10 agosto 2009

Infância...



Havia um ritual pela manhã. Acordava as nove, penteava os cabelos, me agarrava ao livro Cavaleiro Inexistente e passava as primeiras horas do dia. Depois, alguma das muitas senhoras que cuidavam de mim, colocava comida no meu prato e eu aguardava pacientemente ela dar as costas para correr e jogar todos os legumes no lixo. Delicadamente eu colocava alguns papéis em cima, para que nunca fosse descoberto. Eu achava que se ninguém descobrisse, os nutrientes entrariam no meu sangue apenas por toda vida que eu sentia dentro daquele pequeno corpo magricela.

Após o almoço, começava uma correria, tinha que pegar o côco dos muitos cachorros que havia na minha casa. Era uma casa grande, em um bairro de periferia, cheio de crianças descalças na rua e violência urbana. Eu não ligava. Para mim era um castelo cheio de magia. Cada quarto era uma cidade e tínhamos nossa própria língua.
O quarto dos meus pais, por exemplo, era a cidade mais perigosa. Meu irmão mais novo e eu pulávamos o tapete imaginando ser uma ponte gigante e caiamos em cima da cama, pois lá era o navio que nos conduziria a um lugar seguro. Muitas vezes quebramos a cama e meu pai incansavelmente colocava um tijolo por debaixo do estrado.
Inventamos um dialeto daquela cidade chamado língua dos Omps. Tínhamos que falar todas as palavras com a boca aberta, sem mostrar os dentes. Nossos rostos pareciam rodelas gigantes e ficávamos tão esquisitos, que no início não conseguíamos parar de rir.

Após visitar muitas vezes aquela cidade, passamos a aceitar os diplomatas desbravadores que éramos. Então, mesmo com as caras redondas, ficávamos sérios e compenetrados.
Confesso que por ter mais idade, achava que meu irmão era bem bobo.
Tudo acabava quando meu pai chegava para nos levar ao colégio. Eu pegava meus livros e colocava meu uniforme. Gostava dele bem passado, limpo, como se fosse a uma festa todos os dias. Na verdade, não era festa, era apenas o colégio. Mas aquela não era qualquer manhã. Era a primeira vez que eu teria aula de literatura com um professor específico para tal matéria. Eu achava aquilo fascinante, aguardaria as entediantes aulas de gramática passar, para que delicadamente eu pudesse degustar qualquer saber lançado no ar, como se pudesse respirar melhor em um instante.

Chegava na sala de aula e me juntava ao fundo daquele quadrado imenso, cheio de cabeças menores na frente. Eu era grande e tinha certa vergonha de ficar na frente. Passado alguns minutos, entrava na sala uma senhora baixinha, de cabelos brancos, óculos fundos, parecendo prestes a desmontar. Era minha professora de gramática. Então, eu colocava aquele livro pesado sobre a mesa e me deitava atrás dele, fechava os olhos e declamava poesias, fábulas, contos.

Passou uma hora e quando olhei a lousa, havia mais de cinco quadros preenchidos. Aquilo era desesperador. O que tinha acontecido enquanto eu sonhava? Porque ela fazia isso com nossos dedos tão pequenos. Nem com todas as canetas do meu estojo eu conseguiria copiar todas as frases! Tratei por pegar do meu colega o caderno e copiá-lo incansavelmente. Parecia ter sido designado a um castigo. O castigo das mil palavras.
Quando de repente, lembro-me que deveria esperar imponentemente a nova professora de literatura.

Guardo meu livro pesado na mochila, em meio a um monte de papéis velhos, canetas sem tinta, chicletes de morango e amuletos quando entra na sala, uma mulher jovem, de cabelos de fogo e olhar marrom. Não consegui me mover. Meu corpo queimava e lembro-me de sentir calor daquele jeito apenas após os jogos de basquete e queimada. Como poderia me sentir assim, se não havia jogado nada? Depois disso, ao ouvi-la dizer seu nome, subiu-me um ar encorpado pelo peito, que parecia estufar os muitos vasos que deveriam existir em meu corpo. Minhas mãos suavam frias e úmidas.
Passei a segui-la com os olhos e ela tinha nas mãos o meu livro. O meu Cavaleiro Inexistente de Ítalo Calvino. E ela passou a ler livros durante as aulas enquanto as imagens me vinham na mente. Lembro-me do quanto sofri com Terra Sonâmbula de Mia Couto. Não conseguia dormir.

Após aquele dia tudo mudou. Não sei bem o quê, mas dentro de mim, este calor transformou-se em gosto pela vida. Um gosto que já habitava em mim e nas cidades que morávamos meu irmão e eu, nas línguas que falávamos e nas histórias que criávamos para viver melhor. Neste dia, o gosto era pela vida que eu descobri existir atrás das janelas daquele castelo, que enxerguei ser apenas uma casa, num bairro pobre. Percebi que as grades que me seguravam dos jacarés na cozinha eram grades para não deixar bandidos entrarem na casa. E apesar de tudo isso, havia um jeito de lidar com o mundo que poderia calar todas as angústias, acalantar todos os medos e dar-me impulso de co-existir com tudo isso ao mesmo tempo.

Eu tinha que agradecê-la e como não sabia bem como, passei então a escrever e dividir meus poemas durante as aulas, pois era a minha alma, ainda tão pequena, em letrinhas tão tortas, com tantos erros gramaticais, tantas insuficiências de palavras que ela calmamente dirigia e orquestrava outros caminhos de dizer as mesmas coisas.

Sentava-me nas escadas do colégio, todos os dias fatalmente às cinco horas da tarde aguardando que ela passasse ao longe e que por um segundo eu pudesse sentir o perfume de orvalho exalante de seus cabelos sempre molhados.

Ao cair da noite, no silêncio do quarto pequeno que eu dividia com meu irmão, logo após meu pai nos ler a Bíblia Ilustrada, eu achava engraçado como Jesus e todos os outros podiam ser tão parecidos. Meu pai fazia com que a gente rezasse o Pai Nosso, enquanto minha mãe nos fazia meditar ao som de Kitaro numa sala escura, debaixo de uma pirâmide, vocalizando mantras. Então, logo após o Pai Nosso, eu perguntava ao meu irmão o que seria o vosso reino e a vossa vontade e esse tal espírito santo. Meu irmão me dizia que eu não precisava saber, pois se meu pai mandou repetir era porque algo de bom tinha ali. Lembro-me que em uma destas leituras, eu comecei a rir, achando engraçado o nome de alguns personagens da Bíblia Ilustrada. Meu pai pediu que eu engolisse o riso e escutasse calado a leitura.

Tínhamos um terço branco que ficava encostado nas nossas camas e eu passei a acreditar que aquilo eram bolinhas mágicas que eu poderia falar com este tal de espírito santo.
Certo dia mudamos-nos para um bairro um pouco melhor. Tínhamos ao lado um cortiço cheio de gente estranha que brigava todas as noites. Foi quando tive a grande idéia de pegar aquele cordão cheio de bolinhas e uma cruzinha para fazer magia do lado de fora da casa. Ainda de pijama, abri a porta silenciosamente na madrugada e sentei-me na calçada com as bolinhas. Segurei na mão com força e entoando os mantras da minha mãe, pedi que os personagens da Bíblia Ilustrada e o tal espírito santo me ajudassem a trazer paz no coração daquela gente. De repente, o que na minha mente eram desenhos de homens barbudos e uma rua sem carros e cachorros dormindo, transformou-se em calor repentino no peito, passei a suar tanto que molhava meu pijama e minha visão já não enxergava.

Depois, o silêncio. O silêncio que cortava a rua escura. Os gritos, as vozes, silenciaram e não sei se as bolinhas tinham algum poder ou se minha cabeça pendurada na minha mão, concentrada tinha alguma força, não sei de nada, mas passei a não rir mais enquanto ouvia a Bíblia Ilustrada de meu pai.
Meus pais construíram um altar dentro do quarto, onde eu me ajoelhava após o almoço, pedindo perdão por ter jogado os legumes fora. E meus joelhos andavam calejados, pois eu repetia a molecagem todos os dias.
Era para lá também que eu arrastava todos os dias o meu colchonete pequeno, correndo do medo que eu tinha de dormir sozinho, no escuro. Meus sonhos me perturbavam muito.

Aos quinze anos, ganhei uma caixinha azul, já velhinha, com duas bolinhas que tinham pequenos sinos em seu interior. Eu sabia que aquela caixinha era algo que podia se comprar em qualquer esquina, mas recebi das mãos desta pessoa que por debaixo do suporte da caixinha, colocou uma medalhinha que viveu em seu pescoço por muitos anos. A senhora então me disse que havia ali o desenho da lua e do sol e que eu deveria chacoalhar a tal bolinha toda vez que sentisse saudade da minha Origem. O som, aos olhos fechados, me levaria para mais perto de mim. Ali eu não esqueceria mais da vida.

Voltando ao colégio, mantive-me devoto as aulas de literatura e os anos foram se passando. Meu corpo tornou-se mais rígido, meus poemas mais floridos, meu uniforme mais sujo e minha boca menos calada. Apenas uma coisa não mudava. Todos estes anos foram dias, de mesmas horas, consagrando o rito da escada. Sentava-me no piso avermelhado, frio, próximo a sala dos professores e aguardava ansioso o mesmo momento, todos os dias, como se minha memória não conseguisse fixar que aquele momento já havia passado igual por muitos anos.

Amei-a como uma deusa. Esqueci as tantas vezes que ajoelhei-me na frente daqueles santos sem nome, que se assemelhavam aos personagens da Bíblia Ilustrada, pedindo que me mostrassem o seu poder e me dessem a oportunidade de agradecê-la pela vida que me revelaste. E o que fizeste de mim, ou o que eu mesmo fiz com tanto sentimento, foi mais do que força de vida. Iluminaste todos os caminhos que vieram depois.

Às vezes me vejo sentado, esperando que algum dia, com outro rosto e outro nome, eu sinta todos os sentimentos do mundo imersos dentro de mim, novamente. Eu existirei por inteiro e revelarei o meu verdadeiro nome.
É então que chacoalho a bolinha próxima ao ouvido e sinto-me correndo neste campo imenso do meu corpo.
Já não guardo terços, santos e nem a Bíblia Ilustrada.
E isso me basta. - MASNAVI