20 agosto 2009

Cartas de um marinheiro V...

Catarina,

É a segunda carta que recebo de ti, mas nunca tive em minhas mãos tantas letrinhas desengonçadas. Tu, sempre tão breve, desta vez enredaste todos os pontos desta história. Tuas histórias são mágicas, Catarina. Digo-lhe que as palavras são como tuas rendas, entrelaçadas e entrecortadas meticulosamente para fazer-me arranjo pomposo em mesa abastada. Ficaríamos ali imóveis rindo da vida ordinária que se põem entre peixe, camarão, arroz e salada. Tu numa ponta, eu na outra, livres como só as passadeiras de mesa poderiam ser. Escarnando e escarrando no prato desta gente medíocre que não enxerga por debaixo da mesa. Vês, Catarina? O marinho se faz poeta para agraciar as tuas rendas e reverenciar tuas madeixas iluminadas.
Não sabia que tu vieste do Maranhão despencando até aqui na terra de teu marido. Confesso que tive de rir de tua maneira simplista de descrever-me tua vida. Saiba que também lavo pratos, o chão, as cuecas e as mocinhas do cais e minha mulher no Rio de Janeiro já não suportam tantas historinhas de biblioteca. Um homem deve manter sua virilidade. Ainda mais um homem viril, como eu. Confesso, peco sozinho, em segredo.
Mas esta não é conversa digna de cartas. Tuas crianças ainda serão minhas, Catarina. E mesmo não brotando de meu corpo, reconhecerei meu nariz pontiagudo e minha orelha torta.
Pequena Catarina, deixaste minha manhã leve com teus devaneios. A vida é tão simples quanto minhas camisas furadas, por certo e os medos sempre existirão. É a coragem que dignifica nossa ida para o mar. E por certo que pegarei na tua mão acreditando que tudo ficará bem. Os perigos são eminentes para tudo que abraçamos em vida. Deixar de viver também é jogada corajosa, aceitar a segurança de saber onde se pisa, enfim, somos jovens, merecemos mais. Jogar-se ao mar é aceitar o risco, mas acredito que não devemos temer duas almas tão retas. Saberemos cuidar um do outro, mesmo com os fantasmas que poderão surgir. Já conheci o mundo todo, tu sabes e nada aprendi sobre o amor. Não há lições aprendidas, nem coordenadas deste oceano incerto. Posso ensinar-lhe sobre o que aprendi sobre mim e que de certo, caberá em ti. Escreveremos nossos poemas e tu me ensinas tuas rendas e tu tens toda minha paciência, minha devoção, meus cuidados. Ensino-lhe tudo, Catarina. Traga tuas duas camisetas rasgadas. É tudo de que precisamos.
No momento final, Catarina, o coração sabe o que fazer. Os marinheiros do cais, teu maridos, teus filhos, tua terra, nada disso fará sentido se tua alma não fizer. O lugar de tua paz. É lá que se encontra teu destino. Pode ser neste velho navio, sujo, cheio de excrementos e água do mar. Levando tuas lindas madeixas para longe, dando-lhe os aromas mais saborosos de vida. Mas a vida e o amor também podem pousar sobre tua cama comprada e quitada, tua casa luxuosa, teu marido apaixonado, tuas crianças limpas, tua certeza de planos, teus mascates, enfim, onde repousar tua paz, lá estará tua certeza livre de medos.