21 agosto 2009

Cartas de um marinheiro VII...

Ruas quentes, limpas, gente marrom. Como dissecando camadas, ando solitário pela via. De um lado, vejo areia, do outro mar. À minha frente há prédios e pequenas casas, ao longe vejo mais carros, mais semáforos, mais gente. Sinto o vento cortando o bafo quente nos meus lábios e quase consigo sentir o gosto da terra. E eu ia e ia. E mais negras macias, senhores europeus, gente parda e eu. Eu, um fluído de pequenas células e água. Eu quero ver o mar. Eu quero ver o mar.
E é Natal, mas poderia ser qualquer lugar no mundo. Com outras gentes de pele macia, outros senhores, outras crianças, outras gentes solitárias. Cada um com seu pequeno mundo e eu com minha imensidão de tudo que não há. Sento, coloco as mãos na nuca, abraçando-me a cabeça e olhando fixamente para baixo. Eu quero ver o mar.
Sempre ouço me chamarem no fundo. E nunca é nada. Não sou eu. Não é a mim que procuram e continuo caminhando. Hoje não procuro nada, porque de fato sei que não vou achar. Hoje sou presente. Apenas isso que vês: coqueiro, areia, cimento, pessoas e céu de nuvens cinza. Sou do tamanho do meu corpo, exato como um copo de água cheio. E vou andando aqui, acolá e o mundo fixo, como planta, me assiste ao desespero. É a paixão que tenho pela vida. E hoje prometo não citar teu nome.

MASNAVI