16 outubro 2009

A Menina Padre

- Há algo a ser dito. Vejo nos teus olhos. Vamos, comece logo. Não, espera. Antes, deixa eu me sentar.
Sentou-se de pernas cruzadas e pôs-se a roer o cantinho do polegar direito, passando rapidamente para o indicador.
- Mãe, eu quero ser padre.
- Freira, você quer dizer.
- Não quero ser freira. O que eu quero é ser padre.
- Lá vem você, menina com estas sandices. Uma menina não pode ser padre. Já pensou em uma papa?
Foi para o quintal pensando no dia em que celebraria uma missa no Vaticano. Colocaria sua tiara papal vermelha, encoberta por um manto branco, levantando as mãos a toda aquela gente que aguardaria qualquer palavra sua.

Fazia um dia ensolarado no Vaticano. Milhares de pessoas aguardavam ansiosas pelo anúncio do novo papa. Abrem-se as portas da sacada da Basílica, o púlpito, solitário aguarda o ecoar da nova voz, a voz da salvação.

Crac. Crac. (som do grilo). A menina cai da banqueta na janela da cozinha. Sai arrastando a tal banqueta, um lençol branco e um cabo de vassoura, inconformada com a impossibilidade de tornar-se padre.

MASNAVI