19 agosto 2009

Cartas de um marinheiro III...

Pequena Catarina,

Ainda me encontro na Vila Poti, às margens deste belo rio. Acordei mais cedo e fui a Pedra do Sal, banhar-me em águas salgadas que me lembram o gosto de tuas madeixas. Havia um barquinho à deriva e lembrei-me do quanto gostávamos de sentar à beira do mar, encostando nossos pés na areia branca, observando a lua e as estrelas e contando os segredos que não dizíamos nem para nós mesmo em voz alta. Ali, ecoando fantasmas, pareciam sair de nossos corpos e lançar-se no mar. Nós riamos das figuras feias imaginárias que criávamos como sendo nossos maiores medos. Tu dizias que eles teriam de ter orelhas feita as minhas, amassadas e eu dizia que seriam desengonçados como tuas letras tortas.
E tu estavas aqui, Catarina. Olhei para ti, não soube identificar as suas vestes, mas o cheiro de teus cabelos era o mesmo, assim como teu olhar rabiscado. Levantei-me em prontidão e disse 'Venha, Catarina, vamos nos banhar!'. E corri mais rápido que o próprio vento, caindo na água e me atrapalhando todo. Olhei para todos os lados e tu já não estavas mais. Então abaixei a cabeça por debaixo das ondas e fiquei boiando, de olhos fechados, com o sol queimando-me a cabeça. Olhei para a linha que divide as ondas de todo resto de mar e imaginei que tu estivesses ali, em alguma ilha por de trás de tudo aquilo.
Soube que tuas rendas deram-lhe frutos e tu esta expandindo teus mascates. Fiquei muito feliz. Tua carta era um tanto confusa. Ainda não entendi teus planos secretos, mas se são secretos devem permanecer assim. As palavras têm força e é melhor que tu dê seus passos sem o peso das palavras. Quero-te livre. Tu sabes.
Não entendi muito bem se não queria receber mais minhas cartas, mas acredito que se forem assim, apenas contando-lhe minha vida, não lhe afetem de tal maneira a tirar-lhe a paz. Quero dar-lhe histórias felizes, então, meu refúgio ainda são estas cartas.
Hoje deitado na cama, tinha em minhas mãos um livro de histórias de Gilberto Freyre, Dona Sinhá e o filho padre. Gostaria de lê-lo para ti. Foi assim que parti para Pernambuco e deixei meu coração por lá. Foi este livro que me levou a primeira vez para Recife. Talvez, algum dia, nos possamos nos deitar no chão de um lugar qualquer e eu possa lê-lo para ti. Tu terias meu carinho em tuas madeixas. Deixo-te com tuas rendas e escrevo-lhe quando chegar a Natal.