30 agosto 2009

Carta de Catarina ao marinheiro (VIII)

Querido marinheiro,

Não sabes fingir sequer uma sensação, quanto mais um sentimento. Tuas rugas de sol traem teus pensamentos e a tua atenção se volta à espera. Já que está em alto mar, sente por mim a brisa salgada tocando teus lábios ressecados. Admiro tua coragem de enfrentar os monstros do mar e os dragões da noite. Mas, para as coisas de coração, não passas de um menino. Tu és do mar. Tu és sonhador. Nós, mulheres que acenamos do porto, temos o coração enterrado como raiz na terra, nos deixando ser sugadas para alimentar uma vida simples. Um marido e filhos famintos, todos carentes. Também temos sonhos. Eles tão doces que, imagino, nunca se realizarão. Entre um almoço e uma janta, me pego escrevendo num caderninho tudo o que ainda quero conhecer desse mundo grande e bonito. Quando acabo, coloco cuidadosamente embaixo da bíblia, imaginando ser guardado por Deus, a quem peço: nunca deixe ninguém ler essas palavras tão sonhadoras. Meu marido, minha prima, minha vizinha, ninguém entenderia. Meus filhos ainda não entendem de sonhos de adulto, mas eles poderiam rasgar minhas páginas preenchidas de uma vida que ainda não vivi. Tenho medo que o caderninho se perca porque, assim, seria mais fácil esquecer dos meus sonhos. E não quero perdê-los. O que quero te falar, como se falasse a mim mesma, pois não sei se essa carta chegará a ti, é que essa vida é muito complicada. Mas eu sinto que, ao contrário do que parece aos olhos dessa gente covarde da vila, que tem a maldade do julgamento divino, simples seria viver contigo. Enquanto na terra há abismos, os obstáculos do mar que imagino seriam marolas de espuma branca. Eu acordaria contigo, sem saber o que comer, mas, como já aconteceu antes da formação das cidades, antes do medo e da vergonha, ainda no paraíso, o alimento cairia em nossas mãos e eu o levaria à tua boca e tu à minha como sinal de cuidado e confiança. Para que nunca perdêssemos esses sentimentos, pois teríamos apenas um ao outro. Quisera tanto que a vida que tenho hoje me bastasse. Que o sol na moleira, as mãos do meu marido e a dependência das crianças me preenchessem. Seria tão fácil. Mas é tão diferente de mim. Eu sonho. E eu, sim, sei fingir. Porque acho que no dia que alguém souber desses sonhos, eu terei perdido meu refúgio e terei que concretizá-los ou deixá-los de mão, mas nunca mais poderia viver nos dois mundos. Sei que hoje não vivo em nenhum por completo. Não são boba ao ponto de enganar-me. Mas me deixa segura saber que, na falta de um, eu tenho um pouco do outro. Um pedacinho só já me basta, pelo menos por um domingo silencioso. Às vezes acho que te digo besteiras. Tu, um homem do mar, que já enfrentou de tudo, deves rir das minhas bobagens. Há momentos em que penso como inventei toda a complicação. Na escola, aprendi que 2 +2 eram 4. Um dia, fui levar a roupa à casa de um senhor, de cabelos e roupas brancas, e ele tinha um livro nas mãos. Parecia não me dar qualquer atenção, apenas àquele pequeno livro de capa preta. Era bonito. Tinha palavras em dourado. Lembro que, talvez por ser muito nova, eu me perguntei como ele poderia dar mais atenção a letras mortas se ele tinha alguém para conversar. Naquela época, eu entendia tão pouco das coisas e falava demais. Ele leu meus pensamentos ou meu olhar indagador e me disse “pequena, viver é muito simples. Você não fica feliz quando o dia amanhece de sol? Mas você tem que entender que não é o sol que te deixa feliz. É o que há dentro de ti. E, depois que entendes isso, é mais fácil aceitar que 2 + 2 não são 4, como te ensinaram um dia, mas 5. Essas pessoas sim, complicaram a tua vida”. No momento que ele terminou, eu comecei a chorar. Levei a ponta do avental para limpar os olhos e ele disse que eu deixasse, porque lavaria minha alma. E eu, como lavadeira, deveria começar lavando as almas, antes do corpo e, por último, é que viriam as roupas. Não sei se sabes o gosto das lágrimas, marinheiro. Pois és forte como as rochas de que tu desvias a proa. Mas digo-te: é salgada; não como o mar, porque também é doce. Depois desse dia, lavei as roupas daquele homem sem receber um vintém, por pura gratidão. E também por gratidão, ele me ensinou o pouco que sei das palavras. Certa vez, pouco antes de ir embora, ele me pediu para que descrevesse cada sentimento meu, porque só assim saberia ser compreendida quando precisasse escrever cartas. Ele nunca me mandou nenhuma carta. E eu vi que não poderia ser compreendida por essa gente de olhar vazio. Mas eu escrevi muitas cartas. Para a minha mãe, minhas tias de longe. Nelas, sempre falo de coisas tão bestas: as crianças vão bem, a casa precisa de uma reforma, mas só terei dinheiro no final do ano, a saúde de meu marido é frágil. Só contigo me senti tentada e tomei coragem para descrever meus sentimentos a alguém além daquele que me ensinou. Porque sinto que a simplicidade que eu tanto sonhei anda de mãos dadas contigo. Mesmo com tantas histórias e aventuras, a tranquilidade aporta em ti. Penso que só o amor pode fazer da vida algo simples. Foi quando decidi que também vou viver ao mar. Gostaria que soubesses. Mas não vou para um barco limpar convés e cocô de gaivotas. Foi por isso que não fui contigo, da última vez em que estivemos sob o mesmo sol. Quero ser marinheira também. Penso que tu me ensinarias, se eu assim pedisse. Mas quero um mérito na vida: me deixar levar pelos meus próprios pés. Até que, depois, eu possa andar levitando nas ondas. Tu és um homem vivido desde novo, e talvez viveste isso sem nem perceber. Porque também és impulsivo e corajoso. Peço que recordes da tua história para que encontres paciência para eu viver a minha do meu jeito. Porque eu aprendi que preciso de um passo de cada vez. As vogais vêm antes das consoantes. E só depois as palavras e, mais na frente, uma frase. Pequena ou longa, não importa. O que interessa é que tenha um grande significado. Acho que, com a cabeça no mar, acabo por falar em besteiras novamente. Queria muito estar contigo no teu aniversário. Sei que não poderás vir. Mas, amanhã, arrumarei a mesa e farei um bolo de laranja para ti. Acenderei uma vela, não no meio, porque a minha forma tem um furo e não quero pedir a da vizinha, pois não quero dar nenhum pedaço do bolo a ninguém. Ele é teu. Talvez eu coma um pouquinho, se estiver muito bonito. Mas a maior parte, deixarei para ti. Um dia te entregarei o presente que estou tecendo. Era para estar pronto no teu aniversário, mas parei porque tive que trabalhar e sustentar a casa. Ficarei feliz se você fingir que recebeu no dia. Está ficando tarde, querido. A noite chega e tenho que ir terminar os afazeres de que fugi para estar um pouco contigo.
Que a brisa quente te leve um beijo meu. Rezarei para que amanhã faça sol.
Catarina