21 setembro 2009

Crítica e Fragmentos - Clarice Lispector

Fragmentos - “Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus
conselhos, por exemplo. Já agora falava sério:
- Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir
adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho.
É como enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso, queria evitar o
principal. De repente, porém notou que se não dissesse o final, nada
teria dito, e falou:
- Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às
vezes, por uma palavra tua ou por uma palavra lida, tudo se esclarece.
Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com
esplendor".

Crítica - O que realmente buscava era algo que não só não se resolvia com fórmulas prontas, mas, além disto, esbarrava na maior dificuldade que pode um ser humano ter: realizar-se como aquilo que é, no horizonte do que ainda não é. “Eu sou um monte intransponível no meu próprio
caminho” remete, mais uma vez, à tensão humana do entre. O entre-ser vige no aberto, que é
possibidade tanto da maior solidão quanto da maior entrega.
O esplendor de surgir de dentro de si mesma é a luz que não esconde as trevas. É a
resposta que, ao invés de pretender eliminar, põe em manifesto cada vez mais a pergunta de
onde surge. É uma aceitação ainda que momentânea do mover-se entre questões. É um breve
sopro da liberdade que nos constitui. Mas como fazer para surgir de dentro de si mesmo em
toda a grandeza do humano?`

Fragmentos: - O começo é uma prece. Ulisses, que nada tinha de religioso, surpreendentemente
pergunta a Lóri: Você sabe rezar? “Não rezar o padre-nosso, mas pedir a si mesma, pedir o
máximo a si mesma?” Não, ela nunca havia pedido. Havia reinvindicado, havia exigido, mas
nunca se colocado humildemente diante do mistério, para pedir, pedir o que realmente
importa. “Pede-se vida? Pede-se vida. Mas já não se está tendo vida? Existe uma mais real. O
que é real?”

Fragmentos - Alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à
minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na
verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é
não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com
que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te
indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a
pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação
porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no
entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem
receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu
mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre
esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para
nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com
alegria o pão que eu como que eu como, o sono que eu durmo, faze
com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei
sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar
que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar
a minha, amém.

Crítica - Não é de outra maneira que Lóri precisa de Ulisses e Ulisses de Lóri. No horizonte
deste pedido, compreendemos mais profundamente o amor que roga, humano, a presença de
um outro ser.
A dor de ser não permite enganos. Ela só se cura na plena presença
da verdade do amor como entre, como liberdade e doação. Por isso, Lóri e Ulisses não se
satisfazem em viver um amor que não está pronto. Eles querem um amor de verdade, o
impossível, e precisam realizar-se muito além do que conhecem e têm de certezas acerca de si
mesmos. Escutaram, um no outro, e em si mesmos, o apelo do pathos que é viver. E já não
pode haver mais fuga. Lóri então se aquieta, e diz a prece que talvez tenha buscado dizer
durante toda a sua vida. É um esvaziar-se, o esvaziar-se que prepara o nascimento do novo
ser. Na lua que que vela, a noite absolutamente escura, o silêncio se torna maior e mais vivo,
para dele nascer o dia.
- O ódio de Lóri, que era a imensa resistência a todo este apelo, começa a se desfazer.
Como se aos poucos se preparasse para iniciar-se numa nova vida. Um vislumbre dessa nova
vida havia se dado na imagem de Ulisses na piscina. Lóri sentira ali “um primeiro passo
assustador para alguma coisa.” É quando, desarmada, como uma criança “em encantamento
pelas cores orientais do Sol que desenhava figuras góticas nas sombras” se dá conta da
beleza de Ulisses. Da beleza que havia em Ulisses apenas por ser um homem, e existir nele
uma calma virilidade. Lóri descobre “o sublime no trivial, o invisível sob o tangível”. É é
como se de repente descobrisse
(...) que a sua capacidade de descobrir os segredos da vida natural.

De repente, nesta experienciação, Lóri estranha a si mesma. Não está mais no fulcro da dor. Está apenas vivendo um momento em plena presença. Neste estranhamento, pode dizer, encantada, humilde, e pela primeira vez:
“estou sendo”.
Estou sendo, diz Lóri. Estou sendo, diz Ulisses. Nisto, há um encontro. Porque o
estar sendo não é mais banal, como fazemos parecer todos os dias. Dois seres humanos se
encontram quando encontram-se no humano, e o humano é presença, vigor do entre-ser.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Fragmentos: "Seu corpo se consola de sua própria exiguidade em relação à vastidão
do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente
e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de
liberdade de cãos nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que
sem raiva ruge no silêncio da madrugada".

Crítica: A dor que não podia ser curada se apresenta como coragem de entrar no mar, de
adentrar o silêncio frio. Clarice chama isto de cumprir uma coragem:
Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e
grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a
de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer
exige coragem.

Fragmentos - “A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e
abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto
a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um
pedido secreto.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se
deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo tudo líquido deixam-na
por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé –
fertilizada.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão
pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que
não teme pois sabe que terá tudo de novo.