04 agosto 2009

όνειρο με Γοργών

Γοργών

Acordei em dia comum. Ordinário e zumbi.
Tocou o mesmo despertador, de mesma hora-minuto.
Abra-te olhos e pernas, de mesmas imagens.
Passou o dia-mecânico.
Tac, toc, tac, toc.

Sentei-me num café. Já era noite.
Despertei-me do sono profundo e abri os olhos-alma.
Encostei a perna na perna. Dizendo intimidades muito mais profundas do que corpos-juntos. E não fechei os olhos nunca mais. Devoto de olhos persas, nariz grego e madeixas luminosas. Apenas devoto. Hipnotizado pelos olhos de Górgona e a sua fala de serpentes.
Levantei-me de um café. Já era dia.
Transformado em pedra já não podia caminhar.

Acordei em dia incomum.
Eu era um ser vivo afinal. Não havia hora-minuto. Sorte minha ter aberto os olhos e respirado.
Recebo-te para dentro de mim-livros. E declamo poesias em silenciosos movimentos do olhar enquanto percebo seu toque suave em meus braços. E tinha tanta gente. Tantas sombras sem rostos. Segundos separaram a matéria da ausência. E enquanto ausência, não me conformei como achei que iria. Sentei e escrevi exatas 25 poesias com 237.500 letras. E me perguntaste como descrevi este dia. Não descrevi. Transformado em pedra, já não podia caminhar.

Não consigo aceitar que dentro de mim seja ordinário e zumbi.
Tudo já mudou. Tudo sempre muda.

“Enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era” – C.L.

Tac, toc, tac, toc. - MASNAVI

“Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última. E cada filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido. Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas. Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima (...)” – CHICO BUARQUE