29 outubro 2009

Aos homens

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? O amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond

27 outubro 2009

Dia de Casamento em Trancoso




Quero me casar,
Na igrejinha feita de cuspe de baleia
Branquinha, pálida, sem nadinha
Só uma portinha para meu amor entrar
Dou-lhe uma anelzinho
e meu beijinho
para ser feliz pra sempre.
Fotos: MASNAVI

26 outubro 2009

Viver morrendo

Quando morre as estrelas
O que sobra lá no céu?
Sendo a vida, o presente
sobra nuvens, de papel

Que se faça luz
No mundo
Para que eu viva-eterna

Precisamos evoluir.
O resto é pó.

(E o tempo se perde)

MASNAVI

Convite

habita-me raio de sol
faça morada em minha alma
e repouse na sombra de meu ser
nada lhe faltará
se estiveres aqui, por inteira
preenchida
em cada matéria viva
que me faz morrer
somos maiores,
eu lhe digo
venha ser eterna
no meu corpo.

MASNAVI

23 outubro 2009

A fábula do poço sem fim

Então a terra separou-se em duas grandes claves harmônicas, desdenhando do desatino humano, rindo-se de sua pequenez e cantando para seus ouvidos surdos. Aquela música invadiu o sol, quebrando seus raios em pequenos pedaços que caiam por todo chão e saiam correndo sem sentido, destinados a existir, afinado a perfeição.
Saímos correndo de nossas portas trancadas e banhamos-nos com a chuva de raios. Uns arrastavam-se no chão, envolviam-se com uma dança única. Era o chamado da vida e nós, escutávamos ao longe um assoviar, que sabíamos ser o som das claves. Éramos poucos. Tão poucos que os olhares nos causavam medo. Incompreendidos e molestados.
E o vento nos batia no rosto, o chão pareciam rabiscos incessantes, ao longe não havia muito claro o caminho que nos levava.
Ouvi um grito e passei a procurá-lo no meio do vilarejo. O grito vinha de um poço fundo. Lá embaixo, algumas pessoas gritavam ‘Ei, ei, nos ajude’. Toda vila estava sendo banhada por aquela chuva de raios.
Amarrei meu pé em uma corda e me joguei naquele abismo sem fim. Não havia ar, água e comida, mas fiquei hipnotizado com os rostos fecundos dos habitantes do poço. Muitos, já adaptados a sua própria circunstância, não queriam outro mundo. Sentiam-se bem no conforto da escuridão, donos de suas próprias vontades. Então não achei prudente perguntar quem queria subir comigo. Eles poderiam se assustar com a claridade do sol.
Olhando rosto a rosto, comecei a suar e ter calafrios. Meu coração batia arrítmico. Queria pegar todas aquelas mãos e levar comigo, mas sozinho, era impossível.
Caminhei tateando a parede, tudo era muito diferente, haviam muitos vãos cheios de poeira e mofo. Havia inválidos e doentes apoiando-se na parede imunda. Sugeri amarrá-los na corda, para que pudessem ir comigo.
Nada. Ninguém se movia.
Tirei um girassol do bolso e finquei no chão úmido do poço. Um único raio atingia-o no centro de suas pétalas. Majestoso, foi se contorcendo em direção a luz, autônomo. Antes mesmo de haver o sol, havia a direção em sua alma. E um pouco de mim também se desmanchava no pó. Desprender-me, era doloroso.
Amarrei a corda no meu pé, e fui puxado de volta para fora do poço. Do lado de fora, os raios continuavam incessantes. Eram transparentes, imperceptíveis, era talvez uma força dentro de nós mesmos, que nos impulsionava a correr e a nos jogar em poços por todo caminho. Talvez fosse apenas uma promessa ou um sonho. A única certeza disso tudo é que a terra que nos fazia existir, separou-se em claves harmônicas que soavam no nosso espírito, a música incessante de sermos.

MASNAVI

21 outubro 2009

Eu-líquido

Noturna

deito-te calmamente sob meu corpo
inquieto e palpitante
seguro tuas costas
deixando-te levemente se entregar a cama
encosto minha vulva molhada
em teus pêlos
e abro tuas pernas
penetrando em ti
meus segredos
o meu prazer

olho nos teus olhos rabiscados
procurando tua alma
desejando tua vida
entrelaçada nos meus ossos e membros
seguro meus dedos nos teus
com força
para que sintas meu desejo
minha ânsia perdida em teus cabelos

sinto teu cheiro único
teu gosto florido
desaguando, escorrendo, deslizando

quero beber-te
tirar-te o sexo
engolir os teus seios na boca
e penetrar-lhe os ouvidos
com palavras de amor e desejo

ouço teus gemidos calmos
descompassados
acompanhando minha respiração no teu ouvido
minha voz na tua nuca

estou dentro de ti, meu amor
estou dentro de ti.

silencia.
o suor, a cama, o desejo.
a beleza frágil dos teus olhos
a sensualidade do teu corpo fecundo
teu sexo
tao antigo, tao presente nos teus desejos de ontem
tao maquina de si mesma
e eu só vejo uma deusade cabelos soltos
livre de tudo que foi

sendo.
sendo.
sendo.

MASNAVI

Fogueira de si

Quero te dar
O maior dos segredos
Ainda que nada,
Possa eu te dar.

Te dou meu caminho
Para sentires o vento`
Para que andorinha,
Possa voar.

Sob os olhos de Devél
Cai a noite de luz cigana
A alma cala
Quando ama

Nós,
Filhos das estrelas
Separados,
Divina chama

Negros olhos de cigana
Roda, roda, enquanto chama.
Meu teto é o céu
Teu corpo, minha morada.
Vida sem nada
O coração proclama!

Livre, livre.
Alma minha – fora de mim (tu és)
Reconhecendo
Minha única morada.

Venha comigo
Fogo cigano.
Para que eu possa morrer
sob um pequeno pinheiro,
como um Sinto.

MASNAVI

20 outubro 2009

Poesia de Jardim


No vento que ceifa o frondoso tronco
Reúno folhas que banham o céu
Bebo da seiva, suave sangue
Toda beleza, que reina no mel.

Tua tez, palidez telúrica
Reinam fatos que banham a alma
Bebo do amor, seu sangue sagrado
Toda beleza, que reina no fel.

Meu corpo, cálice infinito
Reluzem vontades e desejos divinos
Bebo da luz, armadura etérea
Toda certeza, que reina em mim.


MASNAVI

Consertando objetos - Infância

Caia da cama pequena, uma cama de solteiro, bem velhinha. Aos domingos, costumávamos passar o dia martelando estratos e procurando tijolos que pudessem dar sustentação a velha cama. Tal ofício se dirigia a mim, que sempre tive paciência e cuidado com a minha casa, além de aproveitar o tempo livre com meu pai. Depois passávamos a procurar outros objetos quebrados pela casa para consertá-los com nossos pregos e martelos. E assim, muitos sábados e domingos passavam e nós mal percebíamos. Ao final do dia, sentávamos no sofá, espalhados e arrastávamos um colchão pela sala para assistir ao jornal.
O passar dos anos me trouxe uma serenidade para lidar com coisas quebradas. Então, me interessei pela televisão em mau funcionamento, o rádio, o telefone. Colocava o objeto em cima da mesa, sentava-me na frente dele e às vezes passava muitos minutos apenas observando e criando hipóteses para seu não funcionamento. Muitas vezes, até imaginava-me o próprio objeto. Imaginava-me sem um cabo, sem um conversor, fio AV conectado em UHF. Quase sempre dava certo.
Comecei a achar-me predestinada aquilo mesmo, consertar coisas em mau funcionamento.
Foi então que comecei a me interessar pelos adultos.
Sempre que a empregada chegava em casa, eu colocava uma mesinha do lado da tábua de passar roupas e ficava com o meu ferro de plástico, passando os panos de chão. Nós conversávamos sobre o que ela pensava do futuro, sobre o que a incomodava no marido e bla, bla, ia-se a noite.
A casa, a mesinha, o ferro de plástico, a demanda exaustiva de meu pai, perpassam a memória como chuviscos em dia de calor.
Quando chego em casa, na minha casa, com meus martelos e pregos, tenho muito claro que não deve haver nada em mau funcionamento para sua chegada. Sei também, que muitas vezes, a casa vai parecer a velha casa, já conhecida, sem muita história para contar. E sempre haverá uma gavetinha escondida, necessária para a manutenção da casa.
As cotidianidades, só elas são garantia de completude. (MASNAVI)

19 outubro 2009

A metade de mim, em mim mesmo

Céu

O vento que bate no meu rosto
me cobre de lucidez
Suavemente escorrega por minhas
temporas
Vai,
volta

Minha fé me enche os olhos
Move as montanhas
do meu coração

Inferno

Não há vida neste ventre infértil
e podre
seus frutos,
placebos manipulados
são substâncias da essência
de raiva e desejo
O diabo, escarrando na
boca
alimenta de morte
a violência de
existir
de existir predestinado
ao sofrimento
e a dor

MASNAVI

“Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade (...) Não, eu não sou pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz – ao menos não mais infeliz que os outros”. FREUD

16 outubro 2009

A Menina Padre

- Há algo a ser dito. Vejo nos teus olhos. Vamos, comece logo. Não, espera. Antes, deixa eu me sentar.
Sentou-se de pernas cruzadas e pôs-se a roer o cantinho do polegar direito, passando rapidamente para o indicador.
- Mãe, eu quero ser padre.
- Freira, você quer dizer.
- Não quero ser freira. O que eu quero é ser padre.
- Lá vem você, menina com estas sandices. Uma menina não pode ser padre. Já pensou em uma papa?
Foi para o quintal pensando no dia em que celebraria uma missa no Vaticano. Colocaria sua tiara papal vermelha, encoberta por um manto branco, levantando as mãos a toda aquela gente que aguardaria qualquer palavra sua.

Fazia um dia ensolarado no Vaticano. Milhares de pessoas aguardavam ansiosas pelo anúncio do novo papa. Abrem-se as portas da sacada da Basílica, o púlpito, solitário aguarda o ecoar da nova voz, a voz da salvação.

Crac. Crac. (som do grilo). A menina cai da banqueta na janela da cozinha. Sai arrastando a tal banqueta, um lençol branco e um cabo de vassoura, inconformada com a impossibilidade de tornar-se padre.

MASNAVI

13 outubro 2009

Silence of the night

Noite cai
flores voam
folhas se jogam e eu
eu permeio a noite como
vento frio. (Masnavi)

"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro". (Hilda)

E o medo
demônio de vermelhos chifres,
baforando teu hálito podre
anuncia com passos marcados
deixando rastros
de passado.

"Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide Escura e clara, negra e transparente,
Ai! Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também. É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente é não ter rosto.
É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo,
"Esse" Que bem me sabe inteira pertencida.

MASNAVI

Construção - Sonhos

Agarrei meus sonhos com tanta força e avidez que os vi frágeis se esfacelando na minha frente, porque até os sonhos precisam do cuidado que lhes permitirá nascer, crescer e morrer – a maioria sem chegar a se realizar – e eu me esqueci disso, sob pena de ver os meus próprios como pó em todo o ambiente, se misturando ao vento e fazendo meus olhos arderem vermelhos.
Comecei a chorar. Era só um cisco.
Ainda maior são minhas mãos grandes e fortes. Tenho-te em dedos frágeis, pequenos sonhos. Tesouros únicos, imaculados em mim. Sou porque os tenho. MASNAVI

Composição


Traço a palavra como teia
Emaranhado de composições pretensiosas
Desenhando-se perfeitas.
O desejo é a rigidez de transpor
Sensações.
E assim segue.

Queria a poesia que calasse sua fome
Que silenciasse o medo e a saudade
Que anulasse a dor e a memória viva
Queria a poesia que te trouxesse acalanto
Que fizesse o sangue correr mais vibrante
Que lhe desse vida, quando é escuridão.
Que lhe olhasse nos olhos, quando ninguém mais o faz.
Que lhe pegasse nas mãos e te encostasse-se ao peito.
Que lhe fizesse sorrir e voar.

Então passo horas,
Papel em branco
Desconexo, vencido
Nada diz exatamente como é. MASNAVI

08 outubro 2009

Leitura de mim

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si".
(Cartas - Clarice Lispector)

Descortina

A rua era estreita, deserta e cheia de pedras. O céu era cinza e úmido. Sua mão, de luvas, encaixava-se na minha e nos dedos, os anéis, os sentidos e muito frio. Tudo aquilo deslumbrava-nos e enchia-nos de alegrias que nos preenchia como se todos os vãos encontrassem sua alma gêmea no espaço, por força de encontro destinado. Pertencíamos aquela terra como nossas almas pertenciam aos nossos corpos. Então a onda quente penetrava-nos os membros e o coração transbordava em signos multicores. Os pés nos guiavam em sentidos contrários, endoidecidos por novidades e nós nos puxávamos, de um lado para o outro, porque nada faria sentido se não fosse assim, minha mão, na sua. MASNAVI

07 outubro 2009

Mono-Poesia

O pulso-sincronia
A bula-utopia
frente-a-frente
Somos Uno.

O que sobra
o Ser.

MASNAVI

A vida na cidade cinza - Intervenções








Nós somos os defensores das flores! Vocês tem a coragem de se entregar as flores?
Eleita a obra mais feia da cidade de São Paulo, o minhocão é fonte de inspiração para diversos artistas. Mas porque flores? Porque quando queremos deixar nossas casas mais bonitas, colocamos flores. Simples assim
Tenho muito orgulho do trabalho de uns amigos e ex colegas de trabalho do jornalismo/tv e gostaria de divulgar aqui. Tive a oportunidade de presenciar e viver a arte em muitas intervenções capturadas neste flickr. E a inspiração que é conviver com quem quer mudar o mundo.
Que as flores brotem dentro de nós! VEM!
Jardim Suspenso da Babilônia - Felipe Morozini
30 pessoas, 8 fotográfos, 4 video makers, 30kg de cal, 75 flores, 15min e 1 documentário

04 outubro 2009

A fábula do passarinho


"um vínculo com o outro que não conhece desejo mais ardente que a vontade de conduzir a própria vida no corpo da pessoa amada" Lacan



Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes - Violeta Parra

Havia um pássaro machucado, com a perninha fraca, cambaleando pelo lado escuro do parque. Ao observar que havia ali outro pássaro, observando-o, ao longe, passou a disfarçar sua perninha e continuou caminhando pelo parque, olhando para trás. O outro pássaro, encantado, foi atrás do passarinho. Vendo-o com sua plumagem amarela, bico aprumado e olhar brilhante, não pensou em mais nada e apressou o passo para tentar alcançá-lo. Quando chegou ao seu lado, olhou para seu biquinho laranja e fez-lhe um elogio. O passarinho de perninha fraca agradeceu o elogio e voltou a caminhar. O outro animalzinho passou a ficar desesperado com a possibilidade de perder aquele biquinho laranja de vista. Apressou ainda mais o passo e o alcançou novamente. "Posso caminhar com você?" - lhe perguntou. "Acho que sim" - o passarinho lhe respondeu. O parque estava calmo e fazia um dia ensolarado. Então o segundo passarinho se ofereceu para trazer água e alguma comidinha para o passarinho. Ele fazia questão de mostrar todo seu afeto e cuidado com um bichinho que lhe trazia uma sensação gostosinha em seu tão pequenino coração.
Passou a caminhar por todo parque juntando minhoquinhas, folhinhas de árvore, grãozinhos de cereais e quando sua patinha já não aguentava quase nada ele pediu que alguém lhe ajudasse a encher um potinho com água para carregar nas costas. Foi então que a pomba, ajudando o passarinho com a água lhe perguntou:
- Para quem você leva toda essa água e comidinha?
- Levo para um passarinho que acabei de ver aqui no parque.
- Ah, mas você é bobinho. Deste jeito você não vai conquista-lo. A maioria dos passarinhos preferem a falta de delicadeza. Só assim fica desafiador. Ai eles ficam doidos, farão de tudo para ter o direito de caminhar ao seu lado no parque.
- Por que isso?
- Ah! Existem milhares de explicações na psicanalise. É o tal amor narcisistico... Fora isso, muitos passarinhos sustentam relações utilitaristas. Fazem do seu companheiro, uma ponte para suas frustrações, para sua negação, para seu esquecimento, enfim.
- Nossa. Isso tudo não é muito complexo? Eu só pensei em caminhar no parque com um passarinho de biquinho laranja.
- Bom, depois não diga que eu não avisei.
- Não me importo, pombinha. Vou lá levar a comidinha e a água.
Andou por todo parque procurando novamente o passarinho de bico laranja. Correu tanto que ficou cansado. De repente, viu ao longe o outro passarinho. Sua surpresa foi vê-lo caminhando com um terceiro passarinho. Abandonou sua comidinha no chão e sentou-se na graminha úmida do parque. "mas ele disse que iria me esperar" - indagou-se. A pomba passou ao longe e viu o passarinho sentado no chão.
- Eu lhe disse, passarinho. Eu lhe disse.
- Mas, pombinha, eu acredito que algum dia vou caminhar ao lado de outro passarinho, sem precisar trazer-lhe comidinhas, águas, nadinha será preciso.
- Isso não existe, gritou a pomba.
- Existe sim. Só é raro.
- Isso não acontece, passarinho!
- Pombinha, feche os olhos. Pense no mundo silenciando por dentro. É possível.
Depois de um tempo o passarinho de bico laranja voltou ao parque e encontrou o passarinho sentado no chão.
- Ei, me desculpe, eu perdi a noção do tempo. Aquele passarinho me lembra da época que eu conseguia voar.
- Não me importo com sua patinha manca.
- Ninguém havia reparado que eu tinha uma patinha manca!
- Eu vi de longe. Não falei nada para não te magoar. Desculpe, a comidinha caiu no chão e a água vazou no potinho. Preciso ir.
- Onde você vai?
- Vou voar para uma montanha aqui perto. Lá de cima o mundo silencia e eu ouço meu nome no eco. Você sabe seu nome?
- Não. Achei que fosse "passarinho".
- Queria te levar na montanha. Por isso trouxe a comidinha e uns gravetos. Eles te ajudariam a caminhar melhor. Não seria preciso que você voasse comigo. Nós desbravaríamos um caminho a pé e tenho certeza que chegando lá, ao ouvir teu nome no eco, você teria vontade de lançar-se no silêncio.
- Desculpe.
- Preciso ir.

A pequena menina

ela era pequena e frágil
ela se jogou no mundo
ela se machucou e sorriu
ela tornou-se livre
ela se jogou no mundo
ela abriu os braços
ela lhe deu o que era o mais raro de si
sua liberdade

Masnavi

Suicídio - O veneno

Pisava descalço numa terra seca e sem vida. Abaixado, tocou o chão com suas mãos ásperas, cheias de calos. Olhou o horizonte. Terra e mais terra. O vento cortava-lhe a pele seca.
Não havia nada ali.
Fechou os olhos, engoliu a saliva arranhando a garganta em quase morte. Seu corpo também não agüentava mais. Continuou andando. Olho baixo.
Um pé na frente, depois o outro. Havia uma fluidez lânguida em seu movimento. Estava envenenado. O veneno penetrava-lhe o pouco sangue, subindo calmamente para os membros, transformando tudo, até seus dedos em pó e aos poucos ele sabia que também se tornaria terra seca e sem vida. O veneno turvo brotou de dentro, pingando aos poucos sua escuridão corrente, transformando em pedra cada músculo, se apropriando de cada ligamento, dançando a música da paralisia, para enfim, cessar.
Agachou-se, trouxe um punhado de terra à boca, mastigou. Tentou expelir o veneno ao chão. Em vão. Ele era parte de si, era solução amorfa construída todos estes anos para tomar vida dentro do seu próprio corpo.