30 setembro 2009

Peru - Poe-vida


Acordai, senhores das almas!
Despertai do sono profundo
Venha-me deuses e diabos de
todas as profundezas
Sou o corpo que deixa os pés
na ponta do abismo
Que abre os braços e se deixa voar
De pedra e pó
Só o corpo
Eu sou feixe de luz
Senhores das almas,
Encrustrados em ruínas
Consagram meu vôo silencioso
Hoje coloco os pés no Peru.

Cotidiano sólido - O Condicionado


Se as portas da percepção fossem limpas, as coisas se revelariam ao homem como realmente são: infinitas." William Blake



Todos os dias eu passava pela mesma rua, em um dos bairros mais chiques de São Paulo. Era o acesso que me levava a faculdade. Tenho por hábito dar nome aos moradores de rua e como sempre passava ali em frente a um senhor, de chapéu de papel, trapos e casa de lona, dei-lhe o nome de 'poeta da praça'. Ele tinha em suas mãos muitos papéis e passava o dia escrevendo.
Certo dia, sentei-me na grama e me apresentei 'Oi poeta, sou a Aline. Podemos conversar?'.
O poeta então levantou a cabeça dos escritos e passou a conversar comigo.
Sr. Raimundo é um ex-livreiro que diz ter sido internado em hospital psiquiátrico e após sua saída foi parar na rua por ter sido vitima de um crime contra os direitos humanos e responsabiliza o Estado por isso. Ele se auto intitula 'O condicionado'. Raimundo passa o dia escrevendo contos, crônicas e poesias. Quando era livreiro, procurou muitas editoras para fazer um compilado, mas após receber muitas portas fechadas, decidiu renegar toda sua obra. Quem conversa com Raimundo tem o prazer de ouvi-lo falar e ler seus próprios escritos.
Apesar de viver num bairro nobre, Raimundo recebe ajuda apenas dos taxistas.

"Faça da arte literária, instrumento de incompreensão" - Raimundo, O Condicionado.

28 setembro 2009

Salve Danãe nas alturas


Danãe, trago-te flores ao altar
Derramo minha água aos seus pés, em ablução
Vejo-te minha deusa tão humana
Vem em minh’alma
Sem nome, Danãe.

Vamos nos rebatizar
E correr livre pelos sonhos
Somos deuses, Danãe
Não precisamos sofrer.
MASNAVI

Canção das coisas sem nome


...Como se, de longe, me lembrasse um voto de lealdade. Como se me dissesse que há uma terra, mas nós não a encontramos. Despedaçados, fomos atraídos pela luz e ao chegarmos, havia um pântano escuro e o céu desceu sobre nós. Passamos a carregá-lo como fardo. E eu lhe peço “Reze, reze por mim”.
...Como se, de longe, me lembrasse um sonho. E então com os olhos fechados, chego a mim, em segredo. Revelo outro caminho, trêmula e vejo a luz. E nos teus olhos, vejo meu reflexo semeando como flores um jardim solitário. Caminhando, vejo alguns botões de rosas escondidos em meio a tanto mato. E para cada morte, uma epígrafe e um deus.
E tu encosta-te no murinho, olhando a areia batida e todas aquelas casinhas, comércio, atrás dos teus cabelos, e no horizonte, água, alguns barquinhos e mais mato. Tu me mostras teu jardim, tal como é. E todos os deuses cultuados, cada qual ao seu rito, te acompanhando em todo canto, no fundo deste olhar perdido. Lá te acho. Contemplando.
...Como se, de longe, me lembrasse um voto de lealdade.
E teus olhos viram estrelas, teu coração vibra como um violoncelo em nota sóbria, teus olhos regam aquelas flores e os deuses dançam sob suas lápides, tu lhes dá a mão e a música que lhes envolve...
...Como se, de longe, me lembrasse que eu existo.
Quando falas do amor, os deuses dão-lhes as mãos e riem-se de mim. Quando falas de entrega, volta-lhe o passado e tu te entregas, tu afastas todos os deuses mortos e ajoelha-se em frente a si. Por um segundo o céu paira silencioso. E eu já não preciso estar lá. Não é o meu silêncio.
Então rezo por mim. (e meu jardim fértil, vazio). MASNAVI

25 setembro 2009

Inabitada

Inabitada. Só reconheço meu nome pelo amor.
Só sei que existo, porque o sinto.De outra maneira, é como se não existisse a mim.
E vou me abandonando, assim.
Vou me deixando ser invadida.
Vou voando para longe, tão perto de mim.
Algum dia, ei de contemplar-me, sentada.
Eis meu único Segredo.

MASNAVI

23 setembro 2009

Cineshit


Quem não se lembra de Hedy Lamarr? Ok. Apenas os cinéfilos se lembram.

É a Dalila do filme Sansão e Dalila de 1949. Ela participou de muitos filmes de 1930 a 1958.

Quando estudava cinema, meu professor Walter Webb quase morria quando falava dela, ou de Sharon Stone, que ele conheceu pessoalmente. (Prefiro Hedy, óbvio!).
A atriz ficou famosa após aparecer nua no filme "Ecstasy" (1933). O mais interessante desta história toda é que a atriz, fofinha como na foto, ficou de saco cheio do marido empresário ascendente da elite nazista e fugiu para a Inglaterra. Em plena II Guerra, a mocinha inventou um aparelho de interferência em rádio para despistar radares nazistas.
A invenção surgiu de uma brincadeira com um pianista, uma espécie de dueto, onde cada um repetia em outra escala a nota que o outro tocava. Isso tudo foi a base da telefonia celular.
(Quem gostar da história, dá uma fuçada na wikipedia).


22 setembro 2009

Banalidades cotidianas

Já não ligo mais de levantar-me todos os dias, pontualmente, às 6h30. Às vezes o faço até em finais de semana. Gosto de ter tempo até mesmo para não fazer nada. O problema é que Masnavi me acorda, pontualmente, às 5h. Ele sempre me convence a afastar a cortina e olhar lá fora. Depois eu viro para o lado e volto a dormir. Às 6h25 eu costumo pegar o celular e desligar o despertador antes que ele toque. Então olho para o quadrado branco que é meu quarto e alongo todo meu corpo, até ajoelhar-me, estendendo as mãos no chão, voltada aos Sutras. Meu primeiro pensamento todos os dias é “ai que cama quentinha” e o segundo é “eu adoro acordar cercada de livros” e o terceiro é “sou uma filha da puta de sorte, tenho tudo”. Então não recito um mantra. Acabo afastando a cortina voltada para a janela, virando para o lado e dizendo “Obrigada, Masnavi, por me fazer ver”.
Tomo banho em alguns segundos, brigo um pouco com meu cabelo, coloco a primeira coisa que tiver no armário, enfio o Ipod na orelha e saio correndo. Escolho Dave Mathews, todo santo dia, há um ano. Pelo menos para percorrer da minha casa até o ponto onde encontro com o rapaz que me dá carona.
Desço a Consolação conversando com Masnavi. Eu quero falar amenidades, mas às vezes ele não me dá sossego.
Eu digo “Masnavi, hoje não. Quero ouvir Dave e falar sozinha”. Mas não adianta, Masnavi desce a rua comigo, falando sem parar. Minha sorte é que no Centro, somos todos iguais. Eu e os mendigos descemos a Consolação falando sozinhos.
Chego ao meu ponto de encontro. Debaixo do Elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão. (lá foi gravado Ensaio sobre a Cegueira). Imagine como é sujo e feio.
Hoje, descendo a rua, ouvia Lover, Lay Down e cantava o finalzinho. É a parte que eu mais gosto. Imagino-me em um lugar lindo, debaixo de uma árvore, ou em qualquer lugar tranqüilo, feliz da vida. Acho que Masnavi daria um tempo para minha cabeça. Mas, enfim, me vejo deitada em um jardim, de mãos dadas, cafona assim mesmo e tão feliz. E aquela frase “I will wait for you. I will wait for no one but you”. Acho lindo. Lindo mesmo. E Masnavi pessimista comenta: “Mas cá para nós que as pessoas são bem mais complicadas que isso, certo? E só o fato de ter que esperar alguém já não é certo. A vida está ai para correr livre. Encontrar-se é seguir junto e não parar e esperar o outro chegar lá. “As pessoas só se encontram quando estão ocupando o mesmo espaço, no mesmo tempo e ai basta dar as mãos e ser felizes para sempre”. Nossa. Entendi porque é tão raro.
Ainda assim, voltei na música e parei do lado de Lóri. É o apelido que dei a nova moradora de rua que resolveu colocar seu colchão exatamente debaixo do predinho que eu espero o menino. Masnavi cumprimenta Lóri todos os dias. Eu fico quieta. Lóri ta sempre dormindo.
Masnavi tem mania de pedir permissão.
Então a música rolando e eu cantando ‘I will wait for no one but you’. E percebo que Lóri dorme num velho colchão idêntico ao que meu pai tem na praia. Então, reparo nos cabelos loiros de Lóri. Pelo corte que ela usa, deve fazer parte daqueles programas de reabilitação de usuário de crack. Eu trabalhei na Cracolândia e por lá a prefeitura manda toda rapaziada cortar o cabelo tudo igual! Então somos eu, Masnavi, Lóri e Dave. ‘I will wait for no one but you’. Será que Lóri precisa que alguém espere por ela? Não. Não. Ela ta doidinha. Ela só se entende com Masnavi porque os dois ficam deitados no colchão do meu pai, olhando as pombas no céu, que depois aterrisam no chão e brigam pelas folhas das árvores que caem. Fora isso, Lóri é livre e vai encontrar outro doido para fumar um.
Eu esperaria por Lóri. Tenho certeza que ela merece. Não me colocaria em armadilhas...
Então, vejo que temos tudo em comum. Principalmente o colchão do meu pai. Eu amo aquele colchão.
Procuro na mochila uma bolacha para deixar ali, para quando ela acordar. Agora ando com bolachas famosas na bolsa, pois a última vez que eu dei uma bolachinha barata para um mendigo ele me disse ‘Você come essa merda?’. Eu disse “Não”. Então, ele me disse “porque eu tenho que comer, então?”. Nossa, morri de vergonha! Aprendi a somente conversar com a rapaziada quando eu estiver no encontro, ou seja, no mesmo lugar, olho no olho. Eles também não vão me esperar. E eu andava atrasada.
Por isso, da última vez convidei o rapaz do carrinho de papelão para jantar comigo na padoca e foi bem melhor. Sentados, com garfo e faca, pãozinho velho, sem medo de ser feliz!
Volto na música pela décima vez e fico lá, vendo Lóri dormir. A sensação é de liberdade.
Tomara que eles me esperem.
Masnavi me espera.

O título é em homenagem ao meu pai.
Ele me disse que só o cotidiano nos fará felizes.

21 setembro 2009

Crítica e Fragmentos - Clarice Lispector

Fragmentos - “Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus
conselhos, por exemplo. Já agora falava sério:
- Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir
adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho.
É como enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso, queria evitar o
principal. De repente, porém notou que se não dissesse o final, nada
teria dito, e falou:
- Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às
vezes, por uma palavra tua ou por uma palavra lida, tudo se esclarece.
Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com
esplendor".

Crítica - O que realmente buscava era algo que não só não se resolvia com fórmulas prontas, mas, além disto, esbarrava na maior dificuldade que pode um ser humano ter: realizar-se como aquilo que é, no horizonte do que ainda não é. “Eu sou um monte intransponível no meu próprio
caminho” remete, mais uma vez, à tensão humana do entre. O entre-ser vige no aberto, que é
possibidade tanto da maior solidão quanto da maior entrega.
O esplendor de surgir de dentro de si mesma é a luz que não esconde as trevas. É a
resposta que, ao invés de pretender eliminar, põe em manifesto cada vez mais a pergunta de
onde surge. É uma aceitação ainda que momentânea do mover-se entre questões. É um breve
sopro da liberdade que nos constitui. Mas como fazer para surgir de dentro de si mesmo em
toda a grandeza do humano?`

Fragmentos: - O começo é uma prece. Ulisses, que nada tinha de religioso, surpreendentemente
pergunta a Lóri: Você sabe rezar? “Não rezar o padre-nosso, mas pedir a si mesma, pedir o
máximo a si mesma?” Não, ela nunca havia pedido. Havia reinvindicado, havia exigido, mas
nunca se colocado humildemente diante do mistério, para pedir, pedir o que realmente
importa. “Pede-se vida? Pede-se vida. Mas já não se está tendo vida? Existe uma mais real. O
que é real?”

Fragmentos - Alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à
minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na
verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é
não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com
que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te
indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a
pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação
porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no
entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem
receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu
mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre
esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para
nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com
alegria o pão que eu como que eu como, o sono que eu durmo, faze
com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei
sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar
que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar
a minha, amém.

Crítica - Não é de outra maneira que Lóri precisa de Ulisses e Ulisses de Lóri. No horizonte
deste pedido, compreendemos mais profundamente o amor que roga, humano, a presença de
um outro ser.
A dor de ser não permite enganos. Ela só se cura na plena presença
da verdade do amor como entre, como liberdade e doação. Por isso, Lóri e Ulisses não se
satisfazem em viver um amor que não está pronto. Eles querem um amor de verdade, o
impossível, e precisam realizar-se muito além do que conhecem e têm de certezas acerca de si
mesmos. Escutaram, um no outro, e em si mesmos, o apelo do pathos que é viver. E já não
pode haver mais fuga. Lóri então se aquieta, e diz a prece que talvez tenha buscado dizer
durante toda a sua vida. É um esvaziar-se, o esvaziar-se que prepara o nascimento do novo
ser. Na lua que que vela, a noite absolutamente escura, o silêncio se torna maior e mais vivo,
para dele nascer o dia.
- O ódio de Lóri, que era a imensa resistência a todo este apelo, começa a se desfazer.
Como se aos poucos se preparasse para iniciar-se numa nova vida. Um vislumbre dessa nova
vida havia se dado na imagem de Ulisses na piscina. Lóri sentira ali “um primeiro passo
assustador para alguma coisa.” É quando, desarmada, como uma criança “em encantamento
pelas cores orientais do Sol que desenhava figuras góticas nas sombras” se dá conta da
beleza de Ulisses. Da beleza que havia em Ulisses apenas por ser um homem, e existir nele
uma calma virilidade. Lóri descobre “o sublime no trivial, o invisível sob o tangível”. É é
como se de repente descobrisse
(...) que a sua capacidade de descobrir os segredos da vida natural.

De repente, nesta experienciação, Lóri estranha a si mesma. Não está mais no fulcro da dor. Está apenas vivendo um momento em plena presença. Neste estranhamento, pode dizer, encantada, humilde, e pela primeira vez:
“estou sendo”.
Estou sendo, diz Lóri. Estou sendo, diz Ulisses. Nisto, há um encontro. Porque o
estar sendo não é mais banal, como fazemos parecer todos os dias. Dois seres humanos se
encontram quando encontram-se no humano, e o humano é presença, vigor do entre-ser.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Fragmentos: "Seu corpo se consola de sua própria exiguidade em relação à vastidão
do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente
e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de
liberdade de cãos nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que
sem raiva ruge no silêncio da madrugada".

Crítica: A dor que não podia ser curada se apresenta como coragem de entrar no mar, de
adentrar o silêncio frio. Clarice chama isto de cumprir uma coragem:
Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e
grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a
de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer
exige coragem.

Fragmentos - “A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e
abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto
a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um
pedido secreto.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se
deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo tudo líquido deixam-na
por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé –
fertilizada.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão
pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que
não teme pois sabe que terá tudo de novo.

Diálogos - Aline e Masnavi

- Relembrei uma frase de Adélia Prado 'De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo'.
Início do meu diálogo:
- Gosto das pedras, pedras mesmo. Elas são bem bonitas, acredite.
- Não desconfio quando a pedra é bonita. Desconfio quando a pedra é pedra.
- É bem verdade que a boa e velha realidade em termos absolutos está em cheque mais do que nunca, mas das possibilidades da pedra, ser pedra é uma delas. E vejo poesia na pedra-pedra tanto quanto na pedra-não-pedra ou na pedra-coisa-alguma.
- Exato. Mas há que se considerar que o reconhecimento da pedra-pedra como UMA possibilidade já retira a pedra do estado de não-poesia. O problema é quando o ser de pedra da pedra se afigura como a ÚNICA.

MASNAVI

Cotidiano

A Sombra confia ao Vento o limite da espera
quando, dentro da noite, reclama o teu amor.
Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura, que surge tão bela e branca
derramando doçura, clara chama silente
ardendo meu sonhar.
Melodia Sentimental,
Villa-Lobos.

São 4h da manhã admirando um céu estrelado. Óbvio que não era qualquer céu estrelado.
É o céuzinho que aponta quando deitada na cama, afasto a cortina e abro um só olho para espiar as estrelas. É um vício noturno. Às vezes faço dormindo.
E pensando na beleza das estrelas brilhando mortas no céu, uma beleza de metáfora, mesmo que comprovada, fonte bem confiável, coisa mais linda, e as vermelhas, dressed to kill, que importa...
mortinhas, mortinhas.
Não era muito mais legal quando imaginavam que no horizonte havia uma queda d'água sem fim?
E ainda me imagino bactéria na barriga do gigante, admirando bucólica estrelinhas mortinhas.
MASNAVI

Dança Cigana

Levantou do caminho e seguiu
E dançou, dançou,
Rodou, rodou até ficar tonta
Ninguém conseguia fazê-la parar
Seu vestido refletia suas fitas de cetim
E seus olhos eram do puro negro
Era o bicho.
E ele a devorava, ferozmente.
Ninguém conseguia fazê-lo parar.
A dança,
Dela-bicho.
Finalmente encontrou-se. - MASNAVI

19 setembro 2009

Fitinhas e Rosas

Alta agonia é ser, dificil prova
entre metamorfoses superar-se
e - essência viva em pureza suprema -
despir os sortilégios, brumas, mitos

Alta agonia é esta raiz, pureza
de contingência extrema a abeberar-se
nos mares do Ser pleno e, arrebatada,
fazer-se única em seu lúcido fruto.

Alta agonia é ser: essencial
tarefa humana e sobre-humana graça
de renascermos em solidão vera

e em solidão - dor suportada e glória -
em nossa contingência suportarmos
o peso essencial do amor profundo.

Assim vives em mim, singela
pulsas em mim como a visão mais bela
entre rosas... queridas

18 setembro 2009

Carta de um marinheiro - Γοργών

Rio de janeiro, sem data

Desta vez não escrevo uma carta. Não dá tempo de escrever.
Minhas pernas recolhidas ao meu peito, meus dedos entrelaçados, ora olho para baixo, ora para cima e tanto faz, porque não dá mesmo para ver muita coisa. O sol queima meus olhos, a água se movimenta tão rápido que mal posso me concentrar em um ponto. Se houvesse um ponto, talvez eu pudesse pensar que lá eu seria pego e talvez desistisse, mas não serei. Ao longe, areia, algumas pessoas sentadas, muitas vozes de crianças brincando, carros passando, prédio que parecem se abraçar para me empurrar. E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens. O velho macacão azul, o poodle preto e eu correndo atrás da bola. Descendo a rua entre casas humildes para comprar sorvete. Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto, livre. Pulava os muros do sobrado, subia no telhado, amarrava uma pedra na ponta de uma cordinha e fingia pescar o dia todo. Lá longe, havia centenas de casinhas de subúrbio. Aqui dentro, havia centenas de sonhos e eu olhava o céu. Cá estamos juntos novamente.
Então abro os braços, como se pudesse te sentir. Sinto. E só sinto porque dentro de mim há. (E só ali.)
Levanto...

....Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto.
Livre...

...E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens...

E o vento...

FIM – MASNAVI

16 setembro 2009

O Jardim - Nietzsche

“E não esqueçam o jardim, o jardim com grades douradas! E tenham pessoas à sua volta, que sejam como um jardim – ou como música sobre as águas, à hora do entardecer, quando o dia já se torna lembrança: – escolham a boa solidão, a solidão livre, animosa e leve, que também lhes dá direito de continuar bons em algum sentido!”

Carta de um marinheiro XI

Rio de Janeiro, sem data

Escrevo esta carta de letras bem desenhadas, dobro o papel delicadamente, lacro, selo e não mando. Deixo aqui em cima da mesinha, como se fora entregue.
Meus passos são tão lentos que às vezes acho que parei e nem percebi. Meu uniforme encontra-se guardado nas gavetas do armário. Hoje faz frio no Rio e a cidade se transforma. Parece revelar-se cinza.
Alguns dias durante a noite, peço que me tragam o sono, assim não seria possível perceber o tempo e tanta saudade. Então passo a fingir situações, como se meus delírios pudessem me acalmar, mas quando fecho os olhos e durmo, ai me vem os sonhos e meu coração bate forte, minhas mãos acreditam que tocam, meu sangue volta a correr e abruptamente se faz dia e meus olhos se enchem e tudo para de novo. E tem uma música que não pára na minha cabeça, tem tantos sentimentos que oscilam no meu coração e às vezes ouço meu nome e ouço tão alto que me parece emergencial. A voz às vezes pede que eu corra e eu levanto, olho para todos os lados e não sei bem para onde devo correr tão rápido.
A noite então se cala e quando não é tormenta, alguém cobre meus olhos com mãos macias e me faz dormir, mas acordo a noite toda.
Vou sentar-me no arpoador. Quero ver as ondas quebrando nas rochas e a falta de pensamentos na minha mente me dará paz. O que há em mim é tudo que tenho. Não quero me livrar de mim.

“Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo, não salvo a mim”- Garret

Prosa Cigana

Lilith, porque faz frio esta noite?
Grande Sara Kali não me cobre com teu manto colorido.
Não há rabecas e violões.
Não há fogo e dança.
Ciganas com suas saias, balançando os ombros por entre as cordas.
Meu sangue escorrendo, Lilith.
Meus cabelos pulsando, livres
Os olhares negros
Vibrando.

- Fale para ti, cigana.
Fale em voz alta!
Rode, rode,
Não deixe que te parem na dança
Estou aqui.
Lilith habita a alma e o mundo.
Os lugares que tu não vês.
E quantas estrelas há acima de nós
É tudo que temos
E nos basta.
Somos ciganos.

Lilith, tenho medo de amor.

- Fale para ti cigana
Fale em voz alta!
O amor sou eu
É tudo que temos
E nos basta
Somos ciganos

Vem cigana,
Vem dançar.

MASNAVI

15 setembro 2009

Memórias do calvário

“Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite e aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. (...) E quase paro de sentir fome” Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias


De repente a água compelida a degustar delicadamente os braços e pernas. Sentada sobre grama úmida, sentiu-se gentilmente acarinhada. Era mais.

Recostou-lhe os braços estendidos, como em prece, pedindo-lhe a imagem. As imagens grávidas pariam-lhe palavras e sentidos. Parecia-lhe uma história conhecida, talvez seus olhos rabiscados, esverdeados. Formou-se então um imenso labirinto, um caleidoscópio multicor, desvendado os reflexos e distorcendo-lhe os sentidos. Qual é o meu nome? – repetia-lhe a mente.

E de olhos fechados, balançando a cabeça para não deixar-se iludir pela verdade, ajoelhou-se desejando contentar-se com a liberdade, com a paz, com a ausência dos desejos, mas sua gula, sua boca de fartura, seus membros sensuais, engoliam tudo, se alimentando de signos já comuns a sua vida. Resfatelava-se aprisionada por seus medos, por sua falta de coragem, por seu conforto.
Então o labirinto escorregando das margens penetrou-lhe o ventre e atravessou seu tronco rígido, trazendo-lhe imenso incomodo. O ar faltava-lhe e também a visão, então trouxe seu dedo até a garganta reconhecendo seus restos decrépitos por todo chão. Suas mãos, assim como suas curvas eram de delicada poesia. A água a queria.
Era mais.

Irreconhecível, levantou-se e trouxe suas pernas para perto de si. Seus pés molhados davam-lhe frio, mas a água era inutilmente quente. Qual é meu nome? – gritava-lhe a mente.

Sentou-se diante de um grupo infindável de montanhas, altos cumes, um céu tão azul que dava-lhe medo de ser sagrado, gramas verdes, pequenas vidas vivendo apenas e aquele rio.
Ficou ali algumas horas, diante de si. Relembrava cigarros, drogas, zumbis, festas, alegria, sexo, mentiras, compaixão, humildade, sofrimento, via o mundo, este mundo sagrado, tão incrivelmente lindo e tão assustador.
Silêncio.

Deitou a cabeça na grama e o coração quase parou de bater. Qual é meu nome? – suspirava-lhe a mente.

Então se viu pequena, bem pequena, tão sozinha. Num mundo de tantos silêncios. E no meio de tantos silêncios, viu seu pai. Seu pai trazia-lhe malabares de palavras encantadas, um universo de signos e de livros. Então era um circo delicioso, em que se via esperando todos os dias por mais e mais. E ainda assim era solitário.
Quase sem perceber, no silêncio, via também sua mãe. E havia devoção, entrega compaixão e solidão.

Mas ao longe, uma voz calma cantava-lhe músicas de ninar e então ela sonhava. E ela sonhava tão alto que podia sentir florir sua alma de imensidão. “E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe”(C.Lispector). E ia e vinha. Pela primeira vez ela era livre e podia sentir seus braços soltos, suas pernas correndo afoitas por tanta e tanta vida. Não havia o silêncio, não havia a solidão, havia felicidade e encanto. E só assim era porque estava entregue. E tudo depois se repetiria conforme sua própria vontade.

Levantou-se, ajoelhou-se na grama, sentiu o cheiro úmido de vida e aproximou-se do rio. Mergulhou a cabeça em abraço e as mãos apoiando-se na terra macia. Afundou ainda mais o tronco e sentiu-se imersa em nascimento. Ouvia ao longe um som, chamando-a e não conseguia decifrar o que lhe dizia. Foi então que ouviu seu nome.
Seu nome.
Na placenta, com os pés próximos ao coração, recostava a cabeça ao coração de sua mãe. Balançava no tom daquele pulsar tão pacífico. Era quente e úmido. Nada lhe faltaria. Então seus olhos fechara e não havia fome. Agarrava-se a vida como fonte única de existência. Talvez não quisesse mesmo existir, dava-lhe medo.

Impulsionou as duas mãos com pressa para fora do rio.
Saiu correndo pela estrada, nua.
Então a voz cessou em sua mente.
Não era a hora.

Silêncio. (MASNAVI)


Notívago

"Nenhuma razão para pena. Esteja ela onde estiver, tem o cabelo incandescente como uma torre, queimando-me de longe, fazendo-me em pedaços apenas por sua ausência." Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha.

14 setembro 2009

Em todo lugar...


Caminhando lentamente,

de olhos baixos


cimento, cigarros, escarros

sujeira, pernas, sacos


caminhando lentamente,

braços soltos...


um abismo em cada passo.


Um milhão de movimentos recolhem as cinzas de mais um dia perdido. Um milhão de pessoas passam sobre os ombros, como luzes ofuscando uma calçada longelinea. E eu também ofusco a multidão. Sou dois e muitos no dia que não sou.

Há muito espaço entre um e um.

Mão escorregadia no deserto. Cheiro de pó e pedra.

E existe este lugar.

Este outro.


(em silêncio)

Somos demais humanos.


Aline

11 setembro 2009

Carta de um marinheiro X

Natal, sem data

Hoje escrevo para mim mesmo e dentro de mim, onde tu habitas chegarão devaneios de toda sorte. E sei que tudo será verdade.
O tempo acomoda todas as almas e todas as cartas que naufragam por mares serenos. As minhas, faço questão de honrá-las.
Preciso da embriaguez, da lucidez, do mar, da lua e do sol. Não me contentarei com pouco desta vez. Sinto-me tomado pela ansiedade das crianças, um sentir compulsório tomado de beleza que já não sei se inventada e deus parece fingir que não me ouve pedindo e pedindo que venhas, que sejas real, que exista minha verdade inventada e que o mundo se ilumine de prata para que caminhemos.
E que mundo é este recriado de abismos? Admirando feições de qualquer movimento, escravo de toda beleza, ainda se assim não for a realidade paralela, qual seria a realidade então? E quando encanto outros olhares, sei-me devoto de desejo único escondido na secretude de meu olhar perdido, movimentos conscientes e discretos. E todos os pensamentos cheios de expectativas que não tenho coragem de anúncia-los, pelo medo acreditar tanto neles a ponto de matar essa parte de mim que não aguentaria vê-los mortos. Seria um caminho sem volta, sem tamanho, sem saída. Então invento que não devo esperar, pois assim seria mais silencioso e calmo. Quando menos espero, encontro-me tecendo grandes castelos, casas, ilhas, sonhos e já me perco em mim novamente, admirando feições dos teus movimentos, escravo de toda beleza inventada e devoto de desejo único escondido em tudo que é meu. Entregue em tuas mãos.

MASNAVI

09 setembro 2009

Ramalhetes de flores aos Deuses

No fim da tarde
Com tiara de luz
A delicadeza sobrevoava
A casa
que se abria para mim

Palavras e conselhos
soavam sinfonias
de olhos onde tudo se recorda

suas mãos macias
Pareciam desertos de areia
infinitos
e eu caminhava nua
com os olhos fechados
Seguindo o cheiro de jasmim
(Jasmim)

E se forem estrelas?

Então tu me cobririas com teu manto cintilado
acariciando-me os cabelos claros
e trazendo-me ao teu peito em gratidão
Tua voz seria brisa
Refrescando-me a pele clara ...

E se for esperança?
No fim da noite
com tiara de luz
a delicadeza se reveste,
não se encontra
A casa
Tu me ajudas a abrir

E se formos infinitos?
(Tu estás aqui) - Menina, essa cabeça é só para usar chapéu de fitinhas. MASNAVI

04 setembro 2009

Da brevidade da vida

Milhares de letras surgirem e descrevem cada linha dos afazeres necessários para a completude. Milhares de letras viram pó diante de cada dia que surge. Quando olho para baixo, vejo duas mãos e só nelas vejo as possibilidades.
Há um espiral gigante que de tempo em tempo me faz voltar ao mesmo ponto. Cabe a mim, querer voltar sempre diferente. Há uma Terra finita e um universo infinito dentro de cada célula de minhas mãos. Volto, todo universo aqui está e só posso ser grato por isso. Todos os dias há 35 escovadas nos dentes superiores e mais 25 nos dentes inferiores, depois um banho e uma roupa, um trajeto e um trabalho. Além disso, há muito pouco objetivamente.
Nestes segundos de luz entre milhares de anos de escuridão de estrelas faz-se necessário ascender e desprender-se de si para tornar-se livre. O amor é fonte única de liberdade. É o vento que abre as janelas e descortina os medos, levando tudo, dando-nos a possibilidade de querer mais. A leveza requer desprendimento de si, exercício e compaixão. A densidade é um rio amargo que afoga apenas aqueles que não sabem nadar e imaginam que são corajosos e cheios de si, todos iludidos por seus corpos fortes e gigantes. Eis que surge o pequeno alheio que a cada dia move um terço e promove a fonte límpida de verão. Não há peso na delicadeza. Só há felicidade quando olhamos uns aos outros, livre de si.
A vida é finita e seu fim está sempre próximo.

MASNAVI

01 setembro 2009

Carta de um marinheiro IX

João Pessoa, sem data.

Querida Catarina,

Atraco mais uma vez em Nossa Senhora das Neves, cidade nascida no mesmo mês que eu. Diferente da última vez, a brisa do mar amansa-me os cabelos com toques mais suaves. Meu corpo encharcado pisa no porto e começa a descarregar a carga. Às vezes acho que o trabalho duro e o sol na cara me fazem pagar o preço de estar vivo. Devo muito a essa mola propulsora chamada existência. Sou sonhador, querida Catarina. Não sei ser diferente. Já cheguei a achar que sou inconseqüente, mas se há a chama, devo segui-la. Talvez os leões do mar me engulam a tempo.
Tu não percebes, Catarina, que podemos dar-nos este equilibro. Desejo a vida de novela também, com cachorro e filhos famintos. Na verdade, minha paz encontra-se nisso. A medida exata de vida e paixão, ainda não sei, mas vou encontrá-la, lhe juro.
Tuas palavras soam como lindas flores de primavera que desabrocham vagarosamente ao sol. Parece-me uma menina travessa aprisionada em corpo de mulher. Todos comentam de tua beleza e às vezes sinto-me não merecedor de tanto, aos olhos.
Não precisamos de muito, Catarina. Precisamos manter nossos corações inocentes e só assim os caminhos se iluminarão para nós. Não há maldade que supere corações inocentes. Nada nos absorverá e a simplicidade é o que mais buscamos, enfim. Não serei teu deus da ilusão, tenho medo de tu não aceitares o cotidiano que pode ser possível entre nós. A vida é coisa simples mesmo. Não te prometo o céu, nem a terra, mas um meio de vida de liberdade, cheio de pequenas prisões. Vamos nos comprometer ao exercício. É uma amarra por dia para desatar. E acredite, pequena, nunca estaremos completo em nenhum dos mundos. Há aquele lugar que habita o silêncio e o grito, onde escondemos a saudade da Origem. Nunca vamos estar completos. E tu és sábia. Quando te perco por segundos, sei que tu preservas tua essência. Tu voltas para teu lócus e lá esta teu momento de plenitude. Não em mim.
O mar me ensinou muitas coisas, mas há muita inexperiência nesta camisa suada. Vejo-te descrevendo tuas histórias e lembro-me de ouvir algo semelhante de meu avô. Teu avental é parte de teu braço de lavadeira e da força do teu espírito. E nossas lágrimas são a salvação dos pequenos males e das prisões do nosso coração. Minha força é mais imponente quando choro. Essa é a real sabedoria.
Quero que acredites na simplicidade e na calma do amor. Saibas que a paixão se leva de nós e sobra apenas a brisa refrescante do mar. A paixão que sobrevive é apenas aquela que temos pela vida. Essa é a maior lição que levo do mar.
Sou marinheiro por escolha. Escolhi a vida e ela escolheu a mim. Quando meu pai me disse que tudo que eu desse ao mundo, teria de volta, sai de casa e levei somente a mim, sem medo de cair ao chão. Penso que não me faltou nada e já fui desacreditado por muitos. Certa vez, me disseram que um homem letrado como eu não deveria limpar o convés. Tive vergonha por alguns segundos. Aquele era o meu trabalho inicial e eu fazia com carinho. Esfregava o chão com o perfeccionismo que sempre coube a mim. Acredito no trabalho das mãos e na humildade de fazer-se pequeno. A cultura é artificial, acredite.
Teu caminho te revelará com força. Estarei sentado vendo-te passar com teus panos, tuas roupas limpas e sei que tu serás uma marinheira.
Hoje estou mais velho do que ontem e sinto o gosto doce do bolo de laranja. Aguardo meu presente e farei como tu pediste.
Catarina, a vida é frágil. Segure-a.