03 agosto 2009

A Música do Boi




Era uma estrada, muitas árvores, grandes cidades e outras tão pequenas. Era uma ponte, um rio, um céu, eram nuvens. Eram tantas coisas no caminho que nem me lembrava de quem eu era. Não poderia saber.
O caminhou se foi e ficou uma pequena cidade. Eu também fiquei. E então, era uma igreja, uma praça, crianças, dois sertanejos e um boi. Parecia uma cidade desenhada de maneira irregular, um céu levemente cinza, casinhas coloridas, madeira maturada e um riozinho que cortava ponta a ponta. Na praça havia várias tendas e pequenas lojinhas com artigos religiosos, afinal, ali também era uma cidade conhecida por romeiros. Inevitavelmente, me sentei ao pé do rio, encostei minhas costas na mureta e passei a observar os que passavam.
A pequena cidade contaminava a pele, como uma música que vinha de dentro das vísceras do boi. Era o boi.
Os sanatórios liberavam seus internos aos finais de semana para caminharem pelas ruas livremente, para quem sabe talvez visitar a igreja, encontrar parentes, comprar docinhos, promover cantorias e quem sabe sentir-se igual aos demais, porém a música do boi era fatal. Musicalidade visível aos olhos dos visitantes mais sensíveis. E de repente, reuniam-se os loucos debaixo da tenda homogeneizando rostos e cabelos, desenhando ritmos, cores, movimentos, dança, era a alma do boi e eu jamais testemunharia se não fosse o chamado da terra e do caminho.
A música ritmada dançava por entre os dedos e unhas, subia até os cotovelos agitados e pelas pernas desencontradas, formando assim sombras e contornos sinuosos, em transe. Eu também fiquei. Caminhei de volta a praça e sentei-me em frente aos sertanejos que lamuriavam músicas antigas. Formou-se uma roda de pessoas cantando enquanto uma senhora pedia contribuições. Havia crianças correndo, senhores sentados, a igreja em ruínas e o boi. Havia o boi. E havia o boi há mais de 100 anos. A tradição da pequena cidade era fotografar-se em cima do animal com a igreja ao fundo.
Concentrei-me novamente na cantoria, hipnotizada pelos meus ouvidos e meu coração. A música revivia histórias e costumes de outros tempos, lugares, sentimentos. Aproximou-se então, um senhor bem velhinho, cabelos crespos, feições marcadas de trabalho e terra, caminhando com certa dificuldade, segurando uma sacola de plástico, vestindo trapos rasgados, amarrados por um cinto e apoiando-se em uma bengala sem perder o porte varão. Ele calmamente se pôs em frente aos músicos, abraçou sua sacola ao peito e gemeu baixinho a letra daquela canção. Aos poucos, as lágrimas abraçavam-lhe as bochechas e jogavam-se em seus lábios e queixo. Abriam curvas, retas, traços descompassados até despencar das alturas, caindo, enfim, no chão. Era o boi. Era uma senhora falecida que havia tido sua foto em frente à igreja. Era um senhor cantando em gemidos, lamentando saudade, segurando seu saco de lembranças. E eram tantas coisas no caminho que me lembravam de que eu sou. Eu poderia saber.