22 setembro 2009

Banalidades cotidianas

Já não ligo mais de levantar-me todos os dias, pontualmente, às 6h30. Às vezes o faço até em finais de semana. Gosto de ter tempo até mesmo para não fazer nada. O problema é que Masnavi me acorda, pontualmente, às 5h. Ele sempre me convence a afastar a cortina e olhar lá fora. Depois eu viro para o lado e volto a dormir. Às 6h25 eu costumo pegar o celular e desligar o despertador antes que ele toque. Então olho para o quadrado branco que é meu quarto e alongo todo meu corpo, até ajoelhar-me, estendendo as mãos no chão, voltada aos Sutras. Meu primeiro pensamento todos os dias é “ai que cama quentinha” e o segundo é “eu adoro acordar cercada de livros” e o terceiro é “sou uma filha da puta de sorte, tenho tudo”. Então não recito um mantra. Acabo afastando a cortina voltada para a janela, virando para o lado e dizendo “Obrigada, Masnavi, por me fazer ver”.
Tomo banho em alguns segundos, brigo um pouco com meu cabelo, coloco a primeira coisa que tiver no armário, enfio o Ipod na orelha e saio correndo. Escolho Dave Mathews, todo santo dia, há um ano. Pelo menos para percorrer da minha casa até o ponto onde encontro com o rapaz que me dá carona.
Desço a Consolação conversando com Masnavi. Eu quero falar amenidades, mas às vezes ele não me dá sossego.
Eu digo “Masnavi, hoje não. Quero ouvir Dave e falar sozinha”. Mas não adianta, Masnavi desce a rua comigo, falando sem parar. Minha sorte é que no Centro, somos todos iguais. Eu e os mendigos descemos a Consolação falando sozinhos.
Chego ao meu ponto de encontro. Debaixo do Elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão. (lá foi gravado Ensaio sobre a Cegueira). Imagine como é sujo e feio.
Hoje, descendo a rua, ouvia Lover, Lay Down e cantava o finalzinho. É a parte que eu mais gosto. Imagino-me em um lugar lindo, debaixo de uma árvore, ou em qualquer lugar tranqüilo, feliz da vida. Acho que Masnavi daria um tempo para minha cabeça. Mas, enfim, me vejo deitada em um jardim, de mãos dadas, cafona assim mesmo e tão feliz. E aquela frase “I will wait for you. I will wait for no one but you”. Acho lindo. Lindo mesmo. E Masnavi pessimista comenta: “Mas cá para nós que as pessoas são bem mais complicadas que isso, certo? E só o fato de ter que esperar alguém já não é certo. A vida está ai para correr livre. Encontrar-se é seguir junto e não parar e esperar o outro chegar lá. “As pessoas só se encontram quando estão ocupando o mesmo espaço, no mesmo tempo e ai basta dar as mãos e ser felizes para sempre”. Nossa. Entendi porque é tão raro.
Ainda assim, voltei na música e parei do lado de Lóri. É o apelido que dei a nova moradora de rua que resolveu colocar seu colchão exatamente debaixo do predinho que eu espero o menino. Masnavi cumprimenta Lóri todos os dias. Eu fico quieta. Lóri ta sempre dormindo.
Masnavi tem mania de pedir permissão.
Então a música rolando e eu cantando ‘I will wait for no one but you’. E percebo que Lóri dorme num velho colchão idêntico ao que meu pai tem na praia. Então, reparo nos cabelos loiros de Lóri. Pelo corte que ela usa, deve fazer parte daqueles programas de reabilitação de usuário de crack. Eu trabalhei na Cracolândia e por lá a prefeitura manda toda rapaziada cortar o cabelo tudo igual! Então somos eu, Masnavi, Lóri e Dave. ‘I will wait for no one but you’. Será que Lóri precisa que alguém espere por ela? Não. Não. Ela ta doidinha. Ela só se entende com Masnavi porque os dois ficam deitados no colchão do meu pai, olhando as pombas no céu, que depois aterrisam no chão e brigam pelas folhas das árvores que caem. Fora isso, Lóri é livre e vai encontrar outro doido para fumar um.
Eu esperaria por Lóri. Tenho certeza que ela merece. Não me colocaria em armadilhas...
Então, vejo que temos tudo em comum. Principalmente o colchão do meu pai. Eu amo aquele colchão.
Procuro na mochila uma bolacha para deixar ali, para quando ela acordar. Agora ando com bolachas famosas na bolsa, pois a última vez que eu dei uma bolachinha barata para um mendigo ele me disse ‘Você come essa merda?’. Eu disse “Não”. Então, ele me disse “porque eu tenho que comer, então?”. Nossa, morri de vergonha! Aprendi a somente conversar com a rapaziada quando eu estiver no encontro, ou seja, no mesmo lugar, olho no olho. Eles também não vão me esperar. E eu andava atrasada.
Por isso, da última vez convidei o rapaz do carrinho de papelão para jantar comigo na padoca e foi bem melhor. Sentados, com garfo e faca, pãozinho velho, sem medo de ser feliz!
Volto na música pela décima vez e fico lá, vendo Lóri dormir. A sensação é de liberdade.
Tomara que eles me esperem.
Masnavi me espera.

O título é em homenagem ao meu pai.
Ele me disse que só o cotidiano nos fará felizes.