03 agosto 2009

A morte do amor


Quantas foram as manhãs claras que iluminaram as flores do meu jardim e sorriam como crianças à água e a mim. Desde muito pintei meu jardim com azul, me trazia calma e esperança. As coisas sagradas me ensinaram a amar as flores, todas elas, mesmo as que estavam murchando com o tempo. Eu as regava, as colhia, as amava. Poucas flores brotaram com tanto amor, muitas o vento me levou, outras não cresceram, mas havia uma especial, robusta, verde e vermelha como as flores deveriam ser.
Que mundo onírico foi este que versei? Pareciam trechos de uma alma vasta, de uma lágrima verdadeira. Sinto. O que mais sinto é não ver mais flores naquele campo, são poucas as sementes que nascem do absurdo e se vão para jamais serem vistas novamente. Quando desço as escadas sempre vejo uma cidade grande, aqui onde moro e não consigo me envolver com fumaça. Sobem, descem, desaparecem. Todos. Será que posso ser sincera comigo mesma para sentir dentro de mim a beleza da verdade única e sonhar sempre? Queria o sonho, todos têm um sonho. Minha amiga queria a chave que a levasse dentro de sua própria alma e conseguiu após tantos livros lidos navegar no horizonte de si mesma e encontrar nas fábulas sua pedra preciosa, sua verdade. Na verdade, ela queria ser dona de uma livraria, um acervo, daqueles grandes, que pudessem fechá-la dentro do lirismo da humanidade. Sonho modesto. O meu sonho é parecido, quis sempre brincar com a vida e com a alma dos outros, no sentido alegre da palavra brincar. Eu queria uma casa grande e me responsabilizar por várias crianças, transmitindo a filosofia e humanizando-as conforme o sistema as corrompia. Corre Léo! Não mexa no cabelo da Maria! Vamos cantar e rir das bolinhas que caem no teto quando as lançamos! São verdes e fofinhas, elas voam, voemos crianças! Voemos para dentro de nós mesmos onde não há a mentira, que as bolinhas nos leve ao altar. Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! Marcos venha cirandar! Larga esta bola menino, depois vamos todos jogar. Parece mesmo uma confusão mental que me disponho agora, mas é um sonho. Como eu disse no princípio tudo que gosto são inúmeras flores no meu jardim. A princípio não me baseio no toque sagrado de qualquer escritura, mas daquela que já me foi dada ao ganhar a vida e em meio a tantas florestas que viraram pó, tossi tanto que adoeci. Adoeci muito, mas felizmente não foi mortal. Aqui nesta cidade muitos ficaram doentes, morreram e não sabem. Passa um, dois. Nossa! Aquele está lotado! Eu quase morri, mas sempre que estou quase morrendo corro no campo e o vento trata de me devolver inocência. Não sei mais o que fazer, pretendia jogar ostras ao mar o dia todo para salvá-las, mas ninguém quis me ajudar. A praia é longe daqui e as ostras são muitas para pequenas mãos. São pequenas e se pensarmos que as mãos são pequenas, assim será também o objetivo. Meu objetivo começou grande, mas foi diminuindo com o tempo e eu precisava resgatá-lo daqui de dentro. Ultimamente não tenho tido espaço para objetivos, minha cabeça está se enchendo de fórmulas secretas que não sei usar. É Einstein, Borh, Newton. Parecem semi deuses da ciência e eu sou apenas uma futura violinista. Que voz foi esta? Só podia ser. Aquele é meu irmão dizendo que eu desafino. Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor, só privilegiados tem ouvido igual ao seu. Não sou Bach, mas me esforço. Só queria poder tocar o instrumento e tocar as pessoas, mostrar que eu as amo em uma melodia suave de Beethoven. Não, não, Schubert! Puxa, até Elis Regina saberia transmitir. Pouco importa isso agora, preciso regá-las. Gostaria tanto de um elogio agora, como aqueles que minha afilhada me faz. Você tá tão linda prima! Falta um dente nela, é de leite ainda. Ela é uma flor. Ainda temos algumas. Gosto muito de rosas, mas ultimamente as flores do campo me chamam mais atenção. Aprendi a ser selvagem com elas. Hum, são os pássaros! Adoro estes cantos! Um, dois. Nossa! Como aquele está lotado! Todos adoeceram esquálidos, mais um gênio explodiu no concreto dos aviões. Estava declarada a morte. Senti no coração mais que tudo, quando ouvi planando ao longe um avião que jogava... Acabou! Como? Não mais existe. Não mais existe. Não mais existe. Engraçado, Maria estava apaixonada e as paixões alegres fazem nascer o amor e o contentamento. Como diria Descartes o amor é uma emoção da alma causada pelo movimento dos espíritos vitais que a leva a unir-se voluntariamente aos objetos que lhe parecem convenientes. Tudo era conveniente na cidade. Menos o amor. É piegas demais para os bolsos. Deixe isso para as crianças que ainda não tiraram seus pés do sonhar. Falta afetividade no olhar. No olhar. O olhar. Fui arrastada para este caminho, pelas forças vitais. Elas me conduziam a lugares longínquos onde via uma beleza encantada e sagrada. Eu as consagrei sozinha, mistifiquei. Não quero desmistificar, quero ter fé nos meus sonhos. Falta afetividade no olhar.

MASNAVI

A autora amadureceu suas composições voltando-se para questões sociais buscando entender as frustrações humanas. Participou do concurso na França organizado pela RFI Radio França, com a colaboração de Luiz Fernando Veríssimo, obtendo grande sucesso. Tem muitas poesias escritas das quais, podem ser encontradas no livro MOSAICO, resultado da II Seletiva de Poesias de Barra Bonita. (Sérgio Grigoleto - Editor Clube Amigo das Letras)