23 outubro 2009

A fábula do poço sem fim

Então a terra separou-se em duas grandes claves harmônicas, desdenhando do desatino humano, rindo-se de sua pequenez e cantando para seus ouvidos surdos. Aquela música invadiu o sol, quebrando seus raios em pequenos pedaços que caiam por todo chão e saiam correndo sem sentido, destinados a existir, afinado a perfeição.
Saímos correndo de nossas portas trancadas e banhamos-nos com a chuva de raios. Uns arrastavam-se no chão, envolviam-se com uma dança única. Era o chamado da vida e nós, escutávamos ao longe um assoviar, que sabíamos ser o som das claves. Éramos poucos. Tão poucos que os olhares nos causavam medo. Incompreendidos e molestados.
E o vento nos batia no rosto, o chão pareciam rabiscos incessantes, ao longe não havia muito claro o caminho que nos levava.
Ouvi um grito e passei a procurá-lo no meio do vilarejo. O grito vinha de um poço fundo. Lá embaixo, algumas pessoas gritavam ‘Ei, ei, nos ajude’. Toda vila estava sendo banhada por aquela chuva de raios.
Amarrei meu pé em uma corda e me joguei naquele abismo sem fim. Não havia ar, água e comida, mas fiquei hipnotizado com os rostos fecundos dos habitantes do poço. Muitos, já adaptados a sua própria circunstância, não queriam outro mundo. Sentiam-se bem no conforto da escuridão, donos de suas próprias vontades. Então não achei prudente perguntar quem queria subir comigo. Eles poderiam se assustar com a claridade do sol.
Olhando rosto a rosto, comecei a suar e ter calafrios. Meu coração batia arrítmico. Queria pegar todas aquelas mãos e levar comigo, mas sozinho, era impossível.
Caminhei tateando a parede, tudo era muito diferente, haviam muitos vãos cheios de poeira e mofo. Havia inválidos e doentes apoiando-se na parede imunda. Sugeri amarrá-los na corda, para que pudessem ir comigo.
Nada. Ninguém se movia.
Tirei um girassol do bolso e finquei no chão úmido do poço. Um único raio atingia-o no centro de suas pétalas. Majestoso, foi se contorcendo em direção a luz, autônomo. Antes mesmo de haver o sol, havia a direção em sua alma. E um pouco de mim também se desmanchava no pó. Desprender-me, era doloroso.
Amarrei a corda no meu pé, e fui puxado de volta para fora do poço. Do lado de fora, os raios continuavam incessantes. Eram transparentes, imperceptíveis, era talvez uma força dentro de nós mesmos, que nos impulsionava a correr e a nos jogar em poços por todo caminho. Talvez fosse apenas uma promessa ou um sonho. A única certeza disso tudo é que a terra que nos fazia existir, separou-se em claves harmônicas que soavam no nosso espírito, a música incessante de sermos.

MASNAVI