21 dezembro 2009

Fragmento da história sem começo

E se fossemos fortes, colossais, grandiosos. Nossas grandes cabeças seriam legitimas e nossas palavras seriam de pequenez. Não haveria confeitaria de nós mesmos para gulosos insaciáveis, tão famintos quanto nós por grandes olhos, de buracos imensos. O reflexo nos revelaria a imagem de alguém e finalmente saberíamos: ‘somos’. E estamos imersos na fonte, tentando nos banhar. Inutilmente, tomamos a água dos outros e dizemos compartilhar.
Diante de tanta maestria de pequenos caules e copas, não conseguimos nos enxergar. Imaginamos-nos ainda maiores. Uns maiores que os outros. (Masnavi)

18 dezembro 2009

Ramalhete de flores aos deuses II

Ramalhete de flores aos deuses

"A dor cessará por completo. E o amor, enfim, tomará seu lugar. As estrelas contentes incitarão a lua, rechonchuda, a brilhar. Estás aqui, meu amor. Entre céu e terra o nosso encontro se dá. Rosas e jasmins abrirão espaço para o deleite, para os abraços. O sexo e a alma, em devassa comunhão, poderão se perpetuar. A natureza nos reserva um templo e um tempo. Meu segredo, meu orgasmo, meu cordeiro. Te tomo e só assim me salvarás."
“Nunca vou esquecer de ti, nem por um segundo”. (Anônimo)

E se forem estrelas?
E se formos infinitos? (Masnavi)

Da semente, a água.
O fluído contínuo do Umbuzeiro, vigoroso, ancião.
Do pé a copa, cobria-me de folhas imensas, vigorosas. Fazia sombra a minha contemplação.
Gosto do vento que bate no meu rosto, enquanto o sol queima meus pés e sigo pensando na vida, no ir e vir do dia.
Entre gravetos, o pássaro abriga-se em amplo verde. Sinto seu peso leve na minha perna, atravessando-me como se eu fosse apenas parte da natureza. E sou.
E o silêncio reverbera em minha alma. Momento estático de ser.
Ao avesso, vislumbro as entranhas, as vísceras, os ossos e músculos. Não há espanto. É simples compreensão.
Sempre vi esta grande imagem, subserviente ao meu grande Deus. Eu sou. Eu sou. Eu sou.
E posso escolher entre o veneno e a dor.
Aprendendo a não ser deus.
Quem salvará minha alma? (Masnavi)

Rumi

Se formos dormir,
Seremos Seus sonolentos queridos.
E se viermos a despertar,
Estaremos em Suas mãos
Se viermos a chorar,
Seremos Sua nuvem cheia de lágrimas
E se viermos a rir,
Seremos Sua luz naquele instante.
Se viermos para a raiva e a batalha
Será a reflexão de Sua ira.
E se viermos para a paz e o perdão,
Será o reflexo do Seu amor.
Quem somos nós neste mundo complicado?

13 novembro 2009

Tratado das Paixões

Sabes-me ao doce-doce-amargo das romãs, o carmesim intenso nas faces das manhãs geladas, o vermelho que escorre, inevitável em rios de doçura nas mãos deixando a sua marca. Seremos o fruto e as mãos no Outono que desliza até à morte, seremos na pele e nas mãos o vermelho-vivo de ser tudo, o vermelho-forte das coisas que permanecem, doce-doce- amargas num mundo em que nada permanece nem nada é senão em pequenos lampejos de luz branca-forte, vermelha-viva, como as romãs.

04 novembro 2009

Lua Cheia

Desfaço-me em pétalas
para desabrochar minha flor
em mil grãos de sementes fecundas
no ar
graciosas, delicadas, doces
voando livres
sem cessar.
Desfaço me em pétalas
para duplicar-me
transceder-me
jorrar-me em ti, minha essência
flor.

MASNAVI

29 outubro 2009

Aos homens

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? O amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond

27 outubro 2009

Dia de Casamento em Trancoso




Quero me casar,
Na igrejinha feita de cuspe de baleia
Branquinha, pálida, sem nadinha
Só uma portinha para meu amor entrar
Dou-lhe uma anelzinho
e meu beijinho
para ser feliz pra sempre.
Fotos: MASNAVI

26 outubro 2009

Viver morrendo

Quando morre as estrelas
O que sobra lá no céu?
Sendo a vida, o presente
sobra nuvens, de papel

Que se faça luz
No mundo
Para que eu viva-eterna

Precisamos evoluir.
O resto é pó.

(E o tempo se perde)

MASNAVI

Convite

habita-me raio de sol
faça morada em minha alma
e repouse na sombra de meu ser
nada lhe faltará
se estiveres aqui, por inteira
preenchida
em cada matéria viva
que me faz morrer
somos maiores,
eu lhe digo
venha ser eterna
no meu corpo.

MASNAVI

23 outubro 2009

A fábula do poço sem fim

Então a terra separou-se em duas grandes claves harmônicas, desdenhando do desatino humano, rindo-se de sua pequenez e cantando para seus ouvidos surdos. Aquela música invadiu o sol, quebrando seus raios em pequenos pedaços que caiam por todo chão e saiam correndo sem sentido, destinados a existir, afinado a perfeição.
Saímos correndo de nossas portas trancadas e banhamos-nos com a chuva de raios. Uns arrastavam-se no chão, envolviam-se com uma dança única. Era o chamado da vida e nós, escutávamos ao longe um assoviar, que sabíamos ser o som das claves. Éramos poucos. Tão poucos que os olhares nos causavam medo. Incompreendidos e molestados.
E o vento nos batia no rosto, o chão pareciam rabiscos incessantes, ao longe não havia muito claro o caminho que nos levava.
Ouvi um grito e passei a procurá-lo no meio do vilarejo. O grito vinha de um poço fundo. Lá embaixo, algumas pessoas gritavam ‘Ei, ei, nos ajude’. Toda vila estava sendo banhada por aquela chuva de raios.
Amarrei meu pé em uma corda e me joguei naquele abismo sem fim. Não havia ar, água e comida, mas fiquei hipnotizado com os rostos fecundos dos habitantes do poço. Muitos, já adaptados a sua própria circunstância, não queriam outro mundo. Sentiam-se bem no conforto da escuridão, donos de suas próprias vontades. Então não achei prudente perguntar quem queria subir comigo. Eles poderiam se assustar com a claridade do sol.
Olhando rosto a rosto, comecei a suar e ter calafrios. Meu coração batia arrítmico. Queria pegar todas aquelas mãos e levar comigo, mas sozinho, era impossível.
Caminhei tateando a parede, tudo era muito diferente, haviam muitos vãos cheios de poeira e mofo. Havia inválidos e doentes apoiando-se na parede imunda. Sugeri amarrá-los na corda, para que pudessem ir comigo.
Nada. Ninguém se movia.
Tirei um girassol do bolso e finquei no chão úmido do poço. Um único raio atingia-o no centro de suas pétalas. Majestoso, foi se contorcendo em direção a luz, autônomo. Antes mesmo de haver o sol, havia a direção em sua alma. E um pouco de mim também se desmanchava no pó. Desprender-me, era doloroso.
Amarrei a corda no meu pé, e fui puxado de volta para fora do poço. Do lado de fora, os raios continuavam incessantes. Eram transparentes, imperceptíveis, era talvez uma força dentro de nós mesmos, que nos impulsionava a correr e a nos jogar em poços por todo caminho. Talvez fosse apenas uma promessa ou um sonho. A única certeza disso tudo é que a terra que nos fazia existir, separou-se em claves harmônicas que soavam no nosso espírito, a música incessante de sermos.

MASNAVI

21 outubro 2009

Eu-líquido

Noturna

deito-te calmamente sob meu corpo
inquieto e palpitante
seguro tuas costas
deixando-te levemente se entregar a cama
encosto minha vulva molhada
em teus pêlos
e abro tuas pernas
penetrando em ti
meus segredos
o meu prazer

olho nos teus olhos rabiscados
procurando tua alma
desejando tua vida
entrelaçada nos meus ossos e membros
seguro meus dedos nos teus
com força
para que sintas meu desejo
minha ânsia perdida em teus cabelos

sinto teu cheiro único
teu gosto florido
desaguando, escorrendo, deslizando

quero beber-te
tirar-te o sexo
engolir os teus seios na boca
e penetrar-lhe os ouvidos
com palavras de amor e desejo

ouço teus gemidos calmos
descompassados
acompanhando minha respiração no teu ouvido
minha voz na tua nuca

estou dentro de ti, meu amor
estou dentro de ti.

silencia.
o suor, a cama, o desejo.
a beleza frágil dos teus olhos
a sensualidade do teu corpo fecundo
teu sexo
tao antigo, tao presente nos teus desejos de ontem
tao maquina de si mesma
e eu só vejo uma deusade cabelos soltos
livre de tudo que foi

sendo.
sendo.
sendo.

MASNAVI

Fogueira de si

Quero te dar
O maior dos segredos
Ainda que nada,
Possa eu te dar.

Te dou meu caminho
Para sentires o vento`
Para que andorinha,
Possa voar.

Sob os olhos de Devél
Cai a noite de luz cigana
A alma cala
Quando ama

Nós,
Filhos das estrelas
Separados,
Divina chama

Negros olhos de cigana
Roda, roda, enquanto chama.
Meu teto é o céu
Teu corpo, minha morada.
Vida sem nada
O coração proclama!

Livre, livre.
Alma minha – fora de mim (tu és)
Reconhecendo
Minha única morada.

Venha comigo
Fogo cigano.
Para que eu possa morrer
sob um pequeno pinheiro,
como um Sinto.

MASNAVI

20 outubro 2009

Poesia de Jardim


No vento que ceifa o frondoso tronco
Reúno folhas que banham o céu
Bebo da seiva, suave sangue
Toda beleza, que reina no mel.

Tua tez, palidez telúrica
Reinam fatos que banham a alma
Bebo do amor, seu sangue sagrado
Toda beleza, que reina no fel.

Meu corpo, cálice infinito
Reluzem vontades e desejos divinos
Bebo da luz, armadura etérea
Toda certeza, que reina em mim.


MASNAVI

Consertando objetos - Infância

Caia da cama pequena, uma cama de solteiro, bem velhinha. Aos domingos, costumávamos passar o dia martelando estratos e procurando tijolos que pudessem dar sustentação a velha cama. Tal ofício se dirigia a mim, que sempre tive paciência e cuidado com a minha casa, além de aproveitar o tempo livre com meu pai. Depois passávamos a procurar outros objetos quebrados pela casa para consertá-los com nossos pregos e martelos. E assim, muitos sábados e domingos passavam e nós mal percebíamos. Ao final do dia, sentávamos no sofá, espalhados e arrastávamos um colchão pela sala para assistir ao jornal.
O passar dos anos me trouxe uma serenidade para lidar com coisas quebradas. Então, me interessei pela televisão em mau funcionamento, o rádio, o telefone. Colocava o objeto em cima da mesa, sentava-me na frente dele e às vezes passava muitos minutos apenas observando e criando hipóteses para seu não funcionamento. Muitas vezes, até imaginava-me o próprio objeto. Imaginava-me sem um cabo, sem um conversor, fio AV conectado em UHF. Quase sempre dava certo.
Comecei a achar-me predestinada aquilo mesmo, consertar coisas em mau funcionamento.
Foi então que comecei a me interessar pelos adultos.
Sempre que a empregada chegava em casa, eu colocava uma mesinha do lado da tábua de passar roupas e ficava com o meu ferro de plástico, passando os panos de chão. Nós conversávamos sobre o que ela pensava do futuro, sobre o que a incomodava no marido e bla, bla, ia-se a noite.
A casa, a mesinha, o ferro de plástico, a demanda exaustiva de meu pai, perpassam a memória como chuviscos em dia de calor.
Quando chego em casa, na minha casa, com meus martelos e pregos, tenho muito claro que não deve haver nada em mau funcionamento para sua chegada. Sei também, que muitas vezes, a casa vai parecer a velha casa, já conhecida, sem muita história para contar. E sempre haverá uma gavetinha escondida, necessária para a manutenção da casa.
As cotidianidades, só elas são garantia de completude. (MASNAVI)

19 outubro 2009

A metade de mim, em mim mesmo

Céu

O vento que bate no meu rosto
me cobre de lucidez
Suavemente escorrega por minhas
temporas
Vai,
volta

Minha fé me enche os olhos
Move as montanhas
do meu coração

Inferno

Não há vida neste ventre infértil
e podre
seus frutos,
placebos manipulados
são substâncias da essência
de raiva e desejo
O diabo, escarrando na
boca
alimenta de morte
a violência de
existir
de existir predestinado
ao sofrimento
e a dor

MASNAVI

“Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade (...) Não, eu não sou pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz – ao menos não mais infeliz que os outros”. FREUD

16 outubro 2009

A Menina Padre

- Há algo a ser dito. Vejo nos teus olhos. Vamos, comece logo. Não, espera. Antes, deixa eu me sentar.
Sentou-se de pernas cruzadas e pôs-se a roer o cantinho do polegar direito, passando rapidamente para o indicador.
- Mãe, eu quero ser padre.
- Freira, você quer dizer.
- Não quero ser freira. O que eu quero é ser padre.
- Lá vem você, menina com estas sandices. Uma menina não pode ser padre. Já pensou em uma papa?
Foi para o quintal pensando no dia em que celebraria uma missa no Vaticano. Colocaria sua tiara papal vermelha, encoberta por um manto branco, levantando as mãos a toda aquela gente que aguardaria qualquer palavra sua.

Fazia um dia ensolarado no Vaticano. Milhares de pessoas aguardavam ansiosas pelo anúncio do novo papa. Abrem-se as portas da sacada da Basílica, o púlpito, solitário aguarda o ecoar da nova voz, a voz da salvação.

Crac. Crac. (som do grilo). A menina cai da banqueta na janela da cozinha. Sai arrastando a tal banqueta, um lençol branco e um cabo de vassoura, inconformada com a impossibilidade de tornar-se padre.

MASNAVI

13 outubro 2009

Silence of the night

Noite cai
flores voam
folhas se jogam e eu
eu permeio a noite como
vento frio. (Masnavi)

"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro". (Hilda)

E o medo
demônio de vermelhos chifres,
baforando teu hálito podre
anuncia com passos marcados
deixando rastros
de passado.

"Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide Escura e clara, negra e transparente,
Ai! Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também. É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente é não ter rosto.
É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo,
"Esse" Que bem me sabe inteira pertencida.

MASNAVI

Construção - Sonhos

Agarrei meus sonhos com tanta força e avidez que os vi frágeis se esfacelando na minha frente, porque até os sonhos precisam do cuidado que lhes permitirá nascer, crescer e morrer – a maioria sem chegar a se realizar – e eu me esqueci disso, sob pena de ver os meus próprios como pó em todo o ambiente, se misturando ao vento e fazendo meus olhos arderem vermelhos.
Comecei a chorar. Era só um cisco.
Ainda maior são minhas mãos grandes e fortes. Tenho-te em dedos frágeis, pequenos sonhos. Tesouros únicos, imaculados em mim. Sou porque os tenho. MASNAVI

Composição


Traço a palavra como teia
Emaranhado de composições pretensiosas
Desenhando-se perfeitas.
O desejo é a rigidez de transpor
Sensações.
E assim segue.

Queria a poesia que calasse sua fome
Que silenciasse o medo e a saudade
Que anulasse a dor e a memória viva
Queria a poesia que te trouxesse acalanto
Que fizesse o sangue correr mais vibrante
Que lhe desse vida, quando é escuridão.
Que lhe olhasse nos olhos, quando ninguém mais o faz.
Que lhe pegasse nas mãos e te encostasse-se ao peito.
Que lhe fizesse sorrir e voar.

Então passo horas,
Papel em branco
Desconexo, vencido
Nada diz exatamente como é. MASNAVI

08 outubro 2009

Leitura de mim

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si".
(Cartas - Clarice Lispector)

Descortina

A rua era estreita, deserta e cheia de pedras. O céu era cinza e úmido. Sua mão, de luvas, encaixava-se na minha e nos dedos, os anéis, os sentidos e muito frio. Tudo aquilo deslumbrava-nos e enchia-nos de alegrias que nos preenchia como se todos os vãos encontrassem sua alma gêmea no espaço, por força de encontro destinado. Pertencíamos aquela terra como nossas almas pertenciam aos nossos corpos. Então a onda quente penetrava-nos os membros e o coração transbordava em signos multicores. Os pés nos guiavam em sentidos contrários, endoidecidos por novidades e nós nos puxávamos, de um lado para o outro, porque nada faria sentido se não fosse assim, minha mão, na sua. MASNAVI

07 outubro 2009

Mono-Poesia

O pulso-sincronia
A bula-utopia
frente-a-frente
Somos Uno.

O que sobra
o Ser.

MASNAVI

A vida na cidade cinza - Intervenções








Nós somos os defensores das flores! Vocês tem a coragem de se entregar as flores?
Eleita a obra mais feia da cidade de São Paulo, o minhocão é fonte de inspiração para diversos artistas. Mas porque flores? Porque quando queremos deixar nossas casas mais bonitas, colocamos flores. Simples assim
Tenho muito orgulho do trabalho de uns amigos e ex colegas de trabalho do jornalismo/tv e gostaria de divulgar aqui. Tive a oportunidade de presenciar e viver a arte em muitas intervenções capturadas neste flickr. E a inspiração que é conviver com quem quer mudar o mundo.
Que as flores brotem dentro de nós! VEM!
Jardim Suspenso da Babilônia - Felipe Morozini
30 pessoas, 8 fotográfos, 4 video makers, 30kg de cal, 75 flores, 15min e 1 documentário

04 outubro 2009

A fábula do passarinho


"um vínculo com o outro que não conhece desejo mais ardente que a vontade de conduzir a própria vida no corpo da pessoa amada" Lacan



Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes - Violeta Parra

Havia um pássaro machucado, com a perninha fraca, cambaleando pelo lado escuro do parque. Ao observar que havia ali outro pássaro, observando-o, ao longe, passou a disfarçar sua perninha e continuou caminhando pelo parque, olhando para trás. O outro pássaro, encantado, foi atrás do passarinho. Vendo-o com sua plumagem amarela, bico aprumado e olhar brilhante, não pensou em mais nada e apressou o passo para tentar alcançá-lo. Quando chegou ao seu lado, olhou para seu biquinho laranja e fez-lhe um elogio. O passarinho de perninha fraca agradeceu o elogio e voltou a caminhar. O outro animalzinho passou a ficar desesperado com a possibilidade de perder aquele biquinho laranja de vista. Apressou ainda mais o passo e o alcançou novamente. "Posso caminhar com você?" - lhe perguntou. "Acho que sim" - o passarinho lhe respondeu. O parque estava calmo e fazia um dia ensolarado. Então o segundo passarinho se ofereceu para trazer água e alguma comidinha para o passarinho. Ele fazia questão de mostrar todo seu afeto e cuidado com um bichinho que lhe trazia uma sensação gostosinha em seu tão pequenino coração.
Passou a caminhar por todo parque juntando minhoquinhas, folhinhas de árvore, grãozinhos de cereais e quando sua patinha já não aguentava quase nada ele pediu que alguém lhe ajudasse a encher um potinho com água para carregar nas costas. Foi então que a pomba, ajudando o passarinho com a água lhe perguntou:
- Para quem você leva toda essa água e comidinha?
- Levo para um passarinho que acabei de ver aqui no parque.
- Ah, mas você é bobinho. Deste jeito você não vai conquista-lo. A maioria dos passarinhos preferem a falta de delicadeza. Só assim fica desafiador. Ai eles ficam doidos, farão de tudo para ter o direito de caminhar ao seu lado no parque.
- Por que isso?
- Ah! Existem milhares de explicações na psicanalise. É o tal amor narcisistico... Fora isso, muitos passarinhos sustentam relações utilitaristas. Fazem do seu companheiro, uma ponte para suas frustrações, para sua negação, para seu esquecimento, enfim.
- Nossa. Isso tudo não é muito complexo? Eu só pensei em caminhar no parque com um passarinho de biquinho laranja.
- Bom, depois não diga que eu não avisei.
- Não me importo, pombinha. Vou lá levar a comidinha e a água.
Andou por todo parque procurando novamente o passarinho de bico laranja. Correu tanto que ficou cansado. De repente, viu ao longe o outro passarinho. Sua surpresa foi vê-lo caminhando com um terceiro passarinho. Abandonou sua comidinha no chão e sentou-se na graminha úmida do parque. "mas ele disse que iria me esperar" - indagou-se. A pomba passou ao longe e viu o passarinho sentado no chão.
- Eu lhe disse, passarinho. Eu lhe disse.
- Mas, pombinha, eu acredito que algum dia vou caminhar ao lado de outro passarinho, sem precisar trazer-lhe comidinhas, águas, nadinha será preciso.
- Isso não existe, gritou a pomba.
- Existe sim. Só é raro.
- Isso não acontece, passarinho!
- Pombinha, feche os olhos. Pense no mundo silenciando por dentro. É possível.
Depois de um tempo o passarinho de bico laranja voltou ao parque e encontrou o passarinho sentado no chão.
- Ei, me desculpe, eu perdi a noção do tempo. Aquele passarinho me lembra da época que eu conseguia voar.
- Não me importo com sua patinha manca.
- Ninguém havia reparado que eu tinha uma patinha manca!
- Eu vi de longe. Não falei nada para não te magoar. Desculpe, a comidinha caiu no chão e a água vazou no potinho. Preciso ir.
- Onde você vai?
- Vou voar para uma montanha aqui perto. Lá de cima o mundo silencia e eu ouço meu nome no eco. Você sabe seu nome?
- Não. Achei que fosse "passarinho".
- Queria te levar na montanha. Por isso trouxe a comidinha e uns gravetos. Eles te ajudariam a caminhar melhor. Não seria preciso que você voasse comigo. Nós desbravaríamos um caminho a pé e tenho certeza que chegando lá, ao ouvir teu nome no eco, você teria vontade de lançar-se no silêncio.
- Desculpe.
- Preciso ir.

A pequena menina

ela era pequena e frágil
ela se jogou no mundo
ela se machucou e sorriu
ela tornou-se livre
ela se jogou no mundo
ela abriu os braços
ela lhe deu o que era o mais raro de si
sua liberdade

Masnavi

Suicídio - O veneno

Pisava descalço numa terra seca e sem vida. Abaixado, tocou o chão com suas mãos ásperas, cheias de calos. Olhou o horizonte. Terra e mais terra. O vento cortava-lhe a pele seca.
Não havia nada ali.
Fechou os olhos, engoliu a saliva arranhando a garganta em quase morte. Seu corpo também não agüentava mais. Continuou andando. Olho baixo.
Um pé na frente, depois o outro. Havia uma fluidez lânguida em seu movimento. Estava envenenado. O veneno penetrava-lhe o pouco sangue, subindo calmamente para os membros, transformando tudo, até seus dedos em pó e aos poucos ele sabia que também se tornaria terra seca e sem vida. O veneno turvo brotou de dentro, pingando aos poucos sua escuridão corrente, transformando em pedra cada músculo, se apropriando de cada ligamento, dançando a música da paralisia, para enfim, cessar.
Agachou-se, trouxe um punhado de terra à boca, mastigou. Tentou expelir o veneno ao chão. Em vão. Ele era parte de si, era solução amorfa construída todos estes anos para tomar vida dentro do seu próprio corpo.

30 setembro 2009

Peru - Poe-vida


Acordai, senhores das almas!
Despertai do sono profundo
Venha-me deuses e diabos de
todas as profundezas
Sou o corpo que deixa os pés
na ponta do abismo
Que abre os braços e se deixa voar
De pedra e pó
Só o corpo
Eu sou feixe de luz
Senhores das almas,
Encrustrados em ruínas
Consagram meu vôo silencioso
Hoje coloco os pés no Peru.

Cotidiano sólido - O Condicionado


Se as portas da percepção fossem limpas, as coisas se revelariam ao homem como realmente são: infinitas." William Blake



Todos os dias eu passava pela mesma rua, em um dos bairros mais chiques de São Paulo. Era o acesso que me levava a faculdade. Tenho por hábito dar nome aos moradores de rua e como sempre passava ali em frente a um senhor, de chapéu de papel, trapos e casa de lona, dei-lhe o nome de 'poeta da praça'. Ele tinha em suas mãos muitos papéis e passava o dia escrevendo.
Certo dia, sentei-me na grama e me apresentei 'Oi poeta, sou a Aline. Podemos conversar?'.
O poeta então levantou a cabeça dos escritos e passou a conversar comigo.
Sr. Raimundo é um ex-livreiro que diz ter sido internado em hospital psiquiátrico e após sua saída foi parar na rua por ter sido vitima de um crime contra os direitos humanos e responsabiliza o Estado por isso. Ele se auto intitula 'O condicionado'. Raimundo passa o dia escrevendo contos, crônicas e poesias. Quando era livreiro, procurou muitas editoras para fazer um compilado, mas após receber muitas portas fechadas, decidiu renegar toda sua obra. Quem conversa com Raimundo tem o prazer de ouvi-lo falar e ler seus próprios escritos.
Apesar de viver num bairro nobre, Raimundo recebe ajuda apenas dos taxistas.

"Faça da arte literária, instrumento de incompreensão" - Raimundo, O Condicionado.

28 setembro 2009

Salve Danãe nas alturas


Danãe, trago-te flores ao altar
Derramo minha água aos seus pés, em ablução
Vejo-te minha deusa tão humana
Vem em minh’alma
Sem nome, Danãe.

Vamos nos rebatizar
E correr livre pelos sonhos
Somos deuses, Danãe
Não precisamos sofrer.
MASNAVI

Canção das coisas sem nome


...Como se, de longe, me lembrasse um voto de lealdade. Como se me dissesse que há uma terra, mas nós não a encontramos. Despedaçados, fomos atraídos pela luz e ao chegarmos, havia um pântano escuro e o céu desceu sobre nós. Passamos a carregá-lo como fardo. E eu lhe peço “Reze, reze por mim”.
...Como se, de longe, me lembrasse um sonho. E então com os olhos fechados, chego a mim, em segredo. Revelo outro caminho, trêmula e vejo a luz. E nos teus olhos, vejo meu reflexo semeando como flores um jardim solitário. Caminhando, vejo alguns botões de rosas escondidos em meio a tanto mato. E para cada morte, uma epígrafe e um deus.
E tu encosta-te no murinho, olhando a areia batida e todas aquelas casinhas, comércio, atrás dos teus cabelos, e no horizonte, água, alguns barquinhos e mais mato. Tu me mostras teu jardim, tal como é. E todos os deuses cultuados, cada qual ao seu rito, te acompanhando em todo canto, no fundo deste olhar perdido. Lá te acho. Contemplando.
...Como se, de longe, me lembrasse um voto de lealdade.
E teus olhos viram estrelas, teu coração vibra como um violoncelo em nota sóbria, teus olhos regam aquelas flores e os deuses dançam sob suas lápides, tu lhes dá a mão e a música que lhes envolve...
...Como se, de longe, me lembrasse que eu existo.
Quando falas do amor, os deuses dão-lhes as mãos e riem-se de mim. Quando falas de entrega, volta-lhe o passado e tu te entregas, tu afastas todos os deuses mortos e ajoelha-se em frente a si. Por um segundo o céu paira silencioso. E eu já não preciso estar lá. Não é o meu silêncio.
Então rezo por mim. (e meu jardim fértil, vazio). MASNAVI

25 setembro 2009

Inabitada

Inabitada. Só reconheço meu nome pelo amor.
Só sei que existo, porque o sinto.De outra maneira, é como se não existisse a mim.
E vou me abandonando, assim.
Vou me deixando ser invadida.
Vou voando para longe, tão perto de mim.
Algum dia, ei de contemplar-me, sentada.
Eis meu único Segredo.

MASNAVI

23 setembro 2009

Cineshit


Quem não se lembra de Hedy Lamarr? Ok. Apenas os cinéfilos se lembram.

É a Dalila do filme Sansão e Dalila de 1949. Ela participou de muitos filmes de 1930 a 1958.

Quando estudava cinema, meu professor Walter Webb quase morria quando falava dela, ou de Sharon Stone, que ele conheceu pessoalmente. (Prefiro Hedy, óbvio!).
A atriz ficou famosa após aparecer nua no filme "Ecstasy" (1933). O mais interessante desta história toda é que a atriz, fofinha como na foto, ficou de saco cheio do marido empresário ascendente da elite nazista e fugiu para a Inglaterra. Em plena II Guerra, a mocinha inventou um aparelho de interferência em rádio para despistar radares nazistas.
A invenção surgiu de uma brincadeira com um pianista, uma espécie de dueto, onde cada um repetia em outra escala a nota que o outro tocava. Isso tudo foi a base da telefonia celular.
(Quem gostar da história, dá uma fuçada na wikipedia).


22 setembro 2009

Banalidades cotidianas

Já não ligo mais de levantar-me todos os dias, pontualmente, às 6h30. Às vezes o faço até em finais de semana. Gosto de ter tempo até mesmo para não fazer nada. O problema é que Masnavi me acorda, pontualmente, às 5h. Ele sempre me convence a afastar a cortina e olhar lá fora. Depois eu viro para o lado e volto a dormir. Às 6h25 eu costumo pegar o celular e desligar o despertador antes que ele toque. Então olho para o quadrado branco que é meu quarto e alongo todo meu corpo, até ajoelhar-me, estendendo as mãos no chão, voltada aos Sutras. Meu primeiro pensamento todos os dias é “ai que cama quentinha” e o segundo é “eu adoro acordar cercada de livros” e o terceiro é “sou uma filha da puta de sorte, tenho tudo”. Então não recito um mantra. Acabo afastando a cortina voltada para a janela, virando para o lado e dizendo “Obrigada, Masnavi, por me fazer ver”.
Tomo banho em alguns segundos, brigo um pouco com meu cabelo, coloco a primeira coisa que tiver no armário, enfio o Ipod na orelha e saio correndo. Escolho Dave Mathews, todo santo dia, há um ano. Pelo menos para percorrer da minha casa até o ponto onde encontro com o rapaz que me dá carona.
Desço a Consolação conversando com Masnavi. Eu quero falar amenidades, mas às vezes ele não me dá sossego.
Eu digo “Masnavi, hoje não. Quero ouvir Dave e falar sozinha”. Mas não adianta, Masnavi desce a rua comigo, falando sem parar. Minha sorte é que no Centro, somos todos iguais. Eu e os mendigos descemos a Consolação falando sozinhos.
Chego ao meu ponto de encontro. Debaixo do Elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão. (lá foi gravado Ensaio sobre a Cegueira). Imagine como é sujo e feio.
Hoje, descendo a rua, ouvia Lover, Lay Down e cantava o finalzinho. É a parte que eu mais gosto. Imagino-me em um lugar lindo, debaixo de uma árvore, ou em qualquer lugar tranqüilo, feliz da vida. Acho que Masnavi daria um tempo para minha cabeça. Mas, enfim, me vejo deitada em um jardim, de mãos dadas, cafona assim mesmo e tão feliz. E aquela frase “I will wait for you. I will wait for no one but you”. Acho lindo. Lindo mesmo. E Masnavi pessimista comenta: “Mas cá para nós que as pessoas são bem mais complicadas que isso, certo? E só o fato de ter que esperar alguém já não é certo. A vida está ai para correr livre. Encontrar-se é seguir junto e não parar e esperar o outro chegar lá. “As pessoas só se encontram quando estão ocupando o mesmo espaço, no mesmo tempo e ai basta dar as mãos e ser felizes para sempre”. Nossa. Entendi porque é tão raro.
Ainda assim, voltei na música e parei do lado de Lóri. É o apelido que dei a nova moradora de rua que resolveu colocar seu colchão exatamente debaixo do predinho que eu espero o menino. Masnavi cumprimenta Lóri todos os dias. Eu fico quieta. Lóri ta sempre dormindo.
Masnavi tem mania de pedir permissão.
Então a música rolando e eu cantando ‘I will wait for no one but you’. E percebo que Lóri dorme num velho colchão idêntico ao que meu pai tem na praia. Então, reparo nos cabelos loiros de Lóri. Pelo corte que ela usa, deve fazer parte daqueles programas de reabilitação de usuário de crack. Eu trabalhei na Cracolândia e por lá a prefeitura manda toda rapaziada cortar o cabelo tudo igual! Então somos eu, Masnavi, Lóri e Dave. ‘I will wait for no one but you’. Será que Lóri precisa que alguém espere por ela? Não. Não. Ela ta doidinha. Ela só se entende com Masnavi porque os dois ficam deitados no colchão do meu pai, olhando as pombas no céu, que depois aterrisam no chão e brigam pelas folhas das árvores que caem. Fora isso, Lóri é livre e vai encontrar outro doido para fumar um.
Eu esperaria por Lóri. Tenho certeza que ela merece. Não me colocaria em armadilhas...
Então, vejo que temos tudo em comum. Principalmente o colchão do meu pai. Eu amo aquele colchão.
Procuro na mochila uma bolacha para deixar ali, para quando ela acordar. Agora ando com bolachas famosas na bolsa, pois a última vez que eu dei uma bolachinha barata para um mendigo ele me disse ‘Você come essa merda?’. Eu disse “Não”. Então, ele me disse “porque eu tenho que comer, então?”. Nossa, morri de vergonha! Aprendi a somente conversar com a rapaziada quando eu estiver no encontro, ou seja, no mesmo lugar, olho no olho. Eles também não vão me esperar. E eu andava atrasada.
Por isso, da última vez convidei o rapaz do carrinho de papelão para jantar comigo na padoca e foi bem melhor. Sentados, com garfo e faca, pãozinho velho, sem medo de ser feliz!
Volto na música pela décima vez e fico lá, vendo Lóri dormir. A sensação é de liberdade.
Tomara que eles me esperem.
Masnavi me espera.

O título é em homenagem ao meu pai.
Ele me disse que só o cotidiano nos fará felizes.

21 setembro 2009

Crítica e Fragmentos - Clarice Lispector

Fragmentos - “Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus
conselhos, por exemplo. Já agora falava sério:
- Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir
adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho.
É como enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso, queria evitar o
principal. De repente, porém notou que se não dissesse o final, nada
teria dito, e falou:
- Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às
vezes, por uma palavra tua ou por uma palavra lida, tudo se esclarece.
Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com
esplendor".

Crítica - O que realmente buscava era algo que não só não se resolvia com fórmulas prontas, mas, além disto, esbarrava na maior dificuldade que pode um ser humano ter: realizar-se como aquilo que é, no horizonte do que ainda não é. “Eu sou um monte intransponível no meu próprio
caminho” remete, mais uma vez, à tensão humana do entre. O entre-ser vige no aberto, que é
possibidade tanto da maior solidão quanto da maior entrega.
O esplendor de surgir de dentro de si mesma é a luz que não esconde as trevas. É a
resposta que, ao invés de pretender eliminar, põe em manifesto cada vez mais a pergunta de
onde surge. É uma aceitação ainda que momentânea do mover-se entre questões. É um breve
sopro da liberdade que nos constitui. Mas como fazer para surgir de dentro de si mesmo em
toda a grandeza do humano?`

Fragmentos: - O começo é uma prece. Ulisses, que nada tinha de religioso, surpreendentemente
pergunta a Lóri: Você sabe rezar? “Não rezar o padre-nosso, mas pedir a si mesma, pedir o
máximo a si mesma?” Não, ela nunca havia pedido. Havia reinvindicado, havia exigido, mas
nunca se colocado humildemente diante do mistério, para pedir, pedir o que realmente
importa. “Pede-se vida? Pede-se vida. Mas já não se está tendo vida? Existe uma mais real. O
que é real?”

Fragmentos - Alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à
minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na
verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é
não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com
que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te
indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a
pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação
porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no
entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem
receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu
mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre
esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para
nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com
alegria o pão que eu como que eu como, o sono que eu durmo, faze
com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei
sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar
que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar
a minha, amém.

Crítica - Não é de outra maneira que Lóri precisa de Ulisses e Ulisses de Lóri. No horizonte
deste pedido, compreendemos mais profundamente o amor que roga, humano, a presença de
um outro ser.
A dor de ser não permite enganos. Ela só se cura na plena presença
da verdade do amor como entre, como liberdade e doação. Por isso, Lóri e Ulisses não se
satisfazem em viver um amor que não está pronto. Eles querem um amor de verdade, o
impossível, e precisam realizar-se muito além do que conhecem e têm de certezas acerca de si
mesmos. Escutaram, um no outro, e em si mesmos, o apelo do pathos que é viver. E já não
pode haver mais fuga. Lóri então se aquieta, e diz a prece que talvez tenha buscado dizer
durante toda a sua vida. É um esvaziar-se, o esvaziar-se que prepara o nascimento do novo
ser. Na lua que que vela, a noite absolutamente escura, o silêncio se torna maior e mais vivo,
para dele nascer o dia.
- O ódio de Lóri, que era a imensa resistência a todo este apelo, começa a se desfazer.
Como se aos poucos se preparasse para iniciar-se numa nova vida. Um vislumbre dessa nova
vida havia se dado na imagem de Ulisses na piscina. Lóri sentira ali “um primeiro passo
assustador para alguma coisa.” É quando, desarmada, como uma criança “em encantamento
pelas cores orientais do Sol que desenhava figuras góticas nas sombras” se dá conta da
beleza de Ulisses. Da beleza que havia em Ulisses apenas por ser um homem, e existir nele
uma calma virilidade. Lóri descobre “o sublime no trivial, o invisível sob o tangível”. É é
como se de repente descobrisse
(...) que a sua capacidade de descobrir os segredos da vida natural.

De repente, nesta experienciação, Lóri estranha a si mesma. Não está mais no fulcro da dor. Está apenas vivendo um momento em plena presença. Neste estranhamento, pode dizer, encantada, humilde, e pela primeira vez:
“estou sendo”.
Estou sendo, diz Lóri. Estou sendo, diz Ulisses. Nisto, há um encontro. Porque o
estar sendo não é mais banal, como fazemos parecer todos os dias. Dois seres humanos se
encontram quando encontram-se no humano, e o humano é presença, vigor do entre-ser.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Fragmentos: "Seu corpo se consola de sua própria exiguidade em relação à vastidão
do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente
e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de
liberdade de cãos nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que
sem raiva ruge no silêncio da madrugada".

Crítica: A dor que não podia ser curada se apresenta como coragem de entrar no mar, de
adentrar o silêncio frio. Clarice chama isto de cumprir uma coragem:
Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e
grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a
de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer
exige coragem.

Fragmentos - “A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e
abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto
a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um
pedido secreto.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se
deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo tudo líquido deixam-na
por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé –
fertilizada.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão
pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que
não teme pois sabe que terá tudo de novo.

Diálogos - Aline e Masnavi

- Relembrei uma frase de Adélia Prado 'De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo'.
Início do meu diálogo:
- Gosto das pedras, pedras mesmo. Elas são bem bonitas, acredite.
- Não desconfio quando a pedra é bonita. Desconfio quando a pedra é pedra.
- É bem verdade que a boa e velha realidade em termos absolutos está em cheque mais do que nunca, mas das possibilidades da pedra, ser pedra é uma delas. E vejo poesia na pedra-pedra tanto quanto na pedra-não-pedra ou na pedra-coisa-alguma.
- Exato. Mas há que se considerar que o reconhecimento da pedra-pedra como UMA possibilidade já retira a pedra do estado de não-poesia. O problema é quando o ser de pedra da pedra se afigura como a ÚNICA.

MASNAVI

Cotidiano

A Sombra confia ao Vento o limite da espera
quando, dentro da noite, reclama o teu amor.
Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura, que surge tão bela e branca
derramando doçura, clara chama silente
ardendo meu sonhar.
Melodia Sentimental,
Villa-Lobos.

São 4h da manhã admirando um céu estrelado. Óbvio que não era qualquer céu estrelado.
É o céuzinho que aponta quando deitada na cama, afasto a cortina e abro um só olho para espiar as estrelas. É um vício noturno. Às vezes faço dormindo.
E pensando na beleza das estrelas brilhando mortas no céu, uma beleza de metáfora, mesmo que comprovada, fonte bem confiável, coisa mais linda, e as vermelhas, dressed to kill, que importa...
mortinhas, mortinhas.
Não era muito mais legal quando imaginavam que no horizonte havia uma queda d'água sem fim?
E ainda me imagino bactéria na barriga do gigante, admirando bucólica estrelinhas mortinhas.
MASNAVI

Dança Cigana

Levantou do caminho e seguiu
E dançou, dançou,
Rodou, rodou até ficar tonta
Ninguém conseguia fazê-la parar
Seu vestido refletia suas fitas de cetim
E seus olhos eram do puro negro
Era o bicho.
E ele a devorava, ferozmente.
Ninguém conseguia fazê-lo parar.
A dança,
Dela-bicho.
Finalmente encontrou-se. - MASNAVI

19 setembro 2009

Fitinhas e Rosas

Alta agonia é ser, dificil prova
entre metamorfoses superar-se
e - essência viva em pureza suprema -
despir os sortilégios, brumas, mitos

Alta agonia é esta raiz, pureza
de contingência extrema a abeberar-se
nos mares do Ser pleno e, arrebatada,
fazer-se única em seu lúcido fruto.

Alta agonia é ser: essencial
tarefa humana e sobre-humana graça
de renascermos em solidão vera

e em solidão - dor suportada e glória -
em nossa contingência suportarmos
o peso essencial do amor profundo.

Assim vives em mim, singela
pulsas em mim como a visão mais bela
entre rosas... queridas

18 setembro 2009

Carta de um marinheiro - Γοργών

Rio de janeiro, sem data

Desta vez não escrevo uma carta. Não dá tempo de escrever.
Minhas pernas recolhidas ao meu peito, meus dedos entrelaçados, ora olho para baixo, ora para cima e tanto faz, porque não dá mesmo para ver muita coisa. O sol queima meus olhos, a água se movimenta tão rápido que mal posso me concentrar em um ponto. Se houvesse um ponto, talvez eu pudesse pensar que lá eu seria pego e talvez desistisse, mas não serei. Ao longe, areia, algumas pessoas sentadas, muitas vozes de crianças brincando, carros passando, prédio que parecem se abraçar para me empurrar. E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens. O velho macacão azul, o poodle preto e eu correndo atrás da bola. Descendo a rua entre casas humildes para comprar sorvete. Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto, livre. Pulava os muros do sobrado, subia no telhado, amarrava uma pedra na ponta de uma cordinha e fingia pescar o dia todo. Lá longe, havia centenas de casinhas de subúrbio. Aqui dentro, havia centenas de sonhos e eu olhava o céu. Cá estamos juntos novamente.
Então abro os braços, como se pudesse te sentir. Sinto. E só sinto porque dentro de mim há. (E só ali.)
Levanto...

....Descia a rua correndo só para sentir o vento no meu rosto.
Livre...

...E na minha cabeça um milhão de vozes, imagens...

E o vento...

FIM – MASNAVI

16 setembro 2009

O Jardim - Nietzsche

“E não esqueçam o jardim, o jardim com grades douradas! E tenham pessoas à sua volta, que sejam como um jardim – ou como música sobre as águas, à hora do entardecer, quando o dia já se torna lembrança: – escolham a boa solidão, a solidão livre, animosa e leve, que também lhes dá direito de continuar bons em algum sentido!”

Carta de um marinheiro XI

Rio de Janeiro, sem data

Escrevo esta carta de letras bem desenhadas, dobro o papel delicadamente, lacro, selo e não mando. Deixo aqui em cima da mesinha, como se fora entregue.
Meus passos são tão lentos que às vezes acho que parei e nem percebi. Meu uniforme encontra-se guardado nas gavetas do armário. Hoje faz frio no Rio e a cidade se transforma. Parece revelar-se cinza.
Alguns dias durante a noite, peço que me tragam o sono, assim não seria possível perceber o tempo e tanta saudade. Então passo a fingir situações, como se meus delírios pudessem me acalmar, mas quando fecho os olhos e durmo, ai me vem os sonhos e meu coração bate forte, minhas mãos acreditam que tocam, meu sangue volta a correr e abruptamente se faz dia e meus olhos se enchem e tudo para de novo. E tem uma música que não pára na minha cabeça, tem tantos sentimentos que oscilam no meu coração e às vezes ouço meu nome e ouço tão alto que me parece emergencial. A voz às vezes pede que eu corra e eu levanto, olho para todos os lados e não sei bem para onde devo correr tão rápido.
A noite então se cala e quando não é tormenta, alguém cobre meus olhos com mãos macias e me faz dormir, mas acordo a noite toda.
Vou sentar-me no arpoador. Quero ver as ondas quebrando nas rochas e a falta de pensamentos na minha mente me dará paz. O que há em mim é tudo que tenho. Não quero me livrar de mim.

“Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo, não salvo a mim”- Garret

Prosa Cigana

Lilith, porque faz frio esta noite?
Grande Sara Kali não me cobre com teu manto colorido.
Não há rabecas e violões.
Não há fogo e dança.
Ciganas com suas saias, balançando os ombros por entre as cordas.
Meu sangue escorrendo, Lilith.
Meus cabelos pulsando, livres
Os olhares negros
Vibrando.

- Fale para ti, cigana.
Fale em voz alta!
Rode, rode,
Não deixe que te parem na dança
Estou aqui.
Lilith habita a alma e o mundo.
Os lugares que tu não vês.
E quantas estrelas há acima de nós
É tudo que temos
E nos basta.
Somos ciganos.

Lilith, tenho medo de amor.

- Fale para ti cigana
Fale em voz alta!
O amor sou eu
É tudo que temos
E nos basta
Somos ciganos

Vem cigana,
Vem dançar.

MASNAVI

15 setembro 2009

Memórias do calvário

“Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite e aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. (...) E quase paro de sentir fome” Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias


De repente a água compelida a degustar delicadamente os braços e pernas. Sentada sobre grama úmida, sentiu-se gentilmente acarinhada. Era mais.

Recostou-lhe os braços estendidos, como em prece, pedindo-lhe a imagem. As imagens grávidas pariam-lhe palavras e sentidos. Parecia-lhe uma história conhecida, talvez seus olhos rabiscados, esverdeados. Formou-se então um imenso labirinto, um caleidoscópio multicor, desvendado os reflexos e distorcendo-lhe os sentidos. Qual é o meu nome? – repetia-lhe a mente.

E de olhos fechados, balançando a cabeça para não deixar-se iludir pela verdade, ajoelhou-se desejando contentar-se com a liberdade, com a paz, com a ausência dos desejos, mas sua gula, sua boca de fartura, seus membros sensuais, engoliam tudo, se alimentando de signos já comuns a sua vida. Resfatelava-se aprisionada por seus medos, por sua falta de coragem, por seu conforto.
Então o labirinto escorregando das margens penetrou-lhe o ventre e atravessou seu tronco rígido, trazendo-lhe imenso incomodo. O ar faltava-lhe e também a visão, então trouxe seu dedo até a garganta reconhecendo seus restos decrépitos por todo chão. Suas mãos, assim como suas curvas eram de delicada poesia. A água a queria.
Era mais.

Irreconhecível, levantou-se e trouxe suas pernas para perto de si. Seus pés molhados davam-lhe frio, mas a água era inutilmente quente. Qual é meu nome? – gritava-lhe a mente.

Sentou-se diante de um grupo infindável de montanhas, altos cumes, um céu tão azul que dava-lhe medo de ser sagrado, gramas verdes, pequenas vidas vivendo apenas e aquele rio.
Ficou ali algumas horas, diante de si. Relembrava cigarros, drogas, zumbis, festas, alegria, sexo, mentiras, compaixão, humildade, sofrimento, via o mundo, este mundo sagrado, tão incrivelmente lindo e tão assustador.
Silêncio.

Deitou a cabeça na grama e o coração quase parou de bater. Qual é meu nome? – suspirava-lhe a mente.

Então se viu pequena, bem pequena, tão sozinha. Num mundo de tantos silêncios. E no meio de tantos silêncios, viu seu pai. Seu pai trazia-lhe malabares de palavras encantadas, um universo de signos e de livros. Então era um circo delicioso, em que se via esperando todos os dias por mais e mais. E ainda assim era solitário.
Quase sem perceber, no silêncio, via também sua mãe. E havia devoção, entrega compaixão e solidão.

Mas ao longe, uma voz calma cantava-lhe músicas de ninar e então ela sonhava. E ela sonhava tão alto que podia sentir florir sua alma de imensidão. “E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe”(C.Lispector). E ia e vinha. Pela primeira vez ela era livre e podia sentir seus braços soltos, suas pernas correndo afoitas por tanta e tanta vida. Não havia o silêncio, não havia a solidão, havia felicidade e encanto. E só assim era porque estava entregue. E tudo depois se repetiria conforme sua própria vontade.

Levantou-se, ajoelhou-se na grama, sentiu o cheiro úmido de vida e aproximou-se do rio. Mergulhou a cabeça em abraço e as mãos apoiando-se na terra macia. Afundou ainda mais o tronco e sentiu-se imersa em nascimento. Ouvia ao longe um som, chamando-a e não conseguia decifrar o que lhe dizia. Foi então que ouviu seu nome.
Seu nome.
Na placenta, com os pés próximos ao coração, recostava a cabeça ao coração de sua mãe. Balançava no tom daquele pulsar tão pacífico. Era quente e úmido. Nada lhe faltaria. Então seus olhos fechara e não havia fome. Agarrava-se a vida como fonte única de existência. Talvez não quisesse mesmo existir, dava-lhe medo.

Impulsionou as duas mãos com pressa para fora do rio.
Saiu correndo pela estrada, nua.
Então a voz cessou em sua mente.
Não era a hora.

Silêncio. (MASNAVI)


Notívago

"Nenhuma razão para pena. Esteja ela onde estiver, tem o cabelo incandescente como uma torre, queimando-me de longe, fazendo-me em pedaços apenas por sua ausência." Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha.

14 setembro 2009

Em todo lugar...


Caminhando lentamente,

de olhos baixos


cimento, cigarros, escarros

sujeira, pernas, sacos


caminhando lentamente,

braços soltos...


um abismo em cada passo.


Um milhão de movimentos recolhem as cinzas de mais um dia perdido. Um milhão de pessoas passam sobre os ombros, como luzes ofuscando uma calçada longelinea. E eu também ofusco a multidão. Sou dois e muitos no dia que não sou.

Há muito espaço entre um e um.

Mão escorregadia no deserto. Cheiro de pó e pedra.

E existe este lugar.

Este outro.


(em silêncio)

Somos demais humanos.


Aline

11 setembro 2009

Carta de um marinheiro X

Natal, sem data

Hoje escrevo para mim mesmo e dentro de mim, onde tu habitas chegarão devaneios de toda sorte. E sei que tudo será verdade.
O tempo acomoda todas as almas e todas as cartas que naufragam por mares serenos. As minhas, faço questão de honrá-las.
Preciso da embriaguez, da lucidez, do mar, da lua e do sol. Não me contentarei com pouco desta vez. Sinto-me tomado pela ansiedade das crianças, um sentir compulsório tomado de beleza que já não sei se inventada e deus parece fingir que não me ouve pedindo e pedindo que venhas, que sejas real, que exista minha verdade inventada e que o mundo se ilumine de prata para que caminhemos.
E que mundo é este recriado de abismos? Admirando feições de qualquer movimento, escravo de toda beleza, ainda se assim não for a realidade paralela, qual seria a realidade então? E quando encanto outros olhares, sei-me devoto de desejo único escondido na secretude de meu olhar perdido, movimentos conscientes e discretos. E todos os pensamentos cheios de expectativas que não tenho coragem de anúncia-los, pelo medo acreditar tanto neles a ponto de matar essa parte de mim que não aguentaria vê-los mortos. Seria um caminho sem volta, sem tamanho, sem saída. Então invento que não devo esperar, pois assim seria mais silencioso e calmo. Quando menos espero, encontro-me tecendo grandes castelos, casas, ilhas, sonhos e já me perco em mim novamente, admirando feições dos teus movimentos, escravo de toda beleza inventada e devoto de desejo único escondido em tudo que é meu. Entregue em tuas mãos.

MASNAVI

09 setembro 2009

Ramalhetes de flores aos Deuses

No fim da tarde
Com tiara de luz
A delicadeza sobrevoava
A casa
que se abria para mim

Palavras e conselhos
soavam sinfonias
de olhos onde tudo se recorda

suas mãos macias
Pareciam desertos de areia
infinitos
e eu caminhava nua
com os olhos fechados
Seguindo o cheiro de jasmim
(Jasmim)

E se forem estrelas?

Então tu me cobririas com teu manto cintilado
acariciando-me os cabelos claros
e trazendo-me ao teu peito em gratidão
Tua voz seria brisa
Refrescando-me a pele clara ...

E se for esperança?
No fim da noite
com tiara de luz
a delicadeza se reveste,
não se encontra
A casa
Tu me ajudas a abrir

E se formos infinitos?
(Tu estás aqui) - Menina, essa cabeça é só para usar chapéu de fitinhas. MASNAVI

04 setembro 2009

Da brevidade da vida

Milhares de letras surgirem e descrevem cada linha dos afazeres necessários para a completude. Milhares de letras viram pó diante de cada dia que surge. Quando olho para baixo, vejo duas mãos e só nelas vejo as possibilidades.
Há um espiral gigante que de tempo em tempo me faz voltar ao mesmo ponto. Cabe a mim, querer voltar sempre diferente. Há uma Terra finita e um universo infinito dentro de cada célula de minhas mãos. Volto, todo universo aqui está e só posso ser grato por isso. Todos os dias há 35 escovadas nos dentes superiores e mais 25 nos dentes inferiores, depois um banho e uma roupa, um trajeto e um trabalho. Além disso, há muito pouco objetivamente.
Nestes segundos de luz entre milhares de anos de escuridão de estrelas faz-se necessário ascender e desprender-se de si para tornar-se livre. O amor é fonte única de liberdade. É o vento que abre as janelas e descortina os medos, levando tudo, dando-nos a possibilidade de querer mais. A leveza requer desprendimento de si, exercício e compaixão. A densidade é um rio amargo que afoga apenas aqueles que não sabem nadar e imaginam que são corajosos e cheios de si, todos iludidos por seus corpos fortes e gigantes. Eis que surge o pequeno alheio que a cada dia move um terço e promove a fonte límpida de verão. Não há peso na delicadeza. Só há felicidade quando olhamos uns aos outros, livre de si.
A vida é finita e seu fim está sempre próximo.

MASNAVI

01 setembro 2009

Carta de um marinheiro IX

João Pessoa, sem data.

Querida Catarina,

Atraco mais uma vez em Nossa Senhora das Neves, cidade nascida no mesmo mês que eu. Diferente da última vez, a brisa do mar amansa-me os cabelos com toques mais suaves. Meu corpo encharcado pisa no porto e começa a descarregar a carga. Às vezes acho que o trabalho duro e o sol na cara me fazem pagar o preço de estar vivo. Devo muito a essa mola propulsora chamada existência. Sou sonhador, querida Catarina. Não sei ser diferente. Já cheguei a achar que sou inconseqüente, mas se há a chama, devo segui-la. Talvez os leões do mar me engulam a tempo.
Tu não percebes, Catarina, que podemos dar-nos este equilibro. Desejo a vida de novela também, com cachorro e filhos famintos. Na verdade, minha paz encontra-se nisso. A medida exata de vida e paixão, ainda não sei, mas vou encontrá-la, lhe juro.
Tuas palavras soam como lindas flores de primavera que desabrocham vagarosamente ao sol. Parece-me uma menina travessa aprisionada em corpo de mulher. Todos comentam de tua beleza e às vezes sinto-me não merecedor de tanto, aos olhos.
Não precisamos de muito, Catarina. Precisamos manter nossos corações inocentes e só assim os caminhos se iluminarão para nós. Não há maldade que supere corações inocentes. Nada nos absorverá e a simplicidade é o que mais buscamos, enfim. Não serei teu deus da ilusão, tenho medo de tu não aceitares o cotidiano que pode ser possível entre nós. A vida é coisa simples mesmo. Não te prometo o céu, nem a terra, mas um meio de vida de liberdade, cheio de pequenas prisões. Vamos nos comprometer ao exercício. É uma amarra por dia para desatar. E acredite, pequena, nunca estaremos completo em nenhum dos mundos. Há aquele lugar que habita o silêncio e o grito, onde escondemos a saudade da Origem. Nunca vamos estar completos. E tu és sábia. Quando te perco por segundos, sei que tu preservas tua essência. Tu voltas para teu lócus e lá esta teu momento de plenitude. Não em mim.
O mar me ensinou muitas coisas, mas há muita inexperiência nesta camisa suada. Vejo-te descrevendo tuas histórias e lembro-me de ouvir algo semelhante de meu avô. Teu avental é parte de teu braço de lavadeira e da força do teu espírito. E nossas lágrimas são a salvação dos pequenos males e das prisões do nosso coração. Minha força é mais imponente quando choro. Essa é a real sabedoria.
Quero que acredites na simplicidade e na calma do amor. Saibas que a paixão se leva de nós e sobra apenas a brisa refrescante do mar. A paixão que sobrevive é apenas aquela que temos pela vida. Essa é a maior lição que levo do mar.
Sou marinheiro por escolha. Escolhi a vida e ela escolheu a mim. Quando meu pai me disse que tudo que eu desse ao mundo, teria de volta, sai de casa e levei somente a mim, sem medo de cair ao chão. Penso que não me faltou nada e já fui desacreditado por muitos. Certa vez, me disseram que um homem letrado como eu não deveria limpar o convés. Tive vergonha por alguns segundos. Aquele era o meu trabalho inicial e eu fazia com carinho. Esfregava o chão com o perfeccionismo que sempre coube a mim. Acredito no trabalho das mãos e na humildade de fazer-se pequeno. A cultura é artificial, acredite.
Teu caminho te revelará com força. Estarei sentado vendo-te passar com teus panos, tuas roupas limpas e sei que tu serás uma marinheira.
Hoje estou mais velho do que ontem e sinto o gosto doce do bolo de laranja. Aguardo meu presente e farei como tu pediste.
Catarina, a vida é frágil. Segure-a.

30 agosto 2009

Carta de Catarina ao marinheiro (VIII)

Querido marinheiro,

Não sabes fingir sequer uma sensação, quanto mais um sentimento. Tuas rugas de sol traem teus pensamentos e a tua atenção se volta à espera. Já que está em alto mar, sente por mim a brisa salgada tocando teus lábios ressecados. Admiro tua coragem de enfrentar os monstros do mar e os dragões da noite. Mas, para as coisas de coração, não passas de um menino. Tu és do mar. Tu és sonhador. Nós, mulheres que acenamos do porto, temos o coração enterrado como raiz na terra, nos deixando ser sugadas para alimentar uma vida simples. Um marido e filhos famintos, todos carentes. Também temos sonhos. Eles tão doces que, imagino, nunca se realizarão. Entre um almoço e uma janta, me pego escrevendo num caderninho tudo o que ainda quero conhecer desse mundo grande e bonito. Quando acabo, coloco cuidadosamente embaixo da bíblia, imaginando ser guardado por Deus, a quem peço: nunca deixe ninguém ler essas palavras tão sonhadoras. Meu marido, minha prima, minha vizinha, ninguém entenderia. Meus filhos ainda não entendem de sonhos de adulto, mas eles poderiam rasgar minhas páginas preenchidas de uma vida que ainda não vivi. Tenho medo que o caderninho se perca porque, assim, seria mais fácil esquecer dos meus sonhos. E não quero perdê-los. O que quero te falar, como se falasse a mim mesma, pois não sei se essa carta chegará a ti, é que essa vida é muito complicada. Mas eu sinto que, ao contrário do que parece aos olhos dessa gente covarde da vila, que tem a maldade do julgamento divino, simples seria viver contigo. Enquanto na terra há abismos, os obstáculos do mar que imagino seriam marolas de espuma branca. Eu acordaria contigo, sem saber o que comer, mas, como já aconteceu antes da formação das cidades, antes do medo e da vergonha, ainda no paraíso, o alimento cairia em nossas mãos e eu o levaria à tua boca e tu à minha como sinal de cuidado e confiança. Para que nunca perdêssemos esses sentimentos, pois teríamos apenas um ao outro. Quisera tanto que a vida que tenho hoje me bastasse. Que o sol na moleira, as mãos do meu marido e a dependência das crianças me preenchessem. Seria tão fácil. Mas é tão diferente de mim. Eu sonho. E eu, sim, sei fingir. Porque acho que no dia que alguém souber desses sonhos, eu terei perdido meu refúgio e terei que concretizá-los ou deixá-los de mão, mas nunca mais poderia viver nos dois mundos. Sei que hoje não vivo em nenhum por completo. Não são boba ao ponto de enganar-me. Mas me deixa segura saber que, na falta de um, eu tenho um pouco do outro. Um pedacinho só já me basta, pelo menos por um domingo silencioso. Às vezes acho que te digo besteiras. Tu, um homem do mar, que já enfrentou de tudo, deves rir das minhas bobagens. Há momentos em que penso como inventei toda a complicação. Na escola, aprendi que 2 +2 eram 4. Um dia, fui levar a roupa à casa de um senhor, de cabelos e roupas brancas, e ele tinha um livro nas mãos. Parecia não me dar qualquer atenção, apenas àquele pequeno livro de capa preta. Era bonito. Tinha palavras em dourado. Lembro que, talvez por ser muito nova, eu me perguntei como ele poderia dar mais atenção a letras mortas se ele tinha alguém para conversar. Naquela época, eu entendia tão pouco das coisas e falava demais. Ele leu meus pensamentos ou meu olhar indagador e me disse “pequena, viver é muito simples. Você não fica feliz quando o dia amanhece de sol? Mas você tem que entender que não é o sol que te deixa feliz. É o que há dentro de ti. E, depois que entendes isso, é mais fácil aceitar que 2 + 2 não são 4, como te ensinaram um dia, mas 5. Essas pessoas sim, complicaram a tua vida”. No momento que ele terminou, eu comecei a chorar. Levei a ponta do avental para limpar os olhos e ele disse que eu deixasse, porque lavaria minha alma. E eu, como lavadeira, deveria começar lavando as almas, antes do corpo e, por último, é que viriam as roupas. Não sei se sabes o gosto das lágrimas, marinheiro. Pois és forte como as rochas de que tu desvias a proa. Mas digo-te: é salgada; não como o mar, porque também é doce. Depois desse dia, lavei as roupas daquele homem sem receber um vintém, por pura gratidão. E também por gratidão, ele me ensinou o pouco que sei das palavras. Certa vez, pouco antes de ir embora, ele me pediu para que descrevesse cada sentimento meu, porque só assim saberia ser compreendida quando precisasse escrever cartas. Ele nunca me mandou nenhuma carta. E eu vi que não poderia ser compreendida por essa gente de olhar vazio. Mas eu escrevi muitas cartas. Para a minha mãe, minhas tias de longe. Nelas, sempre falo de coisas tão bestas: as crianças vão bem, a casa precisa de uma reforma, mas só terei dinheiro no final do ano, a saúde de meu marido é frágil. Só contigo me senti tentada e tomei coragem para descrever meus sentimentos a alguém além daquele que me ensinou. Porque sinto que a simplicidade que eu tanto sonhei anda de mãos dadas contigo. Mesmo com tantas histórias e aventuras, a tranquilidade aporta em ti. Penso que só o amor pode fazer da vida algo simples. Foi quando decidi que também vou viver ao mar. Gostaria que soubesses. Mas não vou para um barco limpar convés e cocô de gaivotas. Foi por isso que não fui contigo, da última vez em que estivemos sob o mesmo sol. Quero ser marinheira também. Penso que tu me ensinarias, se eu assim pedisse. Mas quero um mérito na vida: me deixar levar pelos meus próprios pés. Até que, depois, eu possa andar levitando nas ondas. Tu és um homem vivido desde novo, e talvez viveste isso sem nem perceber. Porque também és impulsivo e corajoso. Peço que recordes da tua história para que encontres paciência para eu viver a minha do meu jeito. Porque eu aprendi que preciso de um passo de cada vez. As vogais vêm antes das consoantes. E só depois as palavras e, mais na frente, uma frase. Pequena ou longa, não importa. O que interessa é que tenha um grande significado. Acho que, com a cabeça no mar, acabo por falar em besteiras novamente. Queria muito estar contigo no teu aniversário. Sei que não poderás vir. Mas, amanhã, arrumarei a mesa e farei um bolo de laranja para ti. Acenderei uma vela, não no meio, porque a minha forma tem um furo e não quero pedir a da vizinha, pois não quero dar nenhum pedaço do bolo a ninguém. Ele é teu. Talvez eu coma um pouquinho, se estiver muito bonito. Mas a maior parte, deixarei para ti. Um dia te entregarei o presente que estou tecendo. Era para estar pronto no teu aniversário, mas parei porque tive que trabalhar e sustentar a casa. Ficarei feliz se você fingir que recebeu no dia. Está ficando tarde, querido. A noite chega e tenho que ir terminar os afazeres de que fugi para estar um pouco contigo.
Que a brisa quente te leve um beijo meu. Rezarei para que amanhã faça sol.
Catarina

29 agosto 2009

Carta de um marinheiro VIII

Catarina,

Prometi não desejar tuas cartas. Confesso, as desejo, mas sou bom fingidor. Amanhã vou nascer às 9h30 da manhã e espero nascer robusto, forte e sem dor. Não sou bom com aniversários, acho que por não estar acostumado a tanta atenção. O dia tocou meu rosto atrapalhado logo nos primeiros horários e eu me encontro à deriva de um dia tão festivo. Pareço sentir sono e ai não consigo prestar muito atenção a minha volta. Recolho-me aos meus sonhos.
Hoje deixo Natal e passarei minha nova idade em João Pessoa. Sinto deixá-la, mas assim me foi pedido. Minha tia veio visitar-me e partirá comigo até a próxima cidade. Ela foi necessária em minha infância e é alguém revestido de muito alegria. Pediu que eu abrisse um sorriso de dia especial e que vestisse o uniforme mais novo do meu baú. De prontidão, saimos a embelezar-me as faces e a alma.
Quando for meia noite e a ansiedade por meu nascimento iniciar, tu sabes onde vão meus pensamentos...

MASNAVI

28 agosto 2009

Eu nos sinto imensos...

"Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro.
E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera..."

Rilke - Cartas

"Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim
não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga
esta cortina atrás da qual há minha vida
a substância e a própria lei da minha vida
e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão
mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar –depois se cansou,se afrouxou
deixou-me cair e me quebrei.
Eras o que conheci de mais terno e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou –te fizeste abismo e naufraguei." (RILKE)

Carta de Catarina ao marinheiro (IV)

Fico feliz que estás em terra firme e tens nos pés a mesma poeira que os meus. Tenho medo do mar, mas penso que, se me chamares, navegarei além céu contigo. E dançaremos a bombordo e estibordo (vês? Já estou aprendendo a fala dos marinheiros). O tapete que teço é belo e etéreo como a nossa história. Teço-o em minha cabeça, pois ainda não encontrei os fios mais fortes e brilhosos como o teu nariz pontiagudo e teu sorriso de rei merecem. Gostaria de te encontrar hoje, no finalzinho da tarde, para ver o pôr-do-sol dos teus olhos. Mas tenho muitos afazeres. O jantar do marido e das crianças, que chegarão sujas a me abraçar. Sabe, querido, por vezes tenho pena dessas mãos pequeninas que abraçam carnes secas, sem o calor de mãe. Ou de mulher. Meu marido deseja-me. Mas faço como vi no livro que peguei na biblioteca municipal: conto-lhe histórias inventadas na hora. É certo que me atrapalho. Ele anda intrigado, mas é simples por demais para enxergar além da minha íris. Penso que ele riria de mim se conhecesse todos os segredos da minha alma. Esses, só divido contigo. Mas hoje sinto que isso é pouco. Queria dividir mais coisas. Costurar tuas camisas furadas, pois conheço a fúria do sol sobre o algodão. Por o teu jantar na mesinha, bem perto de mim. Dar-te um beijo de boa noite, virar para o outro lado com um sorriso nos lábios, pensando no que faria para o teu café do outro dia. Mais um em que passaria contigo. Também tenho desejo de descobertas. Por vezes, imagino-me colocando toda a minha coragem e duas camisas surradas numa mala e saindo contigo sobre o sal líquido e quente. Sem medo de monstros, que dizem existir no fundo do mar. Tenho passado muito tempo no cais e ouço conversas tolas de marinheiro. Mas eles podem ter razão. Não conheço nada desse mundo. Terias que me ensinar a velejar. A medida certa da firmeza no leme. É certo que precisarias de paciência. Mas, quando a noite chegasse, meus afagos te recompensariam. Não nasceste para essas terras salgadas, marinheiro. Digo que irei contigo. Se assim quiseres.

Sua Catarina

27 agosto 2009

Cubo cósmico

Cubo paralelo
de quadradinhos coloridos
Cai ao chão

Sua sorte é a cor de cada lado
Cada lado paralelo da sua cor
No chão, coloridos

Cubo ao chão

(Objeto indescritivel no vazio).

21 agosto 2009

Cartas de um marinheiro VII...

Ruas quentes, limpas, gente marrom. Como dissecando camadas, ando solitário pela via. De um lado, vejo areia, do outro mar. À minha frente há prédios e pequenas casas, ao longe vejo mais carros, mais semáforos, mais gente. Sinto o vento cortando o bafo quente nos meus lábios e quase consigo sentir o gosto da terra. E eu ia e ia. E mais negras macias, senhores europeus, gente parda e eu. Eu, um fluído de pequenas células e água. Eu quero ver o mar. Eu quero ver o mar.
E é Natal, mas poderia ser qualquer lugar no mundo. Com outras gentes de pele macia, outros senhores, outras crianças, outras gentes solitárias. Cada um com seu pequeno mundo e eu com minha imensidão de tudo que não há. Sento, coloco as mãos na nuca, abraçando-me a cabeça e olhando fixamente para baixo. Eu quero ver o mar.
Sempre ouço me chamarem no fundo. E nunca é nada. Não sou eu. Não é a mim que procuram e continuo caminhando. Hoje não procuro nada, porque de fato sei que não vou achar. Hoje sou presente. Apenas isso que vês: coqueiro, areia, cimento, pessoas e céu de nuvens cinza. Sou do tamanho do meu corpo, exato como um copo de água cheio. E vou andando aqui, acolá e o mundo fixo, como planta, me assiste ao desespero. É a paixão que tenho pela vida. E hoje prometo não citar teu nome.

MASNAVI

Carta de um marinheiro VI...

As ondas me chamam.
Como não tenho medo de muita coisa...
Vou.
Vou nadar com os fantasmas que riem de mim.
Vou cuspir em suas caras mórbidas e seus corpos imundos.
Vou defecar minhas vísceras e vou sair vivo.

20 agosto 2009

Cartas de um marinheiro V...

Catarina,

É a segunda carta que recebo de ti, mas nunca tive em minhas mãos tantas letrinhas desengonçadas. Tu, sempre tão breve, desta vez enredaste todos os pontos desta história. Tuas histórias são mágicas, Catarina. Digo-lhe que as palavras são como tuas rendas, entrelaçadas e entrecortadas meticulosamente para fazer-me arranjo pomposo em mesa abastada. Ficaríamos ali imóveis rindo da vida ordinária que se põem entre peixe, camarão, arroz e salada. Tu numa ponta, eu na outra, livres como só as passadeiras de mesa poderiam ser. Escarnando e escarrando no prato desta gente medíocre que não enxerga por debaixo da mesa. Vês, Catarina? O marinho se faz poeta para agraciar as tuas rendas e reverenciar tuas madeixas iluminadas.
Não sabia que tu vieste do Maranhão despencando até aqui na terra de teu marido. Confesso que tive de rir de tua maneira simplista de descrever-me tua vida. Saiba que também lavo pratos, o chão, as cuecas e as mocinhas do cais e minha mulher no Rio de Janeiro já não suportam tantas historinhas de biblioteca. Um homem deve manter sua virilidade. Ainda mais um homem viril, como eu. Confesso, peco sozinho, em segredo.
Mas esta não é conversa digna de cartas. Tuas crianças ainda serão minhas, Catarina. E mesmo não brotando de meu corpo, reconhecerei meu nariz pontiagudo e minha orelha torta.
Pequena Catarina, deixaste minha manhã leve com teus devaneios. A vida é tão simples quanto minhas camisas furadas, por certo e os medos sempre existirão. É a coragem que dignifica nossa ida para o mar. E por certo que pegarei na tua mão acreditando que tudo ficará bem. Os perigos são eminentes para tudo que abraçamos em vida. Deixar de viver também é jogada corajosa, aceitar a segurança de saber onde se pisa, enfim, somos jovens, merecemos mais. Jogar-se ao mar é aceitar o risco, mas acredito que não devemos temer duas almas tão retas. Saberemos cuidar um do outro, mesmo com os fantasmas que poderão surgir. Já conheci o mundo todo, tu sabes e nada aprendi sobre o amor. Não há lições aprendidas, nem coordenadas deste oceano incerto. Posso ensinar-lhe sobre o que aprendi sobre mim e que de certo, caberá em ti. Escreveremos nossos poemas e tu me ensinas tuas rendas e tu tens toda minha paciência, minha devoção, meus cuidados. Ensino-lhe tudo, Catarina. Traga tuas duas camisetas rasgadas. É tudo de que precisamos.
No momento final, Catarina, o coração sabe o que fazer. Os marinheiros do cais, teu maridos, teus filhos, tua terra, nada disso fará sentido se tua alma não fizer. O lugar de tua paz. É lá que se encontra teu destino. Pode ser neste velho navio, sujo, cheio de excrementos e água do mar. Levando tuas lindas madeixas para longe, dando-lhe os aromas mais saborosos de vida. Mas a vida e o amor também podem pousar sobre tua cama comprada e quitada, tua casa luxuosa, teu marido apaixonado, tuas crianças limpas, tua certeza de planos, teus mascates, enfim, onde repousar tua paz, lá estará tua certeza livre de medos.

- Engenheiros em quatro tempos -

No trânsito...

"Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
O teu olhar sempre distante sempre me engana
Eu entro sempre na tua dança de cigana

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver

Ontem à noite, eu conheci uma guria
Já era tarde, era quase dia.
Era o princípio num precipício.
Era o meu corpo que caía

Tu me encontrastes
De mãos vazias;
Eu te encontrei
Na contramão."

Cartas de um marinheiro IV...

Pequena Catarina,

Lat 05°46'24"S Long 35°11'W, essas são as coordenadas do meu espírito de hoje. Acabo de chegar a Natal, às margens do rio Potengi. Vejo passar por mim muitas cargas. É melão, manga, melancia, uva, mamão, enfim, o mundo aqui esta colorido. Não é a primeira vez que desembarco aqui, porém não me lembrava de como era lindo. A silhueta da cidade é longilínea e me enlouquece a possibilidade de caminhar por tanta beleza. Saindo daqui do bairro da Ribeira, vou caminhando pela Rua Chile, observando casinhas que parecem pintadas à mão. Os fios de energia elétrica se confundem a paisagem difusa de cores, concreto, antiguidade, placas de identificação, lixo e tal harmonia surge somente quando se olha para trás e se vê a unidade da composição. Fico aqui por mais alguns dias e vou contando-lhe minhas aventuras. Sabe, Catarina, a melancolia me fez visita e ouvi aquela música que nos leva para outros lugares. Aquele som encantado que nos aperta o peito e nos dá esperança. É o que nos mantêm vivos. Acreditar que há sempre muito mais por vir. Sinto-me demasiadamente jovem e quase invencível. E hoje, aqui em Natal, escrevendo-lhe neste banco de cimento, sentindo o sol queimando minha nuca e o vento beijando minhas costas, sinto-me areia deste chão, movimentando-se com o vento, enriquecendo as grandes dunas que se arrastam pela Via Costeira. Soube que me teces um tapete, Catarina. E o que faremos com tudo isso? Tuas crianças e teu marido hão de encostar os pés sobre minha alma, rindo-se de minha pequenez? Quero fugir e a prisão é meu próprio corpo. Posso fugir de ti, Catarina, mas não de mim. A liberdade do filho das estrelas é fulgaz e hoje sou do tamanho das minhas vontades e da nossa circunstância. Digo que fico em Natal.

MASNAVI

19 agosto 2009

Música da noite...

My mistakes were made for you - Last Shadow Puppets
(forget about the lirics... I heard it today like a thousand times!) 

Cartas de um marinheiro III...

Pequena Catarina,

Ainda me encontro na Vila Poti, às margens deste belo rio. Acordei mais cedo e fui a Pedra do Sal, banhar-me em águas salgadas que me lembram o gosto de tuas madeixas. Havia um barquinho à deriva e lembrei-me do quanto gostávamos de sentar à beira do mar, encostando nossos pés na areia branca, observando a lua e as estrelas e contando os segredos que não dizíamos nem para nós mesmo em voz alta. Ali, ecoando fantasmas, pareciam sair de nossos corpos e lançar-se no mar. Nós riamos das figuras feias imaginárias que criávamos como sendo nossos maiores medos. Tu dizias que eles teriam de ter orelhas feita as minhas, amassadas e eu dizia que seriam desengonçados como tuas letras tortas.
E tu estavas aqui, Catarina. Olhei para ti, não soube identificar as suas vestes, mas o cheiro de teus cabelos era o mesmo, assim como teu olhar rabiscado. Levantei-me em prontidão e disse 'Venha, Catarina, vamos nos banhar!'. E corri mais rápido que o próprio vento, caindo na água e me atrapalhando todo. Olhei para todos os lados e tu já não estavas mais. Então abaixei a cabeça por debaixo das ondas e fiquei boiando, de olhos fechados, com o sol queimando-me a cabeça. Olhei para a linha que divide as ondas de todo resto de mar e imaginei que tu estivesses ali, em alguma ilha por de trás de tudo aquilo.
Soube que tuas rendas deram-lhe frutos e tu esta expandindo teus mascates. Fiquei muito feliz. Tua carta era um tanto confusa. Ainda não entendi teus planos secretos, mas se são secretos devem permanecer assim. As palavras têm força e é melhor que tu dê seus passos sem o peso das palavras. Quero-te livre. Tu sabes.
Não entendi muito bem se não queria receber mais minhas cartas, mas acredito que se forem assim, apenas contando-lhe minha vida, não lhe afetem de tal maneira a tirar-lhe a paz. Quero dar-lhe histórias felizes, então, meu refúgio ainda são estas cartas.
Hoje deitado na cama, tinha em minhas mãos um livro de histórias de Gilberto Freyre, Dona Sinhá e o filho padre. Gostaria de lê-lo para ti. Foi assim que parti para Pernambuco e deixei meu coração por lá. Foi este livro que me levou a primeira vez para Recife. Talvez, algum dia, nos possamos nos deitar no chão de um lugar qualquer e eu possa lê-lo para ti. Tu terias meu carinho em tuas madeixas. Deixo-te com tuas rendas e escrevo-lhe quando chegar a Natal.

18 agosto 2009

Carta de um marinheiro II...


Amada Catarina,
Encostei-me nesta parede de pedras, próximo ao porto do Rio Parnaíba e abri carinhosamente sua carta. Recebi aqui mesmo, no Piauí e guardei-a no bolso, junto ao bilhete de letras igualmente desengonçadas. Sabe, Catarina, eu quis esperar um momento, como se eu pudesse fazer o tempo parar para apreciar delicadamente cada palavra que foi dirigida a mim. Não faço outra coisa senão pensar nestas tuas palavras que chegam aos poucos, como gotinhas de chuva em terreno árido, a espera.
E então, brevemente tu revelaste tua vontade. Eram poucas as palavras que se embaralharam em minha frente, formando linhas contorcidas e acelerando meu coração. Tu sabes que sou emotivo. Carregou meu peito de lágrimas e tive de esconder, pois é assim que o esperam de mim. O tom de despedida confundia-se as palavras que me impediam de ir e saibas, ficando ou indo, igualmente sofro. Nada muda no meu coração sonhador. Sou incansável. Acredito que sou quase louco, talvez o seja. E quando fecho aos olhos te vejo em tua casa, com tuas praias, com teus amigos, com teus afagos. Realmente me dói. Não sou eu quem está ai para segurar-lhe a mão em dias de sol e em dias de chuva. Não sou eu quem vai enxugar-lhe as lágrimas, quando tiveres seus medos noturnos e sonhos esquisitos. Não sou eu quem vai encarar-lhe os olhos e revelar teus desenhos, mas acredite apenas em uma coisa... Eu quero e quis desde sempre. Não consigo revelar-te os mistérios deste encontro. Não os sei.
Se tua paz encontra-se no Maranhão, com tuas rendas e bordados, com tuas músicas próprias e manhãs de praia, quero que a tenha. Prefiro tu a mim.
E não me digas que escreverás menos para mim. Não escreva. É melhor para ti. Assim tu segues tua vida digna, com manhãs ensolaradas em que tu verás tantos outros cachorros, com crianças correndo e o sol tocando seu rosto, um carinho de Deus. Acredite, Catarina, em meus sonhos também acarinho sua face, a minha maneira divina. E o faço mesmo diante das tempestades que assolam esta navegação.
Com os ombros rasgando nesta parede de pedras, penso que a vida é realmente palpável e o sonho... O sonho fica aos sonhadores. Pegue então tua vida pelas mãos e desejo-lhe fertilidade com tuas rendas, com tuas vontades. Algum dia a vida há de brotar novamente da pedra, do mar. Não sei. Hoje meu tom é desesperança, perdoe-me.
Volto para minha casa, no Rio de Janeiro ao final do ano, queria levar-te comigo. Tu poderias fazer tuas rendas na praia e eu lhe ajudaria com tudo. Teria meus filhos.
Catarina, não abandone tuas rendas. São por demais lindas. Espero que a protejam do calor de tua pele clara, que lhe dêem respeito e afeto, que lhe façam sonhar, que lhe dêem a vida embriagada em vinho. Podes ir.
Apenas não me peça para ficar longe de minha tristeza. Peça-me todo resto.

- MASNAVI

Sono profundo...

Drink up baby, look at the stars
I`ll kiss you again between the bars
where i`m seeing you there with your hands in the air
waiting to finally be caught
drink up one more time and I`ll make you mine
Keep you apart deep in my heart
Separate from the rest, where I like you best
And keep the things you forgot (Elliot Smith)

- As vezes penso que sinto enquanto todos dormem.
Penso que deveria dormir também.
Essa vida de Segredo é uma grande utopia.
(Guarde o Segredo, mas eu finjo dormir)
MASNAVI

Cartas de um marinheiro...

Amada Catarina,

Já fazem alguns dias desde que deixo para trás São José de Ribamar e tuas madeixas douradas de sol. Este navio, que segue para mais uma cidade, navega quase sem rumo, sem direção. Não paro de pensar naquela gruta celestial que testemunhou os encantos de meus olhos em tuas madeixas, Catarina.
Não era a primeira vez que me entorpeci com tua fragilidade e beleza, mas desta vez foi diferente. Desta vez, tu também olhou para mim. Tu sabes que não sou bom com as palavras, mas faço delas meu refúgio. Sinto-me sozinho com tanto mar e nunca me senti preso a nada, tu bem sabes. Sou espírito livre, desbravador. Parece que naveguei todos estes anos de vida para atracar no Maranhão e reconhecê-la como minha casa. E agora, Catarina, navego tendo para onde voltar.
Aqui em frente, além de mar, vejo teus olhos verdes, de rabiscos desencontrados, desenhados para encaixar em tua pele branca e teu nariz angulado que harmonizam com as madeixas que me faz tremer. Quero o sol do Maranhão e a areia branquinha que dorme absoluta diante de coqueiros gigantes. Só tu, Catarina, pode me trazer para a vida.
Hoje às margens do Rio Parnaíba, chegamos no Piauí e fomos recebidos por mocinhas no cais. Tu sabes, Catarina. Fui incapaz.
Tenho em mãos o teu bilhete de letrinhas desengonçadas e é tudo que guardo junto ao corpo.
A mim, cabe somente este bilhete.

(MASNAVI)

17 agosto 2009

À deriva III - Ausência e Saudade

Hoje sou o pó
esquecido na mobilia antiga
escondendo cantos de paredes sólidas
escurecendo fontes de luz natural
que não reflete no chão
por minha causa

Sou esconderijo de ratos,baratas, formigas
sujeira e chão
Um móvel vazio
que de tão inútil, foi esquecido

Ao pó sempre voltamos. - MASNAVI

O Segredo...

Aguarda-me.
Um dia, às cinco da tarde, te encontrarei na escada
e te levarei pela mão.

À deriva II...

E na entrada dos céus...

Lhe pergunto:
Revela-me o meu nome
O signo que como teia,
foi tecido para dar significado a minha existência.

Sem dúvida, tu dizes 'Masnavi, entre'.

E cada pedaço do meu vazio, aguarda teu líquido, desaguando em amor.
Assim segue a poesia.

"Dãnae,
como revelação, encontrei o céu
e toquei os dedos de Deus
transformando-me em líquido-alma
derramando-me pelos vazios de nossas angústias

Dãnae,
Suplico-te
Não separa-te de Zeus
Tu, que me fizeste imortal
Consagrou-me no silêncio de nossos altares-corpos
a chama viva da existência
a paz e a dormência da quase morte

Em outro lugar.
Longe das dimensões do expressivo
Sobrevoamos nosso imenso mar
e repousamos nossas cabeças na grama

De olhos fechados, Dãnae
Pude sentir que estavas ali
E somente ali era o meu lugar." - MASNAVI

À deriva

Hoje cheguei mais cedo,
abandonei os livros na grama
Olhei-me no espelho antes de vir
Sentei-me nesta escada fria
e ainda te espero
Devoto.

14 agosto 2009

Gatinho...


Vens de mansinho

De ron ron e de sorriso

Me abraçando pelas pernas

Me deixando sem juízo


Alegria de viver feliz

Leveza de permear a vida

Legitima a pureza

Inocenta tanta dor


Não sei imaginar meu mundo sem ti.


MASNAVI

13 agosto 2009

A poetisa pede silêncio

Hoje sou mina de ventos turvos
Riacho tranquilo, senil e soturno
Floresta em negro dia
de frio.

O silêncio cobre todos espaços vazios
de quem sou
e minha voz ecoa longe
as vontades da minha paixão.

A poetisa pede silêncio
Para morrer. - MASNAVI

10 agosto 2009

Poesia rasgada

Estou estilhaçada
silêncios saem da minha boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

Infância...



Havia um ritual pela manhã. Acordava as nove, penteava os cabelos, me agarrava ao livro Cavaleiro Inexistente e passava as primeiras horas do dia. Depois, alguma das muitas senhoras que cuidavam de mim, colocava comida no meu prato e eu aguardava pacientemente ela dar as costas para correr e jogar todos os legumes no lixo. Delicadamente eu colocava alguns papéis em cima, para que nunca fosse descoberto. Eu achava que se ninguém descobrisse, os nutrientes entrariam no meu sangue apenas por toda vida que eu sentia dentro daquele pequeno corpo magricela.

Após o almoço, começava uma correria, tinha que pegar o côco dos muitos cachorros que havia na minha casa. Era uma casa grande, em um bairro de periferia, cheio de crianças descalças na rua e violência urbana. Eu não ligava. Para mim era um castelo cheio de magia. Cada quarto era uma cidade e tínhamos nossa própria língua.
O quarto dos meus pais, por exemplo, era a cidade mais perigosa. Meu irmão mais novo e eu pulávamos o tapete imaginando ser uma ponte gigante e caiamos em cima da cama, pois lá era o navio que nos conduziria a um lugar seguro. Muitas vezes quebramos a cama e meu pai incansavelmente colocava um tijolo por debaixo do estrado.
Inventamos um dialeto daquela cidade chamado língua dos Omps. Tínhamos que falar todas as palavras com a boca aberta, sem mostrar os dentes. Nossos rostos pareciam rodelas gigantes e ficávamos tão esquisitos, que no início não conseguíamos parar de rir.

Após visitar muitas vezes aquela cidade, passamos a aceitar os diplomatas desbravadores que éramos. Então, mesmo com as caras redondas, ficávamos sérios e compenetrados.
Confesso que por ter mais idade, achava que meu irmão era bem bobo.
Tudo acabava quando meu pai chegava para nos levar ao colégio. Eu pegava meus livros e colocava meu uniforme. Gostava dele bem passado, limpo, como se fosse a uma festa todos os dias. Na verdade, não era festa, era apenas o colégio. Mas aquela não era qualquer manhã. Era a primeira vez que eu teria aula de literatura com um professor específico para tal matéria. Eu achava aquilo fascinante, aguardaria as entediantes aulas de gramática passar, para que delicadamente eu pudesse degustar qualquer saber lançado no ar, como se pudesse respirar melhor em um instante.

Chegava na sala de aula e me juntava ao fundo daquele quadrado imenso, cheio de cabeças menores na frente. Eu era grande e tinha certa vergonha de ficar na frente. Passado alguns minutos, entrava na sala uma senhora baixinha, de cabelos brancos, óculos fundos, parecendo prestes a desmontar. Era minha professora de gramática. Então, eu colocava aquele livro pesado sobre a mesa e me deitava atrás dele, fechava os olhos e declamava poesias, fábulas, contos.

Passou uma hora e quando olhei a lousa, havia mais de cinco quadros preenchidos. Aquilo era desesperador. O que tinha acontecido enquanto eu sonhava? Porque ela fazia isso com nossos dedos tão pequenos. Nem com todas as canetas do meu estojo eu conseguiria copiar todas as frases! Tratei por pegar do meu colega o caderno e copiá-lo incansavelmente. Parecia ter sido designado a um castigo. O castigo das mil palavras.
Quando de repente, lembro-me que deveria esperar imponentemente a nova professora de literatura.

Guardo meu livro pesado na mochila, em meio a um monte de papéis velhos, canetas sem tinta, chicletes de morango e amuletos quando entra na sala, uma mulher jovem, de cabelos de fogo e olhar marrom. Não consegui me mover. Meu corpo queimava e lembro-me de sentir calor daquele jeito apenas após os jogos de basquete e queimada. Como poderia me sentir assim, se não havia jogado nada? Depois disso, ao ouvi-la dizer seu nome, subiu-me um ar encorpado pelo peito, que parecia estufar os muitos vasos que deveriam existir em meu corpo. Minhas mãos suavam frias e úmidas.
Passei a segui-la com os olhos e ela tinha nas mãos o meu livro. O meu Cavaleiro Inexistente de Ítalo Calvino. E ela passou a ler livros durante as aulas enquanto as imagens me vinham na mente. Lembro-me do quanto sofri com Terra Sonâmbula de Mia Couto. Não conseguia dormir.

Após aquele dia tudo mudou. Não sei bem o quê, mas dentro de mim, este calor transformou-se em gosto pela vida. Um gosto que já habitava em mim e nas cidades que morávamos meu irmão e eu, nas línguas que falávamos e nas histórias que criávamos para viver melhor. Neste dia, o gosto era pela vida que eu descobri existir atrás das janelas daquele castelo, que enxerguei ser apenas uma casa, num bairro pobre. Percebi que as grades que me seguravam dos jacarés na cozinha eram grades para não deixar bandidos entrarem na casa. E apesar de tudo isso, havia um jeito de lidar com o mundo que poderia calar todas as angústias, acalantar todos os medos e dar-me impulso de co-existir com tudo isso ao mesmo tempo.

Eu tinha que agradecê-la e como não sabia bem como, passei então a escrever e dividir meus poemas durante as aulas, pois era a minha alma, ainda tão pequena, em letrinhas tão tortas, com tantos erros gramaticais, tantas insuficiências de palavras que ela calmamente dirigia e orquestrava outros caminhos de dizer as mesmas coisas.

Sentava-me nas escadas do colégio, todos os dias fatalmente às cinco horas da tarde aguardando que ela passasse ao longe e que por um segundo eu pudesse sentir o perfume de orvalho exalante de seus cabelos sempre molhados.

Ao cair da noite, no silêncio do quarto pequeno que eu dividia com meu irmão, logo após meu pai nos ler a Bíblia Ilustrada, eu achava engraçado como Jesus e todos os outros podiam ser tão parecidos. Meu pai fazia com que a gente rezasse o Pai Nosso, enquanto minha mãe nos fazia meditar ao som de Kitaro numa sala escura, debaixo de uma pirâmide, vocalizando mantras. Então, logo após o Pai Nosso, eu perguntava ao meu irmão o que seria o vosso reino e a vossa vontade e esse tal espírito santo. Meu irmão me dizia que eu não precisava saber, pois se meu pai mandou repetir era porque algo de bom tinha ali. Lembro-me que em uma destas leituras, eu comecei a rir, achando engraçado o nome de alguns personagens da Bíblia Ilustrada. Meu pai pediu que eu engolisse o riso e escutasse calado a leitura.

Tínhamos um terço branco que ficava encostado nas nossas camas e eu passei a acreditar que aquilo eram bolinhas mágicas que eu poderia falar com este tal de espírito santo.
Certo dia mudamos-nos para um bairro um pouco melhor. Tínhamos ao lado um cortiço cheio de gente estranha que brigava todas as noites. Foi quando tive a grande idéia de pegar aquele cordão cheio de bolinhas e uma cruzinha para fazer magia do lado de fora da casa. Ainda de pijama, abri a porta silenciosamente na madrugada e sentei-me na calçada com as bolinhas. Segurei na mão com força e entoando os mantras da minha mãe, pedi que os personagens da Bíblia Ilustrada e o tal espírito santo me ajudassem a trazer paz no coração daquela gente. De repente, o que na minha mente eram desenhos de homens barbudos e uma rua sem carros e cachorros dormindo, transformou-se em calor repentino no peito, passei a suar tanto que molhava meu pijama e minha visão já não enxergava.

Depois, o silêncio. O silêncio que cortava a rua escura. Os gritos, as vozes, silenciaram e não sei se as bolinhas tinham algum poder ou se minha cabeça pendurada na minha mão, concentrada tinha alguma força, não sei de nada, mas passei a não rir mais enquanto ouvia a Bíblia Ilustrada de meu pai.
Meus pais construíram um altar dentro do quarto, onde eu me ajoelhava após o almoço, pedindo perdão por ter jogado os legumes fora. E meus joelhos andavam calejados, pois eu repetia a molecagem todos os dias.
Era para lá também que eu arrastava todos os dias o meu colchonete pequeno, correndo do medo que eu tinha de dormir sozinho, no escuro. Meus sonhos me perturbavam muito.

Aos quinze anos, ganhei uma caixinha azul, já velhinha, com duas bolinhas que tinham pequenos sinos em seu interior. Eu sabia que aquela caixinha era algo que podia se comprar em qualquer esquina, mas recebi das mãos desta pessoa que por debaixo do suporte da caixinha, colocou uma medalhinha que viveu em seu pescoço por muitos anos. A senhora então me disse que havia ali o desenho da lua e do sol e que eu deveria chacoalhar a tal bolinha toda vez que sentisse saudade da minha Origem. O som, aos olhos fechados, me levaria para mais perto de mim. Ali eu não esqueceria mais da vida.

Voltando ao colégio, mantive-me devoto as aulas de literatura e os anos foram se passando. Meu corpo tornou-se mais rígido, meus poemas mais floridos, meu uniforme mais sujo e minha boca menos calada. Apenas uma coisa não mudava. Todos estes anos foram dias, de mesmas horas, consagrando o rito da escada. Sentava-me no piso avermelhado, frio, próximo a sala dos professores e aguardava ansioso o mesmo momento, todos os dias, como se minha memória não conseguisse fixar que aquele momento já havia passado igual por muitos anos.

Amei-a como uma deusa. Esqueci as tantas vezes que ajoelhei-me na frente daqueles santos sem nome, que se assemelhavam aos personagens da Bíblia Ilustrada, pedindo que me mostrassem o seu poder e me dessem a oportunidade de agradecê-la pela vida que me revelaste. E o que fizeste de mim, ou o que eu mesmo fiz com tanto sentimento, foi mais do que força de vida. Iluminaste todos os caminhos que vieram depois.

Às vezes me vejo sentado, esperando que algum dia, com outro rosto e outro nome, eu sinta todos os sentimentos do mundo imersos dentro de mim, novamente. Eu existirei por inteiro e revelarei o meu verdadeiro nome.
É então que chacoalho a bolinha próxima ao ouvido e sinto-me correndo neste campo imenso do meu corpo.
Já não guardo terços, santos e nem a Bíblia Ilustrada.
E isso me basta. - MASNAVI