18 agosto 2009

Carta de um marinheiro II...


Amada Catarina,
Encostei-me nesta parede de pedras, próximo ao porto do Rio Parnaíba e abri carinhosamente sua carta. Recebi aqui mesmo, no Piauí e guardei-a no bolso, junto ao bilhete de letras igualmente desengonçadas. Sabe, Catarina, eu quis esperar um momento, como se eu pudesse fazer o tempo parar para apreciar delicadamente cada palavra que foi dirigida a mim. Não faço outra coisa senão pensar nestas tuas palavras que chegam aos poucos, como gotinhas de chuva em terreno árido, a espera.
E então, brevemente tu revelaste tua vontade. Eram poucas as palavras que se embaralharam em minha frente, formando linhas contorcidas e acelerando meu coração. Tu sabes que sou emotivo. Carregou meu peito de lágrimas e tive de esconder, pois é assim que o esperam de mim. O tom de despedida confundia-se as palavras que me impediam de ir e saibas, ficando ou indo, igualmente sofro. Nada muda no meu coração sonhador. Sou incansável. Acredito que sou quase louco, talvez o seja. E quando fecho aos olhos te vejo em tua casa, com tuas praias, com teus amigos, com teus afagos. Realmente me dói. Não sou eu quem está ai para segurar-lhe a mão em dias de sol e em dias de chuva. Não sou eu quem vai enxugar-lhe as lágrimas, quando tiveres seus medos noturnos e sonhos esquisitos. Não sou eu quem vai encarar-lhe os olhos e revelar teus desenhos, mas acredite apenas em uma coisa... Eu quero e quis desde sempre. Não consigo revelar-te os mistérios deste encontro. Não os sei.
Se tua paz encontra-se no Maranhão, com tuas rendas e bordados, com tuas músicas próprias e manhãs de praia, quero que a tenha. Prefiro tu a mim.
E não me digas que escreverás menos para mim. Não escreva. É melhor para ti. Assim tu segues tua vida digna, com manhãs ensolaradas em que tu verás tantos outros cachorros, com crianças correndo e o sol tocando seu rosto, um carinho de Deus. Acredite, Catarina, em meus sonhos também acarinho sua face, a minha maneira divina. E o faço mesmo diante das tempestades que assolam esta navegação.
Com os ombros rasgando nesta parede de pedras, penso que a vida é realmente palpável e o sonho... O sonho fica aos sonhadores. Pegue então tua vida pelas mãos e desejo-lhe fertilidade com tuas rendas, com tuas vontades. Algum dia a vida há de brotar novamente da pedra, do mar. Não sei. Hoje meu tom é desesperança, perdoe-me.
Volto para minha casa, no Rio de Janeiro ao final do ano, queria levar-te comigo. Tu poderias fazer tuas rendas na praia e eu lhe ajudaria com tudo. Teria meus filhos.
Catarina, não abandone tuas rendas. São por demais lindas. Espero que a protejam do calor de tua pele clara, que lhe dêem respeito e afeto, que lhe façam sonhar, que lhe dêem a vida embriagada em vinho. Podes ir.
Apenas não me peça para ficar longe de minha tristeza. Peça-me todo resto.

- MASNAVI