20 agosto 2009

Cartas de um marinheiro IV...

Pequena Catarina,

Lat 05°46'24"S Long 35°11'W, essas são as coordenadas do meu espírito de hoje. Acabo de chegar a Natal, às margens do rio Potengi. Vejo passar por mim muitas cargas. É melão, manga, melancia, uva, mamão, enfim, o mundo aqui esta colorido. Não é a primeira vez que desembarco aqui, porém não me lembrava de como era lindo. A silhueta da cidade é longilínea e me enlouquece a possibilidade de caminhar por tanta beleza. Saindo daqui do bairro da Ribeira, vou caminhando pela Rua Chile, observando casinhas que parecem pintadas à mão. Os fios de energia elétrica se confundem a paisagem difusa de cores, concreto, antiguidade, placas de identificação, lixo e tal harmonia surge somente quando se olha para trás e se vê a unidade da composição. Fico aqui por mais alguns dias e vou contando-lhe minhas aventuras. Sabe, Catarina, a melancolia me fez visita e ouvi aquela música que nos leva para outros lugares. Aquele som encantado que nos aperta o peito e nos dá esperança. É o que nos mantêm vivos. Acreditar que há sempre muito mais por vir. Sinto-me demasiadamente jovem e quase invencível. E hoje, aqui em Natal, escrevendo-lhe neste banco de cimento, sentindo o sol queimando minha nuca e o vento beijando minhas costas, sinto-me areia deste chão, movimentando-se com o vento, enriquecendo as grandes dunas que se arrastam pela Via Costeira. Soube que me teces um tapete, Catarina. E o que faremos com tudo isso? Tuas crianças e teu marido hão de encostar os pés sobre minha alma, rindo-se de minha pequenez? Quero fugir e a prisão é meu próprio corpo. Posso fugir de ti, Catarina, mas não de mim. A liberdade do filho das estrelas é fulgaz e hoje sou do tamanho das minhas vontades e da nossa circunstância. Digo que fico em Natal.

MASNAVI