16 setembro 2009

Carta de um marinheiro XI

Rio de Janeiro, sem data

Escrevo esta carta de letras bem desenhadas, dobro o papel delicadamente, lacro, selo e não mando. Deixo aqui em cima da mesinha, como se fora entregue.
Meus passos são tão lentos que às vezes acho que parei e nem percebi. Meu uniforme encontra-se guardado nas gavetas do armário. Hoje faz frio no Rio e a cidade se transforma. Parece revelar-se cinza.
Alguns dias durante a noite, peço que me tragam o sono, assim não seria possível perceber o tempo e tanta saudade. Então passo a fingir situações, como se meus delírios pudessem me acalmar, mas quando fecho os olhos e durmo, ai me vem os sonhos e meu coração bate forte, minhas mãos acreditam que tocam, meu sangue volta a correr e abruptamente se faz dia e meus olhos se enchem e tudo para de novo. E tem uma música que não pára na minha cabeça, tem tantos sentimentos que oscilam no meu coração e às vezes ouço meu nome e ouço tão alto que me parece emergencial. A voz às vezes pede que eu corra e eu levanto, olho para todos os lados e não sei bem para onde devo correr tão rápido.
A noite então se cala e quando não é tormenta, alguém cobre meus olhos com mãos macias e me faz dormir, mas acordo a noite toda.
Vou sentar-me no arpoador. Quero ver as ondas quebrando nas rochas e a falta de pensamentos na minha mente me dará paz. O que há em mim é tudo que tenho. Não quero me livrar de mim.

“Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo, não salvo a mim”- Garret