01 setembro 2009

Carta de um marinheiro IX

João Pessoa, sem data.

Querida Catarina,

Atraco mais uma vez em Nossa Senhora das Neves, cidade nascida no mesmo mês que eu. Diferente da última vez, a brisa do mar amansa-me os cabelos com toques mais suaves. Meu corpo encharcado pisa no porto e começa a descarregar a carga. Às vezes acho que o trabalho duro e o sol na cara me fazem pagar o preço de estar vivo. Devo muito a essa mola propulsora chamada existência. Sou sonhador, querida Catarina. Não sei ser diferente. Já cheguei a achar que sou inconseqüente, mas se há a chama, devo segui-la. Talvez os leões do mar me engulam a tempo.
Tu não percebes, Catarina, que podemos dar-nos este equilibro. Desejo a vida de novela também, com cachorro e filhos famintos. Na verdade, minha paz encontra-se nisso. A medida exata de vida e paixão, ainda não sei, mas vou encontrá-la, lhe juro.
Tuas palavras soam como lindas flores de primavera que desabrocham vagarosamente ao sol. Parece-me uma menina travessa aprisionada em corpo de mulher. Todos comentam de tua beleza e às vezes sinto-me não merecedor de tanto, aos olhos.
Não precisamos de muito, Catarina. Precisamos manter nossos corações inocentes e só assim os caminhos se iluminarão para nós. Não há maldade que supere corações inocentes. Nada nos absorverá e a simplicidade é o que mais buscamos, enfim. Não serei teu deus da ilusão, tenho medo de tu não aceitares o cotidiano que pode ser possível entre nós. A vida é coisa simples mesmo. Não te prometo o céu, nem a terra, mas um meio de vida de liberdade, cheio de pequenas prisões. Vamos nos comprometer ao exercício. É uma amarra por dia para desatar. E acredite, pequena, nunca estaremos completo em nenhum dos mundos. Há aquele lugar que habita o silêncio e o grito, onde escondemos a saudade da Origem. Nunca vamos estar completos. E tu és sábia. Quando te perco por segundos, sei que tu preservas tua essência. Tu voltas para teu lócus e lá esta teu momento de plenitude. Não em mim.
O mar me ensinou muitas coisas, mas há muita inexperiência nesta camisa suada. Vejo-te descrevendo tuas histórias e lembro-me de ouvir algo semelhante de meu avô. Teu avental é parte de teu braço de lavadeira e da força do teu espírito. E nossas lágrimas são a salvação dos pequenos males e das prisões do nosso coração. Minha força é mais imponente quando choro. Essa é a real sabedoria.
Quero que acredites na simplicidade e na calma do amor. Saibas que a paixão se leva de nós e sobra apenas a brisa refrescante do mar. A paixão que sobrevive é apenas aquela que temos pela vida. Essa é a maior lição que levo do mar.
Sou marinheiro por escolha. Escolhi a vida e ela escolheu a mim. Quando meu pai me disse que tudo que eu desse ao mundo, teria de volta, sai de casa e levei somente a mim, sem medo de cair ao chão. Penso que não me faltou nada e já fui desacreditado por muitos. Certa vez, me disseram que um homem letrado como eu não deveria limpar o convés. Tive vergonha por alguns segundos. Aquele era o meu trabalho inicial e eu fazia com carinho. Esfregava o chão com o perfeccionismo que sempre coube a mim. Acredito no trabalho das mãos e na humildade de fazer-se pequeno. A cultura é artificial, acredite.
Teu caminho te revelará com força. Estarei sentado vendo-te passar com teus panos, tuas roupas limpas e sei que tu serás uma marinheira.
Hoje estou mais velho do que ontem e sinto o gosto doce do bolo de laranja. Aguardo meu presente e farei como tu pediste.
Catarina, a vida é frágil. Segure-a.