18 setembro 2009

Carta de um marinheiro - Γοργών

Rio de janeiro, sem data

Desta vez não escrevo uma carta. Não dá tempo de escrever.
Minhas pernas recolhidas ao meu peito, meus dedos entrelaçados, ora olho para baixo, ora para cima e tanto faz, porque não dá mesmo para ver muita coisa. O sol queima meus olhos, a água se movimenta tão rápido que mal posso me concentrar em um ponto. Se houvesse um ponto, talvez eu pudesse pensar que lá eu seria pego e talvez desistisse, mas não serei. Ao longe, areia, algumas pessoas sentadas, muitas vozes de crianças brincando, carros passando, prédio que parecem se abraçar para me empurrar. E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens. O velho macacão azul, o poodle preto e eu correndo atrás da bola. Descendo a rua entre casas humildes para comprar sorvete. Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto, livre. Pulava os muros do sobrado, subia no telhado, amarrava uma pedra na ponta de uma cordinha e fingia pescar o dia todo. Lá longe, havia centenas de casinhas de subúrbio. Aqui dentro, havia centenas de sonhos e eu olhava o céu. Cá estamos juntos novamente.
Então abro os braços, como se pudesse te sentir. Sinto. E só sinto porque dentro de mim há. (E só ali.)
Levanto...

....Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto.
Livre...

...E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens...

E o vento...

FIM – MASNAVI