vida. Abaixado, tocou o chão com suas mãos ásperas, cheias de calos. Olhou o horizonte. Terra e mais terra. O vento cortava-lhe a pele seca.
Não havia nada ali.
Fechou os olhos, engoliu a saliva arranhando a garganta em quase morte. Seu corpo também não agüentava mais. Continuou andando. Olho baixo.
Um pé na frente, depois o outro. Havia uma fluidez lânguida em seu movimento. Estava envenenado. O veneno penetrava-lhe o pouco sangue, subindo calmamente para os membros, transformando tudo, até seus dedos em pó e aos poucos ele sabia que também se tornaria terra seca e sem vida. O veneno turvo brotou de dentro, pingando aos poucos sua escuridão corrente, transformando em pedra cada músculo, se apropriando de cada ligamento, dançando a música da paralisia, para enfim, cessar.
Agachou-se, trouxe um punhado de terra à boca, mastigou. Tentou expelir o veneno ao chão. Em vão. Ele era parte de si, era solução amorfa construída todos estes anos para tomar vida dentro do seu próprio corpo.