03 outubro 2017

Efêmeras

Brasília expande a distância entre os corpos.
Do terceiro andar, tenho acompanhado manifestações, abalos sísmicos, o semi-árido
levando o verde da copa das árvores que tocam a varanda.
Quando chuva, vejo brotar os grãos suaves da vida. Sempre ela. Onde nada mais se encontra, há um musgo, um sopro, uma tentativa, um plano de imanência. Talvez seja apenas a alma do teatro fantasmático do existir. Afinal “O amor é sempre correspondido, mesmo quando não é recíproco” (Lacan).
Qual seria esse amor-vida que brota das árvores em dias tão nublados?
Trata-se também de joaninhas.
Envergonhadas criaturas mágicas que, disfarçadamente co-habitam a autoria do existir.
“O sol da tarde doura os campos. O açude reluz ao pé do bosquete de eucaliptos. Mas Eugênio só enxerga seus pensamentos” (Veríssimo).
Estaríamos ocupados com o espetáculo enquanto joaninhas re-existem?
A primeira vez que te vi mulher, pálida, semi-morta, sentada na cadeira de analista, pude
perceber o terror por debaixo de um sobretudo preto. Sobre tudo que havia vivo em você, preto.
Sombrio.
Ninguém deseja a noite. Descalabro dos ventos que movem coisas para todos os lados. A chuva, o carro, a culpa.
Sobretudo, a culpa.
Ninguém deseja a noite.
Mulher primeira, esfinge do desejo erótico que controla os ventos. Falemos de qual liberdade?
Sobretudo, do que há por de baixo do sobretudo. Que no entanto não despe. Incita. Cansa. Foge.
Quanto mais desnudo, mais provocante. Trata-se de uma presa. Pretensa presença. Porém presa. Uma presa.
Talvez o teatro seja apenas a grande provocação da liberdade. Interpreta-se. Assistimos às
sombras de nossas silhuetas que se tocam nuas, cheias de desejo. Um transbordo excepcional em tempos sombrios. Devir revolucionário. Enlouquecer? Palavra controlada no divã, sobretudo.
Brasília expande a distância entre os corpos e aqui mergulhamos em sagradas cachoeiras, cantamos aos pássaros e presenciamos OVNI’s.
O que haveria para além do teatro fantástico que se trama do terceiro andar do Plano Piloto? O que haveria para além do avançar do dia, entre o metrô, o hospital, o consultório. Do cinza
paulista e das quatro paredes apertadas que circundam teu corpo antes de dormir? E que às vezes se estreitam, te tocam o dorso, te colocam de quatro, de bruços, em posição fetal e te fazem dormir? O teatro do analista.
O teatro do analista.
Conseguirá o analista prender os fantasmas antes do sexo casual no divã? O que haveria de vida para além das paredes incontroláveis (incontornáveis) de seu consultório (casa)? Fazer do sobretudo um movimento suave de dança com fantasmas e suspiros, de gozo e de mais gozar.

25 outubro 2016

10/10/2016 - Brasília

Olá Silvia, chegamos aqui. 

Mais de mil quilomêtros para chegarmos até aqui, você e eu. 
Foi preciso o passar dos anos, quiçá das vidas, outros amores 
para chegarmos até aqui
Você.
Eu. 
Reencontro pouco esperado de (da) gente 
que nada espera. 
Tantos melindres da vida 
histórias familiares, 
Familiares. 
Chá-mate, Itamar Assunção, vermelho 
feminismo, amor livre, maternidade
cachoeira, candomblé, praia
poesia, pânico, sorrisos, Novos Baianos 

O céu de amplidão do Cerrado 
voa pela janela do carro
rápido
as nuvens correm 
as árvores correm
as pessoas em suas bicicletas correm 
eu, imobilizo. 
imobilizo as nuvens, as árvores, as bicicletas. 

A vida em um mundo de impermanências se trata de fazer imobilizar. 
Imobilizar o pulsar do teu peito dodecafônico 
Imobilizar o transbordar, quase transbordar dos teus olhos 
quando menciona teu filho. 
Acompanhar o abaixar do teu olhar, docemente, quando te intimidas 
O encontro de nossas fragilidades brandas,
Dos trechos de Mia Couto
Do passar dos dedos nos livros de um Sebo qualquer, 
de uma rua qualquer, de uma cidade qualquer, 
do café que se coa no guardanapo 
da comida que se divide
do cansaço que se divide
da tristeza que se divide 
e de tudo que se multiplica e que é potência. 

Chegamos aqui. 
E já temos saudade da vida sem tempo. 
Chegamos aqui
E não há nada aqui que não havia antes ou depois 
Exceto pelos pássaros mais cantarolantes 
do ganho de peso
das marcas de expressão
da quantidade de livros que atravessam nossas conversas 
ou ainda, 
das quantas pessoas que ocupam nossos corpos enquanto nossos corpos se fundem 
e se encontram nas brechas, 
nas rachaduras, nas erupções subterrâneas que se escondem, 
sub-repticiamente, 
sob a pele. 
E é de lá que toda luz movimenta sua dança 
Imobiliza seus cálculos e nos traz até aqui. 


Silvia, chegamos aqui. 

ROMANI CALÓN 

04 outubro 2016

O desejo do analista

Para Lacan, a direção de uma análise se orienta pelo que ele chamou de "desejo do analista”, que se define como um operador clínico que coincide com o desejo de pura diferença. O desejo que na análise o Sujeito produza sua mais absoluta diferença e que por meio dela construa o resgate da alteridade, que se confere pela condição de poder estar só, poder desejar, poder demandar, demandar laços que contemplem a pura diferença como inspiração para uma forma inédita de amar. (Seminário - O trauma na cultura da indiferença - profa. Miriam Debieux)

https://www.youtube.com/watch?v=htHFLUxCvSg

09 setembro 2016

Homem Comum - Ferreira Gullar

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bocas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.


© FERREIRA GULLAR
In Toda poesia, 1980