30 setembro 2009

Cotidiano sólido - O Condicionado


Se as portas da percepção fossem limpas, as coisas se revelariam ao homem como realmente são: infinitas." William Blake



Todos os dias eu passava pela mesma rua, em um dos bairros mais chiques de São Paulo. Era o acesso que me levava a faculdade. Tenho por hábito dar nome aos moradores de rua e como sempre passava ali em frente a um senhor, de chapéu de papel, trapos e casa de lona, dei-lhe o nome de 'poeta da praça'. Ele tinha em suas mãos muitos papéis e passava o dia escrevendo.
Certo dia, sentei-me na grama e me apresentei 'Oi poeta, sou a Aline. Podemos conversar?'.
O poeta então levantou a cabeça dos escritos e passou a conversar comigo.
Sr. Raimundo é um ex-livreiro que diz ter sido internado em hospital psiquiátrico e após sua saída foi parar na rua por ter sido vitima de um crime contra os direitos humanos e responsabiliza o Estado por isso. Ele se auto intitula 'O condicionado'. Raimundo passa o dia escrevendo contos, crônicas e poesias. Quando era livreiro, procurou muitas editoras para fazer um compilado, mas após receber muitas portas fechadas, decidiu renegar toda sua obra. Quem conversa com Raimundo tem o prazer de ouvi-lo falar e ler seus próprios escritos.
Apesar de viver num bairro nobre, Raimundo recebe ajuda apenas dos taxistas.

"Faça da arte literária, instrumento de incompreensão" - Raimundo, O Condicionado.