04 outubro 2009

A fábula do passarinho


"um vínculo com o outro que não conhece desejo mais ardente que a vontade de conduzir a própria vida no corpo da pessoa amada" Lacan



Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes - Violeta Parra

Havia um pássaro machucado, com a perninha fraca, cambaleando pelo lado escuro do parque. Ao observar que havia ali outro pássaro, observando-o, ao longe, passou a disfarçar sua perninha e continuou caminhando pelo parque, olhando para trás. O outro pássaro, encantado, foi atrás do passarinho. Vendo-o com sua plumagem amarela, bico aprumado e olhar brilhante, não pensou em mais nada e apressou o passo para tentar alcançá-lo. Quando chegou ao seu lado, olhou para seu biquinho laranja e fez-lhe um elogio. O passarinho de perninha fraca agradeceu o elogio e voltou a caminhar. O outro animalzinho passou a ficar desesperado com a possibilidade de perder aquele biquinho laranja de vista. Apressou ainda mais o passo e o alcançou novamente. "Posso caminhar com você?" - lhe perguntou. "Acho que sim" - o passarinho lhe respondeu. O parque estava calmo e fazia um dia ensolarado. Então o segundo passarinho se ofereceu para trazer água e alguma comidinha para o passarinho. Ele fazia questão de mostrar todo seu afeto e cuidado com um bichinho que lhe trazia uma sensação gostosinha em seu tão pequenino coração.
Passou a caminhar por todo parque juntando minhoquinhas, folhinhas de árvore, grãozinhos de cereais e quando sua patinha já não aguentava quase nada ele pediu que alguém lhe ajudasse a encher um potinho com água para carregar nas costas. Foi então que a pomba, ajudando o passarinho com a água lhe perguntou:
- Para quem você leva toda essa água e comidinha?
- Levo para um passarinho que acabei de ver aqui no parque.
- Ah, mas você é bobinho. Deste jeito você não vai conquista-lo. A maioria dos passarinhos preferem a falta de delicadeza. Só assim fica desafiador. Ai eles ficam doidos, farão de tudo para ter o direito de caminhar ao seu lado no parque.
- Por que isso?
- Ah! Existem milhares de explicações na psicanalise. É o tal amor narcisistico... Fora isso, muitos passarinhos sustentam relações utilitaristas. Fazem do seu companheiro, uma ponte para suas frustrações, para sua negação, para seu esquecimento, enfim.
- Nossa. Isso tudo não é muito complexo? Eu só pensei em caminhar no parque com um passarinho de biquinho laranja.
- Bom, depois não diga que eu não avisei.
- Não me importo, pombinha. Vou lá levar a comidinha e a água.
Andou por todo parque procurando novamente o passarinho de bico laranja. Correu tanto que ficou cansado. De repente, viu ao longe o outro passarinho. Sua surpresa foi vê-lo caminhando com um terceiro passarinho. Abandonou sua comidinha no chão e sentou-se na graminha úmida do parque. "mas ele disse que iria me esperar" - indagou-se. A pomba passou ao longe e viu o passarinho sentado no chão.
- Eu lhe disse, passarinho. Eu lhe disse.
- Mas, pombinha, eu acredito que algum dia vou caminhar ao lado de outro passarinho, sem precisar trazer-lhe comidinhas, águas, nadinha será preciso.
- Isso não existe, gritou a pomba.
- Existe sim. Só é raro.
- Isso não acontece, passarinho!
- Pombinha, feche os olhos. Pense no mundo silenciando por dentro. É possível.
Depois de um tempo o passarinho de bico laranja voltou ao parque e encontrou o passarinho sentado no chão.
- Ei, me desculpe, eu perdi a noção do tempo. Aquele passarinho me lembra da época que eu conseguia voar.
- Não me importo com sua patinha manca.
- Ninguém havia reparado que eu tinha uma patinha manca!
- Eu vi de longe. Não falei nada para não te magoar. Desculpe, a comidinha caiu no chão e a água vazou no potinho. Preciso ir.
- Onde você vai?
- Vou voar para uma montanha aqui perto. Lá de cima o mundo silencia e eu ouço meu nome no eco. Você sabe seu nome?
- Não. Achei que fosse "passarinho".
- Queria te levar na montanha. Por isso trouxe a comidinha e uns gravetos. Eles te ajudariam a caminhar melhor. Não seria preciso que você voasse comigo. Nós desbravaríamos um caminho a pé e tenho certeza que chegando lá, ao ouvir teu nome no eco, você teria vontade de lançar-se no silêncio.
- Desculpe.
- Preciso ir.