20 outubro 2009

Consertando objetos - Infância

Caia da cama pequena, uma cama de solteiro, bem velhinha. Aos domingos, costumávamos passar o dia martelando estratos e procurando tijolos que pudessem dar sustentação a velha cama. Tal ofício se dirigia a mim, que sempre tive paciência e cuidado com a minha casa, além de aproveitar o tempo livre com meu pai. Depois passávamos a procurar outros objetos quebrados pela casa para consertá-los com nossos pregos e martelos. E assim, muitos sábados e domingos passavam e nós mal percebíamos. Ao final do dia, sentávamos no sofá, espalhados e arrastávamos um colchão pela sala para assistir ao jornal.
O passar dos anos me trouxe uma serenidade para lidar com coisas quebradas. Então, me interessei pela televisão em mau funcionamento, o rádio, o telefone. Colocava o objeto em cima da mesa, sentava-me na frente dele e às vezes passava muitos minutos apenas observando e criando hipóteses para seu não funcionamento. Muitas vezes, até imaginava-me o próprio objeto. Imaginava-me sem um cabo, sem um conversor, fio AV conectado em UHF. Quase sempre dava certo.
Comecei a achar-me predestinada aquilo mesmo, consertar coisas em mau funcionamento.
Foi então que comecei a me interessar pelos adultos.
Sempre que a empregada chegava em casa, eu colocava uma mesinha do lado da tábua de passar roupas e ficava com o meu ferro de plástico, passando os panos de chão. Nós conversávamos sobre o que ela pensava do futuro, sobre o que a incomodava no marido e bla, bla, ia-se a noite.
A casa, a mesinha, o ferro de plástico, a demanda exaustiva de meu pai, perpassam a memória como chuviscos em dia de calor.
Quando chego em casa, na minha casa, com meus martelos e pregos, tenho muito claro que não deve haver nada em mau funcionamento para sua chegada. Sei também, que muitas vezes, a casa vai parecer a velha casa, já conhecida, sem muita história para contar. E sempre haverá uma gavetinha escondida, necessária para a manutenção da casa.
As cotidianidades, só elas são garantia de completude. (MASNAVI)