15 setembro 2009

Memórias do calvário

“Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite e aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. (...) E quase paro de sentir fome” Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias


De repente a água compelida a degustar delicadamente os braços e pernas. Sentada sobre grama úmida, sentiu-se gentilmente acarinhada. Era mais.

Recostou-lhe os braços estendidos, como em prece, pedindo-lhe a imagem. As imagens grávidas pariam-lhe palavras e sentidos. Parecia-lhe uma história conhecida, talvez seus olhos rabiscados, esverdeados. Formou-se então um imenso labirinto, um caleidoscópio multicor, desvendado os reflexos e distorcendo-lhe os sentidos. Qual é o meu nome? – repetia-lhe a mente.

E de olhos fechados, balançando a cabeça para não deixar-se iludir pela verdade, ajoelhou-se desejando contentar-se com a liberdade, com a paz, com a ausência dos desejos, mas sua gula, sua boca de fartura, seus membros sensuais, engoliam tudo, se alimentando de signos já comuns a sua vida. Resfatelava-se aprisionada por seus medos, por sua falta de coragem, por seu conforto.
Então o labirinto escorregando das margens penetrou-lhe o ventre e atravessou seu tronco rígido, trazendo-lhe imenso incomodo. O ar faltava-lhe e também a visão, então trouxe seu dedo até a garganta reconhecendo seus restos decrépitos por todo chão. Suas mãos, assim como suas curvas eram de delicada poesia. A água a queria.
Era mais.

Irreconhecível, levantou-se e trouxe suas pernas para perto de si. Seus pés molhados davam-lhe frio, mas a água era inutilmente quente. Qual é meu nome? – gritava-lhe a mente.

Sentou-se diante de um grupo infindável de montanhas, altos cumes, um céu tão azul que dava-lhe medo de ser sagrado, gramas verdes, pequenas vidas vivendo apenas e aquele rio.
Ficou ali algumas horas, diante de si. Relembrava cigarros, drogas, zumbis, festas, alegria, sexo, mentiras, compaixão, humildade, sofrimento, via o mundo, este mundo sagrado, tão incrivelmente lindo e tão assustador.
Silêncio.

Deitou a cabeça na grama e o coração quase parou de bater. Qual é meu nome? – suspirava-lhe a mente.

Então se viu pequena, bem pequena, tão sozinha. Num mundo de tantos silêncios. E no meio de tantos silêncios, viu seu pai. Seu pai trazia-lhe malabares de palavras encantadas, um universo de signos e de livros. Então era um circo delicioso, em que se via esperando todos os dias por mais e mais. E ainda assim era solitário.
Quase sem perceber, no silêncio, via também sua mãe. E havia devoção, entrega compaixão e solidão.

Mas ao longe, uma voz calma cantava-lhe músicas de ninar e então ela sonhava. E ela sonhava tão alto que podia sentir florir sua alma de imensidão. “E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe”(C.Lispector). E ia e vinha. Pela primeira vez ela era livre e podia sentir seus braços soltos, suas pernas correndo afoitas por tanta e tanta vida. Não havia o silêncio, não havia a solidão, havia felicidade e encanto. E só assim era porque estava entregue. E tudo depois se repetiria conforme sua própria vontade.

Levantou-se, ajoelhou-se na grama, sentiu o cheiro úmido de vida e aproximou-se do rio. Mergulhou a cabeça em abraço e as mãos apoiando-se na terra macia. Afundou ainda mais o tronco e sentiu-se imersa em nascimento. Ouvia ao longe um som, chamando-a e não conseguia decifrar o que lhe dizia. Foi então que ouviu seu nome.
Seu nome.
Na placenta, com os pés próximos ao coração, recostava a cabeça ao coração de sua mãe. Balançava no tom daquele pulsar tão pacífico. Era quente e úmido. Nada lhe faltaria. Então seus olhos fechara e não havia fome. Agarrava-se a vida como fonte única de existência. Talvez não quisesse mesmo existir, dava-lhe medo.

Impulsionou as duas mãos com pressa para fora do rio.
Saiu correndo pela estrada, nua.
Então a voz cessou em sua mente.
Não era a hora.

Silêncio. (MASNAVI)