30 agosto 2009

Carta de Catarina ao marinheiro (VIII)

Querido marinheiro,

Não sabes fingir sequer uma sensação, quanto mais um sentimento. Tuas rugas de sol traem teus pensamentos e a tua atenção se volta à espera. Já que está em alto mar, sente por mim a brisa salgada tocando teus lábios ressecados. Admiro tua coragem de enfrentar os monstros do mar e os dragões da noite. Mas, para as coisas de coração, não passas de um menino. Tu és do mar. Tu és sonhador. Nós, mulheres que acenamos do porto, temos o coração enterrado como raiz na terra, nos deixando ser sugadas para alimentar uma vida simples. Um marido e filhos famintos, todos carentes. Também temos sonhos. Eles tão doces que, imagino, nunca se realizarão. Entre um almoço e uma janta, me pego escrevendo num caderninho tudo o que ainda quero conhecer desse mundo grande e bonito. Quando acabo, coloco cuidadosamente embaixo da bíblia, imaginando ser guardado por Deus, a quem peço: nunca deixe ninguém ler essas palavras tão sonhadoras. Meu marido, minha prima, minha vizinha, ninguém entenderia. Meus filhos ainda não entendem de sonhos de adulto, mas eles poderiam rasgar minhas páginas preenchidas de uma vida que ainda não vivi. Tenho medo que o caderninho se perca porque, assim, seria mais fácil esquecer dos meus sonhos. E não quero perdê-los. O que quero te falar, como se falasse a mim mesma, pois não sei se essa carta chegará a ti, é que essa vida é muito complicada. Mas eu sinto que, ao contrário do que parece aos olhos dessa gente covarde da vila, que tem a maldade do julgamento divino, simples seria viver contigo. Enquanto na terra há abismos, os obstáculos do mar que imagino seriam marolas de espuma branca. Eu acordaria contigo, sem saber o que comer, mas, como já aconteceu antes da formação das cidades, antes do medo e da vergonha, ainda no paraíso, o alimento cairia em nossas mãos e eu o levaria à tua boca e tu à minha como sinal de cuidado e confiança. Para que nunca perdêssemos esses sentimentos, pois teríamos apenas um ao outro. Quisera tanto que a vida que tenho hoje me bastasse. Que o sol na moleira, as mãos do meu marido e a dependência das crianças me preenchessem. Seria tão fácil. Mas é tão diferente de mim. Eu sonho. E eu, sim, sei fingir. Porque acho que no dia que alguém souber desses sonhos, eu terei perdido meu refúgio e terei que concretizá-los ou deixá-los de mão, mas nunca mais poderia viver nos dois mundos. Sei que hoje não vivo em nenhum por completo. Não são boba ao ponto de enganar-me. Mas me deixa segura saber que, na falta de um, eu tenho um pouco do outro. Um pedacinho só já me basta, pelo menos por um domingo silencioso. Às vezes acho que te digo besteiras. Tu, um homem do mar, que já enfrentou de tudo, deves rir das minhas bobagens. Há momentos em que penso como inventei toda a complicação. Na escola, aprendi que 2 +2 eram 4. Um dia, fui levar a roupa à casa de um senhor, de cabelos e roupas brancas, e ele tinha um livro nas mãos. Parecia não me dar qualquer atenção, apenas àquele pequeno livro de capa preta. Era bonito. Tinha palavras em dourado. Lembro que, talvez por ser muito nova, eu me perguntei como ele poderia dar mais atenção a letras mortas se ele tinha alguém para conversar. Naquela época, eu entendia tão pouco das coisas e falava demais. Ele leu meus pensamentos ou meu olhar indagador e me disse “pequena, viver é muito simples. Você não fica feliz quando o dia amanhece de sol? Mas você tem que entender que não é o sol que te deixa feliz. É o que há dentro de ti. E, depois que entendes isso, é mais fácil aceitar que 2 + 2 não são 4, como te ensinaram um dia, mas 5. Essas pessoas sim, complicaram a tua vida”. No momento que ele terminou, eu comecei a chorar. Levei a ponta do avental para limpar os olhos e ele disse que eu deixasse, porque lavaria minha alma. E eu, como lavadeira, deveria começar lavando as almas, antes do corpo e, por último, é que viriam as roupas. Não sei se sabes o gosto das lágrimas, marinheiro. Pois és forte como as rochas de que tu desvias a proa. Mas digo-te: é salgada; não como o mar, porque também é doce. Depois desse dia, lavei as roupas daquele homem sem receber um vintém, por pura gratidão. E também por gratidão, ele me ensinou o pouco que sei das palavras. Certa vez, pouco antes de ir embora, ele me pediu para que descrevesse cada sentimento meu, porque só assim saberia ser compreendida quando precisasse escrever cartas. Ele nunca me mandou nenhuma carta. E eu vi que não poderia ser compreendida por essa gente de olhar vazio. Mas eu escrevi muitas cartas. Para a minha mãe, minhas tias de longe. Nelas, sempre falo de coisas tão bestas: as crianças vão bem, a casa precisa de uma reforma, mas só terei dinheiro no final do ano, a saúde de meu marido é frágil. Só contigo me senti tentada e tomei coragem para descrever meus sentimentos a alguém além daquele que me ensinou. Porque sinto que a simplicidade que eu tanto sonhei anda de mãos dadas contigo. Mesmo com tantas histórias e aventuras, a tranquilidade aporta em ti. Penso que só o amor pode fazer da vida algo simples. Foi quando decidi que também vou viver ao mar. Gostaria que soubesses. Mas não vou para um barco limpar convés e cocô de gaivotas. Foi por isso que não fui contigo, da última vez em que estivemos sob o mesmo sol. Quero ser marinheira também. Penso que tu me ensinarias, se eu assim pedisse. Mas quero um mérito na vida: me deixar levar pelos meus próprios pés. Até que, depois, eu possa andar levitando nas ondas. Tu és um homem vivido desde novo, e talvez viveste isso sem nem perceber. Porque também és impulsivo e corajoso. Peço que recordes da tua história para que encontres paciência para eu viver a minha do meu jeito. Porque eu aprendi que preciso de um passo de cada vez. As vogais vêm antes das consoantes. E só depois as palavras e, mais na frente, uma frase. Pequena ou longa, não importa. O que interessa é que tenha um grande significado. Acho que, com a cabeça no mar, acabo por falar em besteiras novamente. Queria muito estar contigo no teu aniversário. Sei que não poderás vir. Mas, amanhã, arrumarei a mesa e farei um bolo de laranja para ti. Acenderei uma vela, não no meio, porque a minha forma tem um furo e não quero pedir a da vizinha, pois não quero dar nenhum pedaço do bolo a ninguém. Ele é teu. Talvez eu coma um pouquinho, se estiver muito bonito. Mas a maior parte, deixarei para ti. Um dia te entregarei o presente que estou tecendo. Era para estar pronto no teu aniversário, mas parei porque tive que trabalhar e sustentar a casa. Ficarei feliz se você fingir que recebeu no dia. Está ficando tarde, querido. A noite chega e tenho que ir terminar os afazeres de que fugi para estar um pouco contigo.
Que a brisa quente te leve um beijo meu. Rezarei para que amanhã faça sol.
Catarina

29 agosto 2009

Carta de um marinheiro VIII

Catarina,

Prometi não desejar tuas cartas. Confesso, as desejo, mas sou bom fingidor. Amanhã vou nascer às 9h30 da manhã e espero nascer robusto, forte e sem dor. Não sou bom com aniversários, acho que por não estar acostumado a tanta atenção. O dia tocou meu rosto atrapalhado logo nos primeiros horários e eu me encontro à deriva de um dia tão festivo. Pareço sentir sono e ai não consigo prestar muito atenção a minha volta. Recolho-me aos meus sonhos.
Hoje deixo Natal e passarei minha nova idade em João Pessoa. Sinto deixá-la, mas assim me foi pedido. Minha tia veio visitar-me e partirá comigo até a próxima cidade. Ela foi necessária em minha infância e é alguém revestido de muito alegria. Pediu que eu abrisse um sorriso de dia especial e que vestisse o uniforme mais novo do meu baú. De prontidão, saimos a embelezar-me as faces e a alma.
Quando for meia noite e a ansiedade por meu nascimento iniciar, tu sabes onde vão meus pensamentos...

MASNAVI

28 agosto 2009

Eu nos sinto imensos...

"Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro.
E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera..."

Rilke - Cartas

"Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim
não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga
esta cortina atrás da qual há minha vida
a substância e a própria lei da minha vida
e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão
mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar –depois se cansou,se afrouxou
deixou-me cair e me quebrei.
Eras o que conheci de mais terno e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou –te fizeste abismo e naufraguei." (RILKE)

Carta de Catarina ao marinheiro (IV)

Fico feliz que estás em terra firme e tens nos pés a mesma poeira que os meus. Tenho medo do mar, mas penso que, se me chamares, navegarei além céu contigo. E dançaremos a bombordo e estibordo (vês? Já estou aprendendo a fala dos marinheiros). O tapete que teço é belo e etéreo como a nossa história. Teço-o em minha cabeça, pois ainda não encontrei os fios mais fortes e brilhosos como o teu nariz pontiagudo e teu sorriso de rei merecem. Gostaria de te encontrar hoje, no finalzinho da tarde, para ver o pôr-do-sol dos teus olhos. Mas tenho muitos afazeres. O jantar do marido e das crianças, que chegarão sujas a me abraçar. Sabe, querido, por vezes tenho pena dessas mãos pequeninas que abraçam carnes secas, sem o calor de mãe. Ou de mulher. Meu marido deseja-me. Mas faço como vi no livro que peguei na biblioteca municipal: conto-lhe histórias inventadas na hora. É certo que me atrapalho. Ele anda intrigado, mas é simples por demais para enxergar além da minha íris. Penso que ele riria de mim se conhecesse todos os segredos da minha alma. Esses, só divido contigo. Mas hoje sinto que isso é pouco. Queria dividir mais coisas. Costurar tuas camisas furadas, pois conheço a fúria do sol sobre o algodão. Por o teu jantar na mesinha, bem perto de mim. Dar-te um beijo de boa noite, virar para o outro lado com um sorriso nos lábios, pensando no que faria para o teu café do outro dia. Mais um em que passaria contigo. Também tenho desejo de descobertas. Por vezes, imagino-me colocando toda a minha coragem e duas camisas surradas numa mala e saindo contigo sobre o sal líquido e quente. Sem medo de monstros, que dizem existir no fundo do mar. Tenho passado muito tempo no cais e ouço conversas tolas de marinheiro. Mas eles podem ter razão. Não conheço nada desse mundo. Terias que me ensinar a velejar. A medida certa da firmeza no leme. É certo que precisarias de paciência. Mas, quando a noite chegasse, meus afagos te recompensariam. Não nasceste para essas terras salgadas, marinheiro. Digo que irei contigo. Se assim quiseres.

Sua Catarina

27 agosto 2009

Cubo cósmico

Cubo paralelo
de quadradinhos coloridos
Cai ao chão

Sua sorte é a cor de cada lado
Cada lado paralelo da sua cor
No chão, coloridos

Cubo ao chão

(Objeto indescritivel no vazio).

21 agosto 2009

Cartas de um marinheiro VII...

Ruas quentes, limpas, gente marrom. Como dissecando camadas, ando solitário pela via. De um lado, vejo areia, do outro mar. À minha frente há prédios e pequenas casas, ao longe vejo mais carros, mais semáforos, mais gente. Sinto o vento cortando o bafo quente nos meus lábios e quase consigo sentir o gosto da terra. E eu ia e ia. E mais negras macias, senhores europeus, gente parda e eu. Eu, um fluído de pequenas células e água. Eu quero ver o mar. Eu quero ver o mar.
E é Natal, mas poderia ser qualquer lugar no mundo. Com outras gentes de pele macia, outros senhores, outras crianças, outras gentes solitárias. Cada um com seu pequeno mundo e eu com minha imensidão de tudo que não há. Sento, coloco as mãos na nuca, abraçando-me a cabeça e olhando fixamente para baixo. Eu quero ver o mar.
Sempre ouço me chamarem no fundo. E nunca é nada. Não sou eu. Não é a mim que procuram e continuo caminhando. Hoje não procuro nada, porque de fato sei que não vou achar. Hoje sou presente. Apenas isso que vês: coqueiro, areia, cimento, pessoas e céu de nuvens cinza. Sou do tamanho do meu corpo, exato como um copo de água cheio. E vou andando aqui, acolá e o mundo fixo, como planta, me assiste ao desespero. É a paixão que tenho pela vida. E hoje prometo não citar teu nome.

MASNAVI

Carta de um marinheiro VI...

As ondas me chamam.
Como não tenho medo de muita coisa...
Vou.
Vou nadar com os fantasmas que riem de mim.
Vou cuspir em suas caras mórbidas e seus corpos imundos.
Vou defecar minhas vísceras e vou sair vivo.

20 agosto 2009

Cartas de um marinheiro V...

Catarina,

É a segunda carta que recebo de ti, mas nunca tive em minhas mãos tantas letrinhas desengonçadas. Tu, sempre tão breve, desta vez enredaste todos os pontos desta história. Tuas histórias são mágicas, Catarina. Digo-lhe que as palavras são como tuas rendas, entrelaçadas e entrecortadas meticulosamente para fazer-me arranjo pomposo em mesa abastada. Ficaríamos ali imóveis rindo da vida ordinária que se põem entre peixe, camarão, arroz e salada. Tu numa ponta, eu na outra, livres como só as passadeiras de mesa poderiam ser. Escarnando e escarrando no prato desta gente medíocre que não enxerga por debaixo da mesa. Vês, Catarina? O marinho se faz poeta para agraciar as tuas rendas e reverenciar tuas madeixas iluminadas.
Não sabia que tu vieste do Maranhão despencando até aqui na terra de teu marido. Confesso que tive de rir de tua maneira simplista de descrever-me tua vida. Saiba que também lavo pratos, o chão, as cuecas e as mocinhas do cais e minha mulher no Rio de Janeiro já não suportam tantas historinhas de biblioteca. Um homem deve manter sua virilidade. Ainda mais um homem viril, como eu. Confesso, peco sozinho, em segredo.
Mas esta não é conversa digna de cartas. Tuas crianças ainda serão minhas, Catarina. E mesmo não brotando de meu corpo, reconhecerei meu nariz pontiagudo e minha orelha torta.
Pequena Catarina, deixaste minha manhã leve com teus devaneios. A vida é tão simples quanto minhas camisas furadas, por certo e os medos sempre existirão. É a coragem que dignifica nossa ida para o mar. E por certo que pegarei na tua mão acreditando que tudo ficará bem. Os perigos são eminentes para tudo que abraçamos em vida. Deixar de viver também é jogada corajosa, aceitar a segurança de saber onde se pisa, enfim, somos jovens, merecemos mais. Jogar-se ao mar é aceitar o risco, mas acredito que não devemos temer duas almas tão retas. Saberemos cuidar um do outro, mesmo com os fantasmas que poderão surgir. Já conheci o mundo todo, tu sabes e nada aprendi sobre o amor. Não há lições aprendidas, nem coordenadas deste oceano incerto. Posso ensinar-lhe sobre o que aprendi sobre mim e que de certo, caberá em ti. Escreveremos nossos poemas e tu me ensinas tuas rendas e tu tens toda minha paciência, minha devoção, meus cuidados. Ensino-lhe tudo, Catarina. Traga tuas duas camisetas rasgadas. É tudo de que precisamos.
No momento final, Catarina, o coração sabe o que fazer. Os marinheiros do cais, teu maridos, teus filhos, tua terra, nada disso fará sentido se tua alma não fizer. O lugar de tua paz. É lá que se encontra teu destino. Pode ser neste velho navio, sujo, cheio de excrementos e água do mar. Levando tuas lindas madeixas para longe, dando-lhe os aromas mais saborosos de vida. Mas a vida e o amor também podem pousar sobre tua cama comprada e quitada, tua casa luxuosa, teu marido apaixonado, tuas crianças limpas, tua certeza de planos, teus mascates, enfim, onde repousar tua paz, lá estará tua certeza livre de medos.

- Engenheiros em quatro tempos -

No trânsito...

"Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
O teu olhar sempre distante sempre me engana
Eu entro sempre na tua dança de cigana

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver

Ontem à noite, eu conheci uma guria
Já era tarde, era quase dia.
Era o princípio num precipício.
Era o meu corpo que caía

Tu me encontrastes
De mãos vazias;
Eu te encontrei
Na contramão."

Cartas de um marinheiro IV...

Pequena Catarina,

Lat 05°46'24"S Long 35°11'W, essas são as coordenadas do meu espírito de hoje. Acabo de chegar a Natal, às margens do rio Potengi. Vejo passar por mim muitas cargas. É melão, manga, melancia, uva, mamão, enfim, o mundo aqui esta colorido. Não é a primeira vez que desembarco aqui, porém não me lembrava de como era lindo. A silhueta da cidade é longilínea e me enlouquece a possibilidade de caminhar por tanta beleza. Saindo daqui do bairro da Ribeira, vou caminhando pela Rua Chile, observando casinhas que parecem pintadas à mão. Os fios de energia elétrica se confundem a paisagem difusa de cores, concreto, antiguidade, placas de identificação, lixo e tal harmonia surge somente quando se olha para trás e se vê a unidade da composição. Fico aqui por mais alguns dias e vou contando-lhe minhas aventuras. Sabe, Catarina, a melancolia me fez visita e ouvi aquela música que nos leva para outros lugares. Aquele som encantado que nos aperta o peito e nos dá esperança. É o que nos mantêm vivos. Acreditar que há sempre muito mais por vir. Sinto-me demasiadamente jovem e quase invencível. E hoje, aqui em Natal, escrevendo-lhe neste banco de cimento, sentindo o sol queimando minha nuca e o vento beijando minhas costas, sinto-me areia deste chão, movimentando-se com o vento, enriquecendo as grandes dunas que se arrastam pela Via Costeira. Soube que me teces um tapete, Catarina. E o que faremos com tudo isso? Tuas crianças e teu marido hão de encostar os pés sobre minha alma, rindo-se de minha pequenez? Quero fugir e a prisão é meu próprio corpo. Posso fugir de ti, Catarina, mas não de mim. A liberdade do filho das estrelas é fulgaz e hoje sou do tamanho das minhas vontades e da nossa circunstância. Digo que fico em Natal.

MASNAVI

19 agosto 2009

Música da noite...

My mistakes were made for you - Last Shadow Puppets
(forget about the lirics... I heard it today like a thousand times!) 

Cartas de um marinheiro III...

Pequena Catarina,

Ainda me encontro na Vila Poti, às margens deste belo rio. Acordei mais cedo e fui a Pedra do Sal, banhar-me em águas salgadas que me lembram o gosto de tuas madeixas. Havia um barquinho à deriva e lembrei-me do quanto gostávamos de sentar à beira do mar, encostando nossos pés na areia branca, observando a lua e as estrelas e contando os segredos que não dizíamos nem para nós mesmo em voz alta. Ali, ecoando fantasmas, pareciam sair de nossos corpos e lançar-se no mar. Nós riamos das figuras feias imaginárias que criávamos como sendo nossos maiores medos. Tu dizias que eles teriam de ter orelhas feita as minhas, amassadas e eu dizia que seriam desengonçados como tuas letras tortas.
E tu estavas aqui, Catarina. Olhei para ti, não soube identificar as suas vestes, mas o cheiro de teus cabelos era o mesmo, assim como teu olhar rabiscado. Levantei-me em prontidão e disse 'Venha, Catarina, vamos nos banhar!'. E corri mais rápido que o próprio vento, caindo na água e me atrapalhando todo. Olhei para todos os lados e tu já não estavas mais. Então abaixei a cabeça por debaixo das ondas e fiquei boiando, de olhos fechados, com o sol queimando-me a cabeça. Olhei para a linha que divide as ondas de todo resto de mar e imaginei que tu estivesses ali, em alguma ilha por de trás de tudo aquilo.
Soube que tuas rendas deram-lhe frutos e tu esta expandindo teus mascates. Fiquei muito feliz. Tua carta era um tanto confusa. Ainda não entendi teus planos secretos, mas se são secretos devem permanecer assim. As palavras têm força e é melhor que tu dê seus passos sem o peso das palavras. Quero-te livre. Tu sabes.
Não entendi muito bem se não queria receber mais minhas cartas, mas acredito que se forem assim, apenas contando-lhe minha vida, não lhe afetem de tal maneira a tirar-lhe a paz. Quero dar-lhe histórias felizes, então, meu refúgio ainda são estas cartas.
Hoje deitado na cama, tinha em minhas mãos um livro de histórias de Gilberto Freyre, Dona Sinhá e o filho padre. Gostaria de lê-lo para ti. Foi assim que parti para Pernambuco e deixei meu coração por lá. Foi este livro que me levou a primeira vez para Recife. Talvez, algum dia, nos possamos nos deitar no chão de um lugar qualquer e eu possa lê-lo para ti. Tu terias meu carinho em tuas madeixas. Deixo-te com tuas rendas e escrevo-lhe quando chegar a Natal.

18 agosto 2009

Carta de um marinheiro II...


Amada Catarina,
Encostei-me nesta parede de pedras, próximo ao porto do Rio Parnaíba e abri carinhosamente sua carta. Recebi aqui mesmo, no Piauí e guardei-a no bolso, junto ao bilhete de letras igualmente desengonçadas. Sabe, Catarina, eu quis esperar um momento, como se eu pudesse fazer o tempo parar para apreciar delicadamente cada palavra que foi dirigida a mim. Não faço outra coisa senão pensar nestas tuas palavras que chegam aos poucos, como gotinhas de chuva em terreno árido, a espera.
E então, brevemente tu revelaste tua vontade. Eram poucas as palavras que se embaralharam em minha frente, formando linhas contorcidas e acelerando meu coração. Tu sabes que sou emotivo. Carregou meu peito de lágrimas e tive de esconder, pois é assim que o esperam de mim. O tom de despedida confundia-se as palavras que me impediam de ir e saibas, ficando ou indo, igualmente sofro. Nada muda no meu coração sonhador. Sou incansável. Acredito que sou quase louco, talvez o seja. E quando fecho aos olhos te vejo em tua casa, com tuas praias, com teus amigos, com teus afagos. Realmente me dói. Não sou eu quem está ai para segurar-lhe a mão em dias de sol e em dias de chuva. Não sou eu quem vai enxugar-lhe as lágrimas, quando tiveres seus medos noturnos e sonhos esquisitos. Não sou eu quem vai encarar-lhe os olhos e revelar teus desenhos, mas acredite apenas em uma coisa... Eu quero e quis desde sempre. Não consigo revelar-te os mistérios deste encontro. Não os sei.
Se tua paz encontra-se no Maranhão, com tuas rendas e bordados, com tuas músicas próprias e manhãs de praia, quero que a tenha. Prefiro tu a mim.
E não me digas que escreverás menos para mim. Não escreva. É melhor para ti. Assim tu segues tua vida digna, com manhãs ensolaradas em que tu verás tantos outros cachorros, com crianças correndo e o sol tocando seu rosto, um carinho de Deus. Acredite, Catarina, em meus sonhos também acarinho sua face, a minha maneira divina. E o faço mesmo diante das tempestades que assolam esta navegação.
Com os ombros rasgando nesta parede de pedras, penso que a vida é realmente palpável e o sonho... O sonho fica aos sonhadores. Pegue então tua vida pelas mãos e desejo-lhe fertilidade com tuas rendas, com tuas vontades. Algum dia a vida há de brotar novamente da pedra, do mar. Não sei. Hoje meu tom é desesperança, perdoe-me.
Volto para minha casa, no Rio de Janeiro ao final do ano, queria levar-te comigo. Tu poderias fazer tuas rendas na praia e eu lhe ajudaria com tudo. Teria meus filhos.
Catarina, não abandone tuas rendas. São por demais lindas. Espero que a protejam do calor de tua pele clara, que lhe dêem respeito e afeto, que lhe façam sonhar, que lhe dêem a vida embriagada em vinho. Podes ir.
Apenas não me peça para ficar longe de minha tristeza. Peça-me todo resto.

- MASNAVI

Sono profundo...

Drink up baby, look at the stars
I`ll kiss you again between the bars
where i`m seeing you there with your hands in the air
waiting to finally be caught
drink up one more time and I`ll make you mine
Keep you apart deep in my heart
Separate from the rest, where I like you best
And keep the things you forgot (Elliot Smith)

- As vezes penso que sinto enquanto todos dormem.
Penso que deveria dormir também.
Essa vida de Segredo é uma grande utopia.
(Guarde o Segredo, mas eu finjo dormir)
MASNAVI

Cartas de um marinheiro...

Amada Catarina,

Já fazem alguns dias desde que deixo para trás São José de Ribamar e tuas madeixas douradas de sol. Este navio, que segue para mais uma cidade, navega quase sem rumo, sem direção. Não paro de pensar naquela gruta celestial que testemunhou os encantos de meus olhos em tuas madeixas, Catarina.
Não era a primeira vez que me entorpeci com tua fragilidade e beleza, mas desta vez foi diferente. Desta vez, tu também olhou para mim. Tu sabes que não sou bom com as palavras, mas faço delas meu refúgio. Sinto-me sozinho com tanto mar e nunca me senti preso a nada, tu bem sabes. Sou espírito livre, desbravador. Parece que naveguei todos estes anos de vida para atracar no Maranhão e reconhecê-la como minha casa. E agora, Catarina, navego tendo para onde voltar.
Aqui em frente, além de mar, vejo teus olhos verdes, de rabiscos desencontrados, desenhados para encaixar em tua pele branca e teu nariz angulado que harmonizam com as madeixas que me faz tremer. Quero o sol do Maranhão e a areia branquinha que dorme absoluta diante de coqueiros gigantes. Só tu, Catarina, pode me trazer para a vida.
Hoje às margens do Rio Parnaíba, chegamos no Piauí e fomos recebidos por mocinhas no cais. Tu sabes, Catarina. Fui incapaz.
Tenho em mãos o teu bilhete de letrinhas desengonçadas e é tudo que guardo junto ao corpo.
A mim, cabe somente este bilhete.

(MASNAVI)

17 agosto 2009

À deriva III - Ausência e Saudade

Hoje sou o pó
esquecido na mobilia antiga
escondendo cantos de paredes sólidas
escurecendo fontes de luz natural
que não reflete no chão
por minha causa

Sou esconderijo de ratos,baratas, formigas
sujeira e chão
Um móvel vazio
que de tão inútil, foi esquecido

Ao pó sempre voltamos. - MASNAVI

O Segredo...

Aguarda-me.
Um dia, às cinco da tarde, te encontrarei na escada
e te levarei pela mão.

À deriva II...

E na entrada dos céus...

Lhe pergunto:
Revela-me o meu nome
O signo que como teia,
foi tecido para dar significado a minha existência.

Sem dúvida, tu dizes 'Masnavi, entre'.

E cada pedaço do meu vazio, aguarda teu líquido, desaguando em amor.
Assim segue a poesia.

"Dãnae,
como revelação, encontrei o céu
e toquei os dedos de Deus
transformando-me em líquido-alma
derramando-me pelos vazios de nossas angústias

Dãnae,
Suplico-te
Não separa-te de Zeus
Tu, que me fizeste imortal
Consagrou-me no silêncio de nossos altares-corpos
a chama viva da existência
a paz e a dormência da quase morte

Em outro lugar.
Longe das dimensões do expressivo
Sobrevoamos nosso imenso mar
e repousamos nossas cabeças na grama

De olhos fechados, Dãnae
Pude sentir que estavas ali
E somente ali era o meu lugar." - MASNAVI

À deriva

Hoje cheguei mais cedo,
abandonei os livros na grama
Olhei-me no espelho antes de vir
Sentei-me nesta escada fria
e ainda te espero
Devoto.

14 agosto 2009

Gatinho...


Vens de mansinho

De ron ron e de sorriso

Me abraçando pelas pernas

Me deixando sem juízo


Alegria de viver feliz

Leveza de permear a vida

Legitima a pureza

Inocenta tanta dor


Não sei imaginar meu mundo sem ti.


MASNAVI

13 agosto 2009

A poetisa pede silêncio

Hoje sou mina de ventos turvos
Riacho tranquilo, senil e soturno
Floresta em negro dia
de frio.

O silêncio cobre todos espaços vazios
de quem sou
e minha voz ecoa longe
as vontades da minha paixão.

A poetisa pede silêncio
Para morrer. - MASNAVI

10 agosto 2009

Poesia rasgada

Estou estilhaçada
silêncios saem da minha boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

Infância...



Havia um ritual pela manhã. Acordava as nove, penteava os cabelos, me agarrava ao livro Cavaleiro Inexistente e passava as primeiras horas do dia. Depois, alguma das muitas senhoras que cuidavam de mim, colocava comida no meu prato e eu aguardava pacientemente ela dar as costas para correr e jogar todos os legumes no lixo. Delicadamente eu colocava alguns papéis em cima, para que nunca fosse descoberto. Eu achava que se ninguém descobrisse, os nutrientes entrariam no meu sangue apenas por toda vida que eu sentia dentro daquele pequeno corpo magricela.

Após o almoço, começava uma correria, tinha que pegar o côco dos muitos cachorros que havia na minha casa. Era uma casa grande, em um bairro de periferia, cheio de crianças descalças na rua e violência urbana. Eu não ligava. Para mim era um castelo cheio de magia. Cada quarto era uma cidade e tínhamos nossa própria língua.
O quarto dos meus pais, por exemplo, era a cidade mais perigosa. Meu irmão mais novo e eu pulávamos o tapete imaginando ser uma ponte gigante e caiamos em cima da cama, pois lá era o navio que nos conduziria a um lugar seguro. Muitas vezes quebramos a cama e meu pai incansavelmente colocava um tijolo por debaixo do estrado.
Inventamos um dialeto daquela cidade chamado língua dos Omps. Tínhamos que falar todas as palavras com a boca aberta, sem mostrar os dentes. Nossos rostos pareciam rodelas gigantes e ficávamos tão esquisitos, que no início não conseguíamos parar de rir.

Após visitar muitas vezes aquela cidade, passamos a aceitar os diplomatas desbravadores que éramos. Então, mesmo com as caras redondas, ficávamos sérios e compenetrados.
Confesso que por ter mais idade, achava que meu irmão era bem bobo.
Tudo acabava quando meu pai chegava para nos levar ao colégio. Eu pegava meus livros e colocava meu uniforme. Gostava dele bem passado, limpo, como se fosse a uma festa todos os dias. Na verdade, não era festa, era apenas o colégio. Mas aquela não era qualquer manhã. Era a primeira vez que eu teria aula de literatura com um professor específico para tal matéria. Eu achava aquilo fascinante, aguardaria as entediantes aulas de gramática passar, para que delicadamente eu pudesse degustar qualquer saber lançado no ar, como se pudesse respirar melhor em um instante.

Chegava na sala de aula e me juntava ao fundo daquele quadrado imenso, cheio de cabeças menores na frente. Eu era grande e tinha certa vergonha de ficar na frente. Passado alguns minutos, entrava na sala uma senhora baixinha, de cabelos brancos, óculos fundos, parecendo prestes a desmontar. Era minha professora de gramática. Então, eu colocava aquele livro pesado sobre a mesa e me deitava atrás dele, fechava os olhos e declamava poesias, fábulas, contos.

Passou uma hora e quando olhei a lousa, havia mais de cinco quadros preenchidos. Aquilo era desesperador. O que tinha acontecido enquanto eu sonhava? Porque ela fazia isso com nossos dedos tão pequenos. Nem com todas as canetas do meu estojo eu conseguiria copiar todas as frases! Tratei por pegar do meu colega o caderno e copiá-lo incansavelmente. Parecia ter sido designado a um castigo. O castigo das mil palavras.
Quando de repente, lembro-me que deveria esperar imponentemente a nova professora de literatura.

Guardo meu livro pesado na mochila, em meio a um monte de papéis velhos, canetas sem tinta, chicletes de morango e amuletos quando entra na sala, uma mulher jovem, de cabelos de fogo e olhar marrom. Não consegui me mover. Meu corpo queimava e lembro-me de sentir calor daquele jeito apenas após os jogos de basquete e queimada. Como poderia me sentir assim, se não havia jogado nada? Depois disso, ao ouvi-la dizer seu nome, subiu-me um ar encorpado pelo peito, que parecia estufar os muitos vasos que deveriam existir em meu corpo. Minhas mãos suavam frias e úmidas.
Passei a segui-la com os olhos e ela tinha nas mãos o meu livro. O meu Cavaleiro Inexistente de Ítalo Calvino. E ela passou a ler livros durante as aulas enquanto as imagens me vinham na mente. Lembro-me do quanto sofri com Terra Sonâmbula de Mia Couto. Não conseguia dormir.

Após aquele dia tudo mudou. Não sei bem o quê, mas dentro de mim, este calor transformou-se em gosto pela vida. Um gosto que já habitava em mim e nas cidades que morávamos meu irmão e eu, nas línguas que falávamos e nas histórias que criávamos para viver melhor. Neste dia, o gosto era pela vida que eu descobri existir atrás das janelas daquele castelo, que enxerguei ser apenas uma casa, num bairro pobre. Percebi que as grades que me seguravam dos jacarés na cozinha eram grades para não deixar bandidos entrarem na casa. E apesar de tudo isso, havia um jeito de lidar com o mundo que poderia calar todas as angústias, acalantar todos os medos e dar-me impulso de co-existir com tudo isso ao mesmo tempo.

Eu tinha que agradecê-la e como não sabia bem como, passei então a escrever e dividir meus poemas durante as aulas, pois era a minha alma, ainda tão pequena, em letrinhas tão tortas, com tantos erros gramaticais, tantas insuficiências de palavras que ela calmamente dirigia e orquestrava outros caminhos de dizer as mesmas coisas.

Sentava-me nas escadas do colégio, todos os dias fatalmente às cinco horas da tarde aguardando que ela passasse ao longe e que por um segundo eu pudesse sentir o perfume de orvalho exalante de seus cabelos sempre molhados.

Ao cair da noite, no silêncio do quarto pequeno que eu dividia com meu irmão, logo após meu pai nos ler a Bíblia Ilustrada, eu achava engraçado como Jesus e todos os outros podiam ser tão parecidos. Meu pai fazia com que a gente rezasse o Pai Nosso, enquanto minha mãe nos fazia meditar ao som de Kitaro numa sala escura, debaixo de uma pirâmide, vocalizando mantras. Então, logo após o Pai Nosso, eu perguntava ao meu irmão o que seria o vosso reino e a vossa vontade e esse tal espírito santo. Meu irmão me dizia que eu não precisava saber, pois se meu pai mandou repetir era porque algo de bom tinha ali. Lembro-me que em uma destas leituras, eu comecei a rir, achando engraçado o nome de alguns personagens da Bíblia Ilustrada. Meu pai pediu que eu engolisse o riso e escutasse calado a leitura.

Tínhamos um terço branco que ficava encostado nas nossas camas e eu passei a acreditar que aquilo eram bolinhas mágicas que eu poderia falar com este tal de espírito santo.
Certo dia mudamos-nos para um bairro um pouco melhor. Tínhamos ao lado um cortiço cheio de gente estranha que brigava todas as noites. Foi quando tive a grande idéia de pegar aquele cordão cheio de bolinhas e uma cruzinha para fazer magia do lado de fora da casa. Ainda de pijama, abri a porta silenciosamente na madrugada e sentei-me na calçada com as bolinhas. Segurei na mão com força e entoando os mantras da minha mãe, pedi que os personagens da Bíblia Ilustrada e o tal espírito santo me ajudassem a trazer paz no coração daquela gente. De repente, o que na minha mente eram desenhos de homens barbudos e uma rua sem carros e cachorros dormindo, transformou-se em calor repentino no peito, passei a suar tanto que molhava meu pijama e minha visão já não enxergava.

Depois, o silêncio. O silêncio que cortava a rua escura. Os gritos, as vozes, silenciaram e não sei se as bolinhas tinham algum poder ou se minha cabeça pendurada na minha mão, concentrada tinha alguma força, não sei de nada, mas passei a não rir mais enquanto ouvia a Bíblia Ilustrada de meu pai.
Meus pais construíram um altar dentro do quarto, onde eu me ajoelhava após o almoço, pedindo perdão por ter jogado os legumes fora. E meus joelhos andavam calejados, pois eu repetia a molecagem todos os dias.
Era para lá também que eu arrastava todos os dias o meu colchonete pequeno, correndo do medo que eu tinha de dormir sozinho, no escuro. Meus sonhos me perturbavam muito.

Aos quinze anos, ganhei uma caixinha azul, já velhinha, com duas bolinhas que tinham pequenos sinos em seu interior. Eu sabia que aquela caixinha era algo que podia se comprar em qualquer esquina, mas recebi das mãos desta pessoa que por debaixo do suporte da caixinha, colocou uma medalhinha que viveu em seu pescoço por muitos anos. A senhora então me disse que havia ali o desenho da lua e do sol e que eu deveria chacoalhar a tal bolinha toda vez que sentisse saudade da minha Origem. O som, aos olhos fechados, me levaria para mais perto de mim. Ali eu não esqueceria mais da vida.

Voltando ao colégio, mantive-me devoto as aulas de literatura e os anos foram se passando. Meu corpo tornou-se mais rígido, meus poemas mais floridos, meu uniforme mais sujo e minha boca menos calada. Apenas uma coisa não mudava. Todos estes anos foram dias, de mesmas horas, consagrando o rito da escada. Sentava-me no piso avermelhado, frio, próximo a sala dos professores e aguardava ansioso o mesmo momento, todos os dias, como se minha memória não conseguisse fixar que aquele momento já havia passado igual por muitos anos.

Amei-a como uma deusa. Esqueci as tantas vezes que ajoelhei-me na frente daqueles santos sem nome, que se assemelhavam aos personagens da Bíblia Ilustrada, pedindo que me mostrassem o seu poder e me dessem a oportunidade de agradecê-la pela vida que me revelaste. E o que fizeste de mim, ou o que eu mesmo fiz com tanto sentimento, foi mais do que força de vida. Iluminaste todos os caminhos que vieram depois.

Às vezes me vejo sentado, esperando que algum dia, com outro rosto e outro nome, eu sinta todos os sentimentos do mundo imersos dentro de mim, novamente. Eu existirei por inteiro e revelarei o meu verdadeiro nome.
É então que chacoalho a bolinha próxima ao ouvido e sinto-me correndo neste campo imenso do meu corpo.
Já não guardo terços, santos e nem a Bíblia Ilustrada.
E isso me basta. - MASNAVI

09 agosto 2009

Ao meu pai

Há no mundo,
o vazio de microparticulas sólidas
Inexplicavelmente postadas no universo
Neste universo vasto de estrelas solitárias

O coração ocupa todo o espaço
quando ainda que de longe
lembremos de onde viemos

Quando nos reconhecemos no outro
É a sorte de se ver espelho-alma
O espelho íntegro, intacto

É a força que nos move na vida
Nós, filhos que não sabemos andar
E tu me dizes 'Dá-me a tua mão'. - MASNAVI

07 agosto 2009

Seu corpo vai...

Dãnae, não deixeis minha mão descolar da sua
Nem por um minuto hoje
E pra sempre.
Carregue Zeus em teus ventre
E não fecheis os olhos nunca mais.
Saiba que ainda sou a nuvem,
Que te encobre todos os dias.
Sou mais o calçado que te resguarda os pés.
Dãnae, meu amor por ti é devoto.
Suplico-te,
Não se esqueças de mim.
Nem de meu nome,
Vida. - MASNAVI

05 agosto 2009

Poesia Sufi

Tu, que conheces Jalal ud-Din.
Tu, o Um em tudo, diz quem sou.
Diz: 'eu sou Tu'.
Ou o outro:
'De mim não resta senão um nome, '
tudo o resto é Ele." - JALAL

Dãnae de Zeus

Dãnae, visita-me em sonhos esta noite
Suplico-te
Quero meu nome Zeus, vocalizando sons em tua boca
Sentir teus suspiros lânguidos em minha nuca
Tua voz 'Zeus, chova em mim o teu ouro'
Ver-me transformado em nuvens úmidas
Pingando em teus seios macios
e derramando-me em tuas coxas pálidas
que devoram meu falo rígido

Escuto teus gemidos tímidos
Teu gosto de orvalho em minha boca
E madeixas que jogam-se na terra, ao chão
Quase silenciamos a vida,
Nossas almas, semi-deuses no limbo

Delicadamente olho-te, minha vulva
E me vejo sem sexo, sem forma
Somos nuvens no ουρανός
Vento, no Kandahar
Dãnae, suplico-te
Dá-me teu sexo

Tu em Pyrgos,
Eu em Creta,
Vens, Dãnae
Com vestes floridas e arranjos de moça que és
Neste jardim de primavera, habita todas as belezas
O vinho e a luz
Não há o que fazer com tudo isso, se não estas aqui.
E, se estas não preciso mais de nada

Quando estivermos sentados no Olimpo
Tu e eu, não mais separados, vivos, enfim
As estrelas virão contemplar-nos
E nós lhes mostraremos os caminhos
a magia e o Segredo

Em êxtase, multicores nos pintará as faces
E tu, que me conheces
Diz quem sou
Sou tu, Dãnae

Somos um. - MASNAVI

04 agosto 2009

Dança Cigana

Tira-me o sexo
Beba-me o sangue
Decepa-me as vísceras
e revela-me o que sou

Com palavras-navalhas
Mostra-me caminhos
Passagens, pergaminhos, seus encantos
E revela-me quando sou

O céu é minha casa
As estrelas minha guia
A poesia minha prisão

Liberta-me.

όνειρο με Γοργών

Γοργών

Acordei em dia comum. Ordinário e zumbi.
Tocou o mesmo despertador, de mesma hora-minuto.
Abra-te olhos e pernas, de mesmas imagens.
Passou o dia-mecânico.
Tac, toc, tac, toc.

Sentei-me num café. Já era noite.
Despertei-me do sono profundo e abri os olhos-alma.
Encostei a perna na perna. Dizendo intimidades muito mais profundas do que corpos-juntos. E não fechei os olhos nunca mais. Devoto de olhos persas, nariz grego e madeixas luminosas. Apenas devoto. Hipnotizado pelos olhos de Górgona e a sua fala de serpentes.
Levantei-me de um café. Já era dia.
Transformado em pedra já não podia caminhar.

Acordei em dia incomum.
Eu era um ser vivo afinal. Não havia hora-minuto. Sorte minha ter aberto os olhos e respirado.
Recebo-te para dentro de mim-livros. E declamo poesias em silenciosos movimentos do olhar enquanto percebo seu toque suave em meus braços. E tinha tanta gente. Tantas sombras sem rostos. Segundos separaram a matéria da ausência. E enquanto ausência, não me conformei como achei que iria. Sentei e escrevi exatas 25 poesias com 237.500 letras. E me perguntaste como descrevi este dia. Não descrevi. Transformado em pedra, já não podia caminhar.

Não consigo aceitar que dentro de mim seja ordinário e zumbi.
Tudo já mudou. Tudo sempre muda.

“Enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era” – C.L.

Tac, toc, tac, toc. - MASNAVI

“Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última. E cada filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido. Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas. Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima (...)” – CHICO BUARQUE

E desde então...


Meeting Place...

The Colder the night gets
The further she strains
And he doesn`t like it
Being this way
And she tried so hard
To steer way
From the meeting place
But her heart had led her there
She clings to his consciousness
Wherever he lays
He struggles to sleep at night
And during the day
I`m sorry I met you darling
I`m sorry I met you'
As she turned into the night
All he has was the words
I'm sorry I met you darling
I'm sorry I left you(...)

The Last Shadow Puppets















03 agosto 2009

E desde então...

Eis, o limite:

As escolhas não são pacíficas, produzem angústia. A angústia existencial é inerente à constituição do ser humano. Sem ela, é como se o homem fosse esvaziado de sua alma. A loucura é da dimensão humana, porém compromete alguns aspectos da condição humana, pois impede a completude do exercício da liberdade. - MASNAVI

Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo, não salvo a mim. - MASNAVI

"A mediocridade pode ser uma forma de sobreviver. Muitas vezes, não há muito mais do que isso como opção no cotidiano. Não acho que o conhecimento salve ninguém, mas ele nos ensina outras formas de olhar o mundo. Nós pensamos enquanto as aranhas tecem suas teias." Pondé

Ao vento...


Inabitada. Só reconheço meu nome pelo amor.
Só sei que existo, porque o sinto.
De outra maneira, é como se não existisse a mim.

E vou me abandonando, assim.
Vou me deixando ser invadida.
Vou voando para longe, tão perto de mim.
Algum dia, ei de contemplar-me, sentada.
Eis meu único Segredo.


MASNAVI

A morte do amor


Quantas foram as manhãs claras que iluminaram as flores do meu jardim e sorriam como crianças à água e a mim. Desde muito pintei meu jardim com azul, me trazia calma e esperança. As coisas sagradas me ensinaram a amar as flores, todas elas, mesmo as que estavam murchando com o tempo. Eu as regava, as colhia, as amava. Poucas flores brotaram com tanto amor, muitas o vento me levou, outras não cresceram, mas havia uma especial, robusta, verde e vermelha como as flores deveriam ser.
Que mundo onírico foi este que versei? Pareciam trechos de uma alma vasta, de uma lágrima verdadeira. Sinto. O que mais sinto é não ver mais flores naquele campo, são poucas as sementes que nascem do absurdo e se vão para jamais serem vistas novamente. Quando desço as escadas sempre vejo uma cidade grande, aqui onde moro e não consigo me envolver com fumaça. Sobem, descem, desaparecem. Todos. Será que posso ser sincera comigo mesma para sentir dentro de mim a beleza da verdade única e sonhar sempre? Queria o sonho, todos têm um sonho. Minha amiga queria a chave que a levasse dentro de sua própria alma e conseguiu após tantos livros lidos navegar no horizonte de si mesma e encontrar nas fábulas sua pedra preciosa, sua verdade. Na verdade, ela queria ser dona de uma livraria, um acervo, daqueles grandes, que pudessem fechá-la dentro do lirismo da humanidade. Sonho modesto. O meu sonho é parecido, quis sempre brincar com a vida e com a alma dos outros, no sentido alegre da palavra brincar. Eu queria uma casa grande e me responsabilizar por várias crianças, transmitindo a filosofia e humanizando-as conforme o sistema as corrompia. Corre Léo! Não mexa no cabelo da Maria! Vamos cantar e rir das bolinhas que caem no teto quando as lançamos! São verdes e fofinhas, elas voam, voemos crianças! Voemos para dentro de nós mesmos onde não há a mentira, que as bolinhas nos leve ao altar. Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! Marcos venha cirandar! Larga esta bola menino, depois vamos todos jogar. Parece mesmo uma confusão mental que me disponho agora, mas é um sonho. Como eu disse no princípio tudo que gosto são inúmeras flores no meu jardim. A princípio não me baseio no toque sagrado de qualquer escritura, mas daquela que já me foi dada ao ganhar a vida e em meio a tantas florestas que viraram pó, tossi tanto que adoeci. Adoeci muito, mas felizmente não foi mortal. Aqui nesta cidade muitos ficaram doentes, morreram e não sabem. Passa um, dois. Nossa! Aquele está lotado! Eu quase morri, mas sempre que estou quase morrendo corro no campo e o vento trata de me devolver inocência. Não sei mais o que fazer, pretendia jogar ostras ao mar o dia todo para salvá-las, mas ninguém quis me ajudar. A praia é longe daqui e as ostras são muitas para pequenas mãos. São pequenas e se pensarmos que as mãos são pequenas, assim será também o objetivo. Meu objetivo começou grande, mas foi diminuindo com o tempo e eu precisava resgatá-lo daqui de dentro. Ultimamente não tenho tido espaço para objetivos, minha cabeça está se enchendo de fórmulas secretas que não sei usar. É Einstein, Borh, Newton. Parecem semi deuses da ciência e eu sou apenas uma futura violinista. Que voz foi esta? Só podia ser. Aquele é meu irmão dizendo que eu desafino. Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor, só privilegiados tem ouvido igual ao seu. Não sou Bach, mas me esforço. Só queria poder tocar o instrumento e tocar as pessoas, mostrar que eu as amo em uma melodia suave de Beethoven. Não, não, Schubert! Puxa, até Elis Regina saberia transmitir. Pouco importa isso agora, preciso regá-las. Gostaria tanto de um elogio agora, como aqueles que minha afilhada me faz. Você tá tão linda prima! Falta um dente nela, é de leite ainda. Ela é uma flor. Ainda temos algumas. Gosto muito de rosas, mas ultimamente as flores do campo me chamam mais atenção. Aprendi a ser selvagem com elas. Hum, são os pássaros! Adoro estes cantos! Um, dois. Nossa! Como aquele está lotado! Todos adoeceram esquálidos, mais um gênio explodiu no concreto dos aviões. Estava declarada a morte. Senti no coração mais que tudo, quando ouvi planando ao longe um avião que jogava... Acabou! Como? Não mais existe. Não mais existe. Não mais existe. Engraçado, Maria estava apaixonada e as paixões alegres fazem nascer o amor e o contentamento. Como diria Descartes o amor é uma emoção da alma causada pelo movimento dos espíritos vitais que a leva a unir-se voluntariamente aos objetos que lhe parecem convenientes. Tudo era conveniente na cidade. Menos o amor. É piegas demais para os bolsos. Deixe isso para as crianças que ainda não tiraram seus pés do sonhar. Falta afetividade no olhar. No olhar. O olhar. Fui arrastada para este caminho, pelas forças vitais. Elas me conduziam a lugares longínquos onde via uma beleza encantada e sagrada. Eu as consagrei sozinha, mistifiquei. Não quero desmistificar, quero ter fé nos meus sonhos. Falta afetividade no olhar.

MASNAVI

A autora amadureceu suas composições voltando-se para questões sociais buscando entender as frustrações humanas. Participou do concurso na França organizado pela RFI Radio França, com a colaboração de Luiz Fernando Veríssimo, obtendo grande sucesso. Tem muitas poesias escritas das quais, podem ser encontradas no livro MOSAICO, resultado da II Seletiva de Poesias de Barra Bonita. (Sérgio Grigoleto - Editor Clube Amigo das Letras)

A Música do Boi




Era uma estrada, muitas árvores, grandes cidades e outras tão pequenas. Era uma ponte, um rio, um céu, eram nuvens. Eram tantas coisas no caminho que nem me lembrava de quem eu era. Não poderia saber.
O caminhou se foi e ficou uma pequena cidade. Eu também fiquei. E então, era uma igreja, uma praça, crianças, dois sertanejos e um boi. Parecia uma cidade desenhada de maneira irregular, um céu levemente cinza, casinhas coloridas, madeira maturada e um riozinho que cortava ponta a ponta. Na praça havia várias tendas e pequenas lojinhas com artigos religiosos, afinal, ali também era uma cidade conhecida por romeiros. Inevitavelmente, me sentei ao pé do rio, encostei minhas costas na mureta e passei a observar os que passavam.
A pequena cidade contaminava a pele, como uma música que vinha de dentro das vísceras do boi. Era o boi.
Os sanatórios liberavam seus internos aos finais de semana para caminharem pelas ruas livremente, para quem sabe talvez visitar a igreja, encontrar parentes, comprar docinhos, promover cantorias e quem sabe sentir-se igual aos demais, porém a música do boi era fatal. Musicalidade visível aos olhos dos visitantes mais sensíveis. E de repente, reuniam-se os loucos debaixo da tenda homogeneizando rostos e cabelos, desenhando ritmos, cores, movimentos, dança, era a alma do boi e eu jamais testemunharia se não fosse o chamado da terra e do caminho.
A música ritmada dançava por entre os dedos e unhas, subia até os cotovelos agitados e pelas pernas desencontradas, formando assim sombras e contornos sinuosos, em transe. Eu também fiquei. Caminhei de volta a praça e sentei-me em frente aos sertanejos que lamuriavam músicas antigas. Formou-se uma roda de pessoas cantando enquanto uma senhora pedia contribuições. Havia crianças correndo, senhores sentados, a igreja em ruínas e o boi. Havia o boi. E havia o boi há mais de 100 anos. A tradição da pequena cidade era fotografar-se em cima do animal com a igreja ao fundo.
Concentrei-me novamente na cantoria, hipnotizada pelos meus ouvidos e meu coração. A música revivia histórias e costumes de outros tempos, lugares, sentimentos. Aproximou-se então, um senhor bem velhinho, cabelos crespos, feições marcadas de trabalho e terra, caminhando com certa dificuldade, segurando uma sacola de plástico, vestindo trapos rasgados, amarrados por um cinto e apoiando-se em uma bengala sem perder o porte varão. Ele calmamente se pôs em frente aos músicos, abraçou sua sacola ao peito e gemeu baixinho a letra daquela canção. Aos poucos, as lágrimas abraçavam-lhe as bochechas e jogavam-se em seus lábios e queixo. Abriam curvas, retas, traços descompassados até despencar das alturas, caindo, enfim, no chão. Era o boi. Era uma senhora falecida que havia tido sua foto em frente à igreja. Era um senhor cantando em gemidos, lamentando saudade, segurando seu saco de lembranças. E eram tantas coisas no caminho que me lembravam de que eu sou. Eu poderia saber.

Girassol

Este é o início. Assim, simples, seco.
Assim, como ele me veio. Navalha que corta a carne, cegamente. E parecia ter vindo a mim, como se fosse unicamente meu. Essas ondas, do meu corpo-mar que se chocam na encosta e se lançam na areia. Arrastam tudo para dentro de mim.
E acabam por arrastar a mim mesma.
Agora vejo-me girassol, amarela como quente-corpo, formando imensas chuvas de colisão com corpo-mar. Assim sou procela no imenso céu e ocupo todo espaço invisível de existir. E chovo em pétalas de planta viva que sou, acariciando cada matéria sólida que encosta na curva longilínea da minha forma, de minha alma-pena que dança no ar.
Mergulho no chão e crio raiz. Sei-me destino seguidor de sol. E não importa o tempo que faça do lado de fora, a seiva sabe para onde guiar meu tronco rígido, antes do nascer do sol, como se fora devoto de origem. Da minha origem viva.
Hoje sou.

MASNAVI

02 agosto 2009

Declamo...

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro! 

Quem goza o prazer de te escutar, 
quem vê, às vezes, teu doce sorriso. 
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia 
por minha carne, ó suave bem querida, 
e no transporte doce que a minha alma enleia 
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar. 
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo; 
E pálida e perdida e febril e sem ar, 
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.

SAFO

Safo - Fragmentos

O amor, esse ser invencível, doce e sublime
que desata os membros, de novo me socorre.
Ele agita meu espírito como a avalanche
sacode monte abaixo as encostas. Lutar
contra o amor é impossível, pois como uma
criança faz ao ver sua mãe,
vôo para ele.
Minha alma está dividida: algo a detém aqui,
mas algo diz a ela para no amor viver..
.

Palpitação

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém 
sabe quem é...

...Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua...

...Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu (...)

FERNANDO PESSOA


Grego

Vieste 
Vieste com rumo
Acalanto profundo
de esperar por viver

Recebo
um olho, uma boca e um nariz
Uma vida por-vir
E outra por ficar

Tu vais
Inconfesso, fico
Olho ao lado e eis que te vejo
Espero que também veja a mim. 

Fragilidade e beleza.

Espero.

MASNAVI


Convite

Ninguém fala para si mesmo em voz alta
Já que somos todos um
Falemos desse outro modo

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através 
da alma

Só a alma conhece o destino de tudo,
passo a passo

Vem, se te interessas,
Posso mostrar-te

MASNAVI