28 agosto 2009

Carta de Catarina ao marinheiro (IV)

Fico feliz que estás em terra firme e tens nos pés a mesma poeira que os meus. Tenho medo do mar, mas penso que, se me chamares, navegarei além céu contigo. E dançaremos a bombordo e estibordo (vês? Já estou aprendendo a fala dos marinheiros). O tapete que teço é belo e etéreo como a nossa história. Teço-o em minha cabeça, pois ainda não encontrei os fios mais fortes e brilhosos como o teu nariz pontiagudo e teu sorriso de rei merecem. Gostaria de te encontrar hoje, no finalzinho da tarde, para ver o pôr-do-sol dos teus olhos. Mas tenho muitos afazeres. O jantar do marido e das crianças, que chegarão sujas a me abraçar. Sabe, querido, por vezes tenho pena dessas mãos pequeninas que abraçam carnes secas, sem o calor de mãe. Ou de mulher. Meu marido deseja-me. Mas faço como vi no livro que peguei na biblioteca municipal: conto-lhe histórias inventadas na hora. É certo que me atrapalho. Ele anda intrigado, mas é simples por demais para enxergar além da minha íris. Penso que ele riria de mim se conhecesse todos os segredos da minha alma. Esses, só divido contigo. Mas hoje sinto que isso é pouco. Queria dividir mais coisas. Costurar tuas camisas furadas, pois conheço a fúria do sol sobre o algodão. Por o teu jantar na mesinha, bem perto de mim. Dar-te um beijo de boa noite, virar para o outro lado com um sorriso nos lábios, pensando no que faria para o teu café do outro dia. Mais um em que passaria contigo. Também tenho desejo de descobertas. Por vezes, imagino-me colocando toda a minha coragem e duas camisas surradas numa mala e saindo contigo sobre o sal líquido e quente. Sem medo de monstros, que dizem existir no fundo do mar. Tenho passado muito tempo no cais e ouço conversas tolas de marinheiro. Mas eles podem ter razão. Não conheço nada desse mundo. Terias que me ensinar a velejar. A medida certa da firmeza no leme. É certo que precisarias de paciência. Mas, quando a noite chegasse, meus afagos te recompensariam. Não nasceste para essas terras salgadas, marinheiro. Digo que irei contigo. Se assim quiseres.

Sua Catarina